14 de junho de 2019

Do Meu Olhar

Alguns desabafos e recados a sério

1.  As notícias da nossa Comunidade espalhada nos EUA, de um modo particular na Nova Inglaterra e na Califórnia , não são animadoras e chegam- nos de fontes seguras porque as oficiais parecem tapar o Sol com a peneira ! E até parece que tudo corre às mil maravilhas na nossa Diáspora , que costuma ser tão acalentada em tempo de eleições e também quando os nossos políticos precisam de apoios para as suas estratégias pessoais . A nossa Emigração foi sempre um retrato de sacrifício e de saudade, um espelho de enraizamento em terra estranha, com  outra  gente ,  com língua estranha numa sociedade estranha ! Mesmo assim fizeram autênticos milagres, trabalhando no duro, como aqui se diz, compravam casa que iam pagando com o suor do seu trabalho e com sacrificadas horas de sono e compravam carro de segunda mão porque é quase impossível viver naquela terra ( no caso vertente os EUA ) sem aquele meio de transporte ! A vida não era fácil,  mas havia uma estrela que nunca deixava de brilhar - a fé que herdaram de seus pais e avós e a saudade lavada , quantas vezes , em lágrimas escorridas em pranto de esperança no futuro. Anos depois voltavam à sua ilha, matavam a saudade dos seus queridos e mais próximos familiares, relembravam a sua terra e , quase sempre, pagavam as promessas ao Senhor das Ilhas no seu esplendoroso Andor e ao seu padroeiro ou padroeira , que resultavam das vezes em que a vida foi mais dura e cruel , em  alturas que só Deus podia acudir. E só Ele !
Muitos , no decorrer da sua integração , frequentavam a paróquia  da sua residência, estreitavam relações com a respetiva comunidade , ligavam-se ao Clube que logo os acolhia , às agremiações que os apoiavam nas dificuldades que iam enfrentando e até, nalguns casos , participavam ativamente nas atividades que por lá  se iam desenvolvendo. Os filhos iam estudando nas Escolas, integrando-se na sociedade americana e facilmente chegavam às Universidades. Muitos não esqueciam a língua dos pais nem a cultura , nem as tradições, nem a religião e muito menos a fé que estava muito arreigada no coração dos progenitores. Estávamos nos anos setenta , oitenta e noventa do século passado ! O novo milénio começou a trazer novos desprendimentos e outros projetos de vida ! Começou a renovação das gerações e com ela uma nova realidade que parece não ter sido analisada e refletida na sua real dimensão,  por quem tinha o direito e a obrigação de acompanhar de perto esta situação e encontrar soluções que atenuassem, pelo menos , este desenraizamento e o distanciamento da cultura herdada dos pais , o ensino da língua portuguesa, já que a fé é privada e pessoal e a saudade também se esvai com o tempo ! Desde logo se aponta esta inércia ao governo da República e ao governo dos Açores , que são os responsáveis pelas Comunidades e até têm secretários e diretores com esse pelouro e depois também às Autarquias, muito preocupadas com o calendário anual das confraternizações , dos oriundos da Lagoa e da Povoação , do Nordeste e da Ribeira Grande , da Graciosa e das Flores ...em lautos almoços e jantares bem organizados e publicitados  que resultam, na maior parte dos casos , em interessantes convívios e intercâmbios informais e na angariação de um rolo de dólares transformado em dúzias de camas, colchões, cadeiras de rodas e andarilhos  que, na realidade,  muito  jeito dão às Instituições contempladas ! 
Mas o que é isto face ao que nos descreve   meticulosamente o conceituado jornalista João Carlos Tavares, na sua recente Carta  da Nova Inglaterra, onde vive há muitos anos ? Escreve o articulista que “  No concernente ao desporto, ao teatro e outras atividades culturais e sociais , parece que existe uma estagnação bastante pasmada. Em alguns setores existe total paralisação “ , na nossa Comunidade da Nova Inglaterra !  Por outro lado e noutra latitude , escreve Dinis Borges , ilustre nordestense  que vive na California :  “ Não tenho dúvidas que teremos a curto espaço de tempo uma comunidade dissemelhante , como não tenho dúvidas que se conseguirmos enfrentar esta realidade , refleti-la e trabalhá- la, teremos garantida a preservação da cultura portuguesa em terra californiana “. E acrescenta : “ Vejo, num futuro não muito longínquo, uma comunidade dissemelhante da que hoje temos. Uma comunidade de homens e mulheres formados, ligados à sua cultura por gosto e não por necessidade “.   E , deste modo , convém aguardar  tranquilamente o desenrolar desta preocupante situação , mas não julguem que vale a pena rezar para que as soluções caiam pela chaminé abaixo , porque nunca vão cair !

