Arquitecto Khol de Carvalho ‘sem papas na língua’

Ponta Delgada devia estar a aplicar a taxa turística para reabilitar a cidade da pressão turística que já provoca danos

A Associação Seniores organizou um ciclo de quatro ‘conversas informais’ sobre a pressão do turismo em São Miguel. 
“E espero que a conversa informal final “seja mais debate, embora, muitas vezes, os interlocutores ‘fujam com o rabo à seringa’.  
A primeira conversa foi sobre a pressão do turismo no urbanismo. O interlocutor foi o Presidente da Câmara de Ponta Delgada. Afinal, segundo ele, não há pressão nenhuma. Diz que está tudo radioso, uma maravilha, com taxas muito altas em tudo e grandes retornos. 
A segunda conversa foi com Isabel Moniz que é professora na Universidade e que nos veio mostrar o que acontece quando o turismo já é demais, quando tem já reacções populares anti-turista como Barcelona ou Veneza. 
A terceira conversa foi com Fernando Neves, Delegado da Associação de Hotelaria de Portugal nos Açores, que nos mostrou o que se está aí a fazer em demasia e sobre quantos hotéis poderão ficar para aí fechados. Nos anos 70 e 80 do século passado ficamos com dois hotéis fechados e agora podemos ficar com vinte se houver um recuo no turismo para os Açores.
Acho que estamos a agir sem pensar e, a pouco e pouco, suprindo as dificuldades que tínhamos. Como estes empreendimentos são completamente subsidiados, toda a gente quer ter um hotel. É como comprar as cautelas e eu também compro a lotaria. Não me meto a comprar hotéis, mas compro a lotaria. Vai ser um perigo se, por acaso, o turismo desce. Eu quero ver o que é que acontece aos hotéis. Por outro lado, há tantos hotéis que a mão-de-obra local não chega e não dá resposta.
A quarta conversa que se realizou foi sobre a pressão do turismo nos geossítios (como a Lagoa do Fogo, as Furnas…) feita pelo professor da Universidade, João Carlos Nunes. Mostrou-nos como é que a pressão existe ou não e como é que se supera esta pressão”, afirma o arquitecto Khol de Carvalho. 

E já existe pressão sobre os geossítios?
Khol de Carvalho: Claro que já existe. O Governo está farto de fazer parqueamentos e trilhos. Portanto, com esta pressão que se veio a gerar, já se cortou no Ilhéu onde já só pode ir um número limitado de pessoas por dia; no Pico, só um número reduzido de pessoas pode subir à montanha. Já se começou a cortar nos acessos. Agora, entendo que o Governo dos Açores deveria ser muito mais radical do que está a ser na defesa dos geossítios e na defesa de todos nós. 

Concorda com o Presidente da Câmara de Ponta Delgada quando diz que a pressão do turismo não esta a ter impactos no urbanismo na cidade?
Não, ou ele não sai à rua ou não se apercebe. Se calhar, anda sempre naqueles carros com os vidros pretos e não vê cá para fora. Basta ir de manhã à zona histórica e nota-se que a pressão é terrível. As cargas e descargas, os carros que saem dos hotéis ou estacionam indevidamente no centro histórico. Aquilo é um horror.
 O diabo da cidade tinha a sua escala. E quando nós metemos o automóvel, rebentamos com a escala. Portanto, a escala não aguenta o automóvel. Por isso se criaram as ‘bertinhas’ que, realmente, não dão resposta e não estão coordenadas com o resto dos transportes públicos.

Esta não é a sua cidade?...
Não é, de facto, a minha cidade. Gosto muito de vir aqui, observar e ver mas, agora, no Verão estou fora da cidade. Mas a pressão já está para além da cidade. Ontem (Quinta-feira) passei na Gorreana. Ainda bem que todos vão lá comprar chá. Muitos deles que não tomaram chá em pequeninos, até é bom que tomem agora. Mas, aquilo era uma coisa incrível, os parqueamentos todos rebentados, carrinhas, tudo, gente…. 
Entendo que se perdeu o cuidado com a escala. O turismo vai rebentar, quer queiramos, quer não, com isto tudo. Melhora-se, de facto, alguns parques de estacionamento em redor das lagoas mas a pressão é tal que estes parqueamentos já rebentaram, já não chegam e as pessoas deixam os carros ao longo da estrada como estão agora. Nós não tivemos cuidado nenhum. Fomos apanhados, de certo modo, de surpresa. Mas também não tivemos capacidade de reagir. 

