13 de junho de 2019

Caminhos de Santiago: uma metáfora da Vida

Estar a sós comigo. Este foi o mote da minha peregrinação a Santiago de Compostela, percorrendo o Caminho Português, a partir de Valença.
Entre montes, vales, florestas, vinhas, caminhos medievais, de ferro, estradas, aldeias foram mais de 130 quilómetros em seis dias, entrando na Galiza por Tui, passando por Porriño, Redondela, Pontevedra, Caldas de Reis, Padrón e Santiago de Compostela. A diversidade e beleza das paisagens trouxe um encanto especial ao caminho, percorrido de mochila às costas com muita alegria, e em que senti que o meu corpo estava a acompanhar a minha Fé. O sorriso dos peregrinos e da população local com quem me cruzei, sempre acompanhado de “Bon Camiño”, foi o principal aconchego para o coração de quem viaja sozinho, mas que, na verdade, nunca se sente só. A genuína troca de palavras entre os peregrinos, pautada por uma empatia e solidariedade ímpares, e com um toque de curiosidade, tornaram o caminho mais rápido e divertido.
O acolhimento, sobretudo nos albergues, também foi de salutar. Com o elementar (um sítio para tomar duche, descansar e recuperar as forças para a etapa seguinte), mas com espaços de convívio e de partilha.
Achei curioso o facto de alguns promoverem o Bookcrossing e disporem de pias para lavar roupa e sapateiras, promovendo a educação e a disciplina e lembrando que precisamos de tão pouco para viver.
Durante estes dias, tudo aquilo de que necessitava estava numa mochila de 50l e em mim...
Cumpri com o ritual da maioria dos peregrinos de, após seis a onze horas de caminhada, poisar a mochila no albergue, deixar o banho para depois e ir para as cidades, explorar a cultura da Galiza, pessoas, lugares, sem esquecer o provérbio popular “deitar cedo e cedo erguer, dá saúde e faz crescer”.
Foi, efetivamente, uma experiência única, em termos espirituais e culturais. Superou as expectativas, despertou o gosto por este tipo de viagem (penso que este foi o primeiro de muitos...) e trouxe inspiração para continuar o grande caminho, a Vida. Foi, igualmente, importante pelo sentimento de Liberdade e por colocar à prova a minha Coragem.
Ao chegar à Praça do Obradoiro, em Santiago de Compostela, à chuva, senti como que uma explosão de emoções. Felicidade por ter alcançado o meu objetivo. Gratidão pelo meu desempenho e pelos fatores extrínsecos que favoreceram o meu caminho e me fizeram crescer. E Fé, renovação da Esperança, do querer continuar a acreditar nas pessoas e no mundo, do querer continuar o meu caminho.
Olho para os Caminhos de Santiago como uma metáfora da Vida. Caminhamos todos rumo ao mesmo destino. Cada um com o seu propósito. E cada um trilha o seu caminho à sua maneira, consoante o seu quadro axiológico e o seu temperamento e em função das oportunidades e desafios com que se vão deparando. Mais importante do que o destino é o caminho, sendo que devemos ser nós próprios a conduzir a nossa própria existência, propondo-nos metas, definindo e colocando em prática planos de ação para alcançá-las, avaliando permanentemente o resultado dos mesmos e procedendo aos devidos ajustes.
Tal como no Caminho de Santiago, como lembra o Frei José Luís Caetano, no Guia e Diário Espiritual do Peregrino, companheiro de viagem, na Vida andam sempre lado a lado: “a dor e o bem-estar; a alegria e a tristeza; a certeza e a dúvida; a crença e a descrença, o amor e a indiferença...”.
Criei, no âmbito de uma formação, há alguns anos, uma espécie de chavão que tento seguir no meu caminho, TGV, e que nada tem a ver com velocidade: Think, Go and Create Value.
A todos, “Bon Camiño”!


Carmen Costa

 

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Autor: CA

Categorias: Opinião

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