2.  A investigadora Rita Cordeiro está a desenvolver um estudo pormenorizado sobre as “ Cianobactérias das lagoas açorianas que podem ter compostos fantásticos para a indústria farmacêutica  “. No meio de tanta desilusão e de questões fracturantes , como hoje se diz, surge esta notícia animadora para as hostes ligadas ao ambiente e ao desenvolvimento desta nossa Região Autónoma. Aliás já tem vindo a lume , com incenso e repiques festivos, noticias de estudos e de investigação tendo em vista , por exemplo, o aproveitamento da Conteira , e ficamos a aguardar ingénuos , como  crianças , em véspera da chegada do Pai Natal, ou seja contentes, esbaforidas e expetantes !
Isto não quer dizer que não se acredite nos estudos e investigações, longe disso, o que se levanta é precisamente a questão  do seu desenvolvimento e dos resultados práticos e exequíveis da matéria em causa . Neste caso  concreto , das nossas Lagoas, jóias ambientais que se devem preservar a todo o custo, resta saber se está resolvida a velha questão da eutrofização que,  com o tempo,  parece que as estavam transformando em autênticos pântanos ! Porque não se tem falado no assunto, ainda não sabemos os resultados das medidas outrora anunciadas, que se prendiam com a aquisição de pastagens nas imediações das lagoas, com o reflorestamento de várias áreas adjacentes, com  a revisão dos solos e a renovação dos cursos de água que para  lá convergem, de entre outras . É evidente que estes novos  “  compostos fantásticos “ podem nada interferir nos aspetos da eutrofização e, se calhar , até podem vir a ajudar a ajustar tão intrigante problema que a Região há muito vem combatendo .  A ver vamos ! 

3 .  Tudo leva a crer que a Diocese açoriana  vai realizar nos próximos anos  um Sínodo e até parece que já iniciou o longo e difícil caminho da sua preparação. Deve o bispo diocesano, D. João Lavrador, andar preocupado com a situação geral da Igreja destas nove ilhas e , se calhar , movido por muitas razões que a razão desconhece,  obriga  o Prelado a tão afoita decisão ! 
A questão central, a nosso ver, prende-se com os resultados que daí possam advir, habituados que estamos a ver os que normalmente participam nestas magnas reuniões serem  os mesmos que se reúnem nas paróquias e nas Ouvidorias, que ouvem sempre o mesmo e dizem o que os outros querem ouvir ! Acho que os cristãos militantes estão cansados de reuniões que não levam a lado nenhum, que sacrificam os mais empenhados e saturam  os mais dedicados ! O que a Igreja açoriana precisa, a nosso ver, é de uma reviravolta completa, de uma mudança radical , de voltar aos tempos primitivos do Cristianismo . Mas aí D. João vai enfrentar muitas barreiras ! Sim, com esta linguagem cruel, para que não se diga que estamos à procura de arranjinhos , de chazinhos, de analgésicos , de tentar  mudar para que tudo fique na mesma.  Comecemos pelo alicerce e pelo princípio : o Seminário, que já deveria estar ligado à Universidade Católica ,  a formação dos futuros padres e o seu rigoroso perfil ; as infinitas exigências evangélicas para se ser sacerdote  - humildade e desprendimento, total dedicação e disponibilidade , Imagem limpa e asseada , atreitos aos tiques da moda ,  prontos para a obediente  e permanente mudança e para o sacrifício pastoral! Com absoluta  capacidade de acolhimento , de oração e de exemplo de vida , sem correrias para celebrar três ou quatro missas, com tempo suficiente para ouvir as ovelhas do rebanho, para atender às aflições dos penitentes, com igrejas abertas  e sem horário de funcionários públicos , sem carga burocrática a que o padre está sujeito, evitando  critérios diferentes de paróquia para paróquia , de Ouvidoria  para Ouvidoria,  num sítio pode-se batizar e noutro não se pode crismar , com as aulas e os horários não conciliatórios , com respostas “que agora não posso , que agora não tenho tempo  “ , com homilias , nalguns casos , mal preparadas e com tendência para atirar frequentes recados para as ovelhas tresmalhada! 
Com Sacerdotes  com exemplar devoção e espiritualidade e sobretudo com espaço muito largo e  suficiente  para acolher e celebrar a Misericórdia que o Papa Francisco tanto apregoa , até à premente necessidade de cheirar as ovelhas, são talvez as maiores exigências do pastor deste nosso tempo!
 Um rol de exigências difíceis de cumprir, sabemos disso convictos , porque o padre é, acima de tudo, um ser humano, de carne e osso ! Esta gigantesca tarefa , que requer coragem e muita determinação , não cabe apenas num Sínodo, por muito bem preparado que ele seja ! É a nossa opinião e também o nosso humilde contributo para esta nobre e exigente tarefa ! O certo é que  não podemos ficar nem esperar de braços cruzados ! 
Em segunda feira da Pombinha de 2019

 

Eduardo de Medeiros
 

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Autor: CA

Categorias: Opinião

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