Não é apologista de que temos turismo a mais…?
Não temos turismo a mais até porque estamos a continuar a construir hotéis. Entendo é que devíamos ter receitas. Por exemplo, ainda não se criou a taxa turística em Ponta Delgada. E já devia existir porque reverte para a reabilitação, para o desgaste dos geossítios, para recompor a cidade. Esta pressão turista provoca um desgaste brutal. Porque é que não devemos ter a taxa turística? Que peso tem um euro ou dois por noite a quem vem aqui passar 3 a 4 noites? São 5 a 6 euros por pessoa. Isto representa cinco cervejas.   
O ano passado tive estrangeiros em São Miguel e este ano vou ter outra vez. Vieram comigo, comemos um almoço rápido no Nordeste. O almoço custou, a dividir por três, oito euros. Comemos umas pizas pequenas pré-fabricadas mais umas imperiais. E o inglês disse: deixem-me pagar porque este valor é o preço e uma imperial em Londres. 
Portanto, um euro por noite nos alojamentos não pesa nada. No Porto já se paga dois euros por noite. Em Cabo Verde também se paga dois euros por noite. Em França, a mesma coisa. E porque é que esta taxa não é aplicada em Ponta Delgada?

Em sua opinião, que outras medidas devem ser adoptadas para que Ponta Delgada se torne numa cidade mais livre, com uma mobilidade mais fluente e com menos pressão turística?
Nós devíamos ter estudado a cidade e não a estudamos. Nós fizemos umas ruas pedonais e ponto final. Há uma rua que não é pedonal nem automóvel, a rua dos Mercadores, onde já foram pessoas atropeladas. Um dia serão mesmo estrangeiros atropelados...
Porque não estudamos a cidade, não sabemos que respostas é que devemos dar. E nós estamos a comer tudo o que nos impingem. Vem um promotor e diz que um hotel de cinco pisos é muito bom no centro e nós dizemos que sim. Nós deixamos ir o Palacete de Caetano de Andrade. Deixamos ir aquilo abaixo e fez-se aquele prédio que para lá está. E, assim, sucessivamente. O chinês também já tinha feito um aumento de dois pisos num armazém numa rua de Ponta Delgada... A Câmara está, neste momento, a autorizar tudo quanto lhe impingem e, portanto, estamos assim.

Não está a exagerar nesta abordagem?
Não, não estou. Procure dar-me a volta.

Aponte soluções para Ponta Delgada…
Sim, aponto soluções. Tínhamos que ter parado e estudado a zona histórica. Se for preciso, delimitar uma zona histórica mais pequena que fosse do Campo de São Francisco a São Pedro. E neste espaço serem rígidos e privilegiar o peão. É que nós, neste momento, estamos sobre a ditadura do automóvel no centro histórico de Ponta Delgada.
Na mobilidade, uma das coisas que é necessário é trancar a importação e automóveis de aluguer. Neste momento, há 47 empresas de aluguer de automóveis registadas em São Miguel. Se cada uma tiver 100 carros, veja lá quantos carros têm todas. Dá cerca de cinco mil carros e, se calhar, já é igual a outros tantos que nós temos. 
Por outro lado, só devíamos importar agora carros eléctricos. Vamos acabar com a poluição. Eu, ontem, (Quinta-feira) estive na Salga, em Nordeste, e assisti a um desfilar de carros de aluguer de um tamanho completamente impróprio para o que se propõe. Nós temos 80 quilómetros de extensão de ilha, por 12 ou 13 quilómetros e não precisámos de Ferraris, não precisamos dos Porches. Um carro utilitário e eléctrico servia perfeitamente e, então, começávamos a actuar na sustentabilidade ambiental e começávamos a actuar também na mobilidade. Se nós caminhámos para isso, é altura de impor esta situação. 

Não é uma medida radical esta de só importar carros eléctricos. Poderia sugerir que, por tantos carros de gasolina importados, se deveria importar um carro eléctrico…
Pronto, se quiser fazer esta transição, está bem. Agora, não podemos deixar importar carros à toa. Com quantos quilos de lata é que nós vamos ficar aí? Já viu os parqueamentos de algumas empresas de aluguer? São parques que vieram dar ratadas nos pastos e que ocupam áreas brutais, muitas vezes em sítios indevidos. Há um no caminho para as Capelas que é uma aberração. Ali, no meio dos pastos e de uma área verde, uma área agrícola, está aquilo transformado num parqueamento selvagem uma coisa horrível, sem qualquer cuidado. Entramos no ‘vale tudo’. 

A pressão terrível dos
Alojamentos Locais

Quais os impactos da pressão do Alojamento Local sobre a cidade de Ponta Delgada?
É também terrível porque, primeiro, estes impactos são nas zonas mais favorecidas. Ou seja, São Roque tem muito mais pressão do que Santa Clara. A freguesia de Santa Clara, metida ali junto da área industrial e do porto, tem muito pouca pressão, mas já tem. Já existem lá alguns alojamentos locais.
Mas, por exemplo, São Roque, como tem a fluição de mar, o que aconteceu? Os proprietários puseram a andar inquilinos que até eram cumpridores da sua renda. Porquê? Subiram tanto o preço das rendas, que os inquilinos ficaram sem as poder cumprir. Então, vai para a rua para se fazer Alojamento Local.
Por outro lado, não tivemos o cuidado de manter a identidade daquela freguesia. São Roque, hoje, parece uma dentadura completamente desdentada. Uns edifícios para cima, outros para baixo, uns largos, outros estreitos. É evidente que não há qualquer rigor no que é que queremos para ali. 
É aquilo que lhe dizia: vem um promotor e impinge quatro pisos e comem-se quatro pisos. Se é só três, é só três. É se for dois, será dois.

Já existe legislação a definir o número de pisos dos hotéis e dos edifícios…
Está a falar nos Planos Directores Municipais. Os PDM’s só serviram para cumprir com a legislação europeia. A Europa disse: ‘se vocês querem dinheiro, então têm de fazer PDM’s e desatamos a fazer PDM’s. E, como percebemos que vinha dinheiro, a revisão dos PDM’s foi sempre para aumentar áreas de construção, volumes de construção e umas dentadas na Reserva Agrícola. Nunca se fez ao contrário. Entendo que está na altura de se fazer ao contrário. Dizer assim: Temos um índice muito alto e vamos baixá-lo. Eu aposto que isso não se consegue. 
Na Calheta suspenderam sempre o PDM para aumentar pisos e áreas de construção. Porque é que não suspenderam o PDM para se fazer o contrário. Agora já não se constrói, agora só se constroem edifícios com um piso. Porque não se tomam decisões destas? Porquê? Só se altera os Planos Directores Municipais para subir os edifícios. Para baixo não vale?

A pressão turística está a levar ao despovoamento da cidade…
Sim. Por outro lado, criou-se também a ideia de que é precisa muita animação. E, então, é um inferno para quem mora no centro da cidade e mesmo já começa a ser um inferno para alguns Alojamentos Locais. O outro dia tive cá umas pessoas convidadas que vieram dormir num Alojamento Local no centro da cidade, perto da Matriz e eles disseram que aquilo era um inferno. Desaguam ali as equipas de futebol aos ‘urros’ e também porque se faz de qualquer café uma discoteca. 
Além disso, já há muito poucos residentes no centro histórico de Ponta Delgada e estes poucos começam a aborrecer-se e vão-se embora.  

Chegou-se a defender políticas para fixar mais residentes no centro histórico de Ponta Delgada…
Eu não acredito que isso aconteça enquanto não se fizer uma revisão de todo o processo relativo ao urbanismo.

O que se pode fazer em termos de urbanismo que não se está a fazer?
Não podemos aumentar a escala e os pisos dos edifícios. Por alguma razão o Marquês de Pombal fez uma coisa inteligente. Defendeu ele que o prédio devia ter a altura da largura da rua. Isto para que ele tenha insolação e ventilação. Nós não fazemos isso. A altura dos prédios vai de 11 a 13 metros, - que é um número que se lê no PDM – e que é três vezes a largura da rua. Veja a Rua dos Foros, com prédios que estão desabitados que têm duas a três vezes a largura da rua em altura. Isto vai dizer o quê? Vai dizer que o prédio não tem insolação. Vai ensombrar os vizinhos, vai aumentar o ruído e dificultar o arejamento da rua. Não parece que seja isso que a gente quer. 

Há demasiados carros a circular na cidade…?
Há demasiado, pois claro que há. Há muitas famílias com mais de um carro. Porquê? Porque não resolvemos o problema da mobilidade. Os transportes públicos são um horror. Se quiser, não consegue vir de manhã a qualquer sítio e dizer: ‘eu agora já terminei o meu serviço e vou a casa ao fim do almoço’. Ao fim do dia talvez chegue a casa…  
Portanto, não há uma conjugação de todos os transportes porque ela nunca foi feita. Trouxeram-se as ‘bertinhas’ mas elas estão desarticuladas com o resto e o resto está desarticulado entre si. Se quiser mudar de companhia de transportes terrestres, tem de ter dois passes sociais. Isso não pode ser assim. Lisboa conseguiu com a Transtejo, CP, Carris, Metro e não sei mais quantas empresas, fazer um passe único  em que as pessoas têm mobilidade em todos os transportes. Aqui, temos duas ou três empresas de transportes terrestres e não conseguimos. 
E foi prometido até um Plano Integrado dos Transportes que não sabemos onde se encontra.

Portanto, as soluções para Ponta Delgada passam pôr...?
As soluções passavam por um plano de mobilidade para a ilha de São Miguel. Tem de ser o tal Plano Integrado de Transportes. Temos de sentar à mesa todas as transportadoras, as empresas de aluguer de automóveis, além de outras empresas ligadas à mobilidade, para definir como é que conseguimos regrar tudo. O que se vê é que não existem regras. 
Convido para tomar, às 9h30 da manhã, um café no Baía dos Anjos e vai ver sentada quase à sua mesa uma carrinha a debitar fumo para transportar batatas fritas ou qualquer outro produto para os hotéis e para os cafés e restaurantes. 
Nós olhámos muito para os Estados Unidos. Os Estados Unidos têm outra escala, têm outra mentalidade completamente diferente. Passamos a vida a mandar políticos para os Estados Unidos. Eu mandava-os à Europa e mandava-os a alguns sítios onde o problema do trânsito em cidades históricas está resolvido, onde as cargas e descargas acontecem em horas mortas e, portanto, não colidem com o peão nem com o automóvel particular.
E outro problema de Ponta Delgada é o estacionamento. Neste momento, está completamente caótico. Os parques de estacionamento estão rebentados. O de São João está constantemente completo. O da Avenida, basta que haja um evento nas Portas do Mar, para ficar completo. Aquele parque dos Pinheiros nunca tem lugar. A safa ali para cima é o parque de estacionamento na Avenida D. Manuel I em direcção à rotunda do hospital. É o único parque de estacionamento onde se encontram ainda lugares, pela distância que fica do centro da cidade. O resto está tudo cheio, está insuportável.

Ao longo desta entrevista faz críticas demasiado contundentes…?
Faço. Mas isso não é uma coisa que se veja? Quer que dê um passeio consigo pela ilha para o mostrar estas coisas? É evidente que as receitas são muito interessantes e necessárias. Não estou a dizer que se corte com o turismo. Estou a dizer é que se modele o turismo porque isto não é como as Canárias onde se despeja não sei quantos turistas no oceano (praias) e fica tudo contente. Não é. Isto tem outra escala, tem outras necessidades, tem o diabo da paisagem e do ambiente que nós não podemos destruir. Quando destruirmos isso, o que é que temos?

O diabo do Ambiente é uma expressão…
Exactamente. O diabo do Ambiente para os promotores é uma chatice. Lá está o ambiente, não é?

 Com esta entrevista pode ser visto como um crítico acérrimo…
Eu sou crítico? Isso podia ser formidável e está a tornar-se num inferno. Pronto! Porque é que não devemos ter a taxa turística. Em que é que isso prejudica um estrangeiro?

Obrigado…
E, então, o que faz com esta entrevista?
                                                      
 

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Autor: João Paz

Categorias: Regional

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