Gerações (14) – Mário Moura

“Comecei a trabalhar num período em que nos podíamos dar ao luxo de escolher o trabalho”

Correio dos Açores - Quando e onde nasceu? Conte-nos como foi, de uma forma resumida, o seu crescimento.
Mário Moura - Nasci em finais da década de 50, em casa da minha avó Deodata, num Domingo de Páscoa, num quarto à direita de quem vinha da rua do Alcaide, paredes meias com a Escola Central da Ribeira Grande. Aí haviam nascido (naquele ou noutro quarto) meu pai e o pai de meu pai. Tirando o ano e pico que morei com os meus avós maternos na Horta, e muitas férias que passei entre aquela cidade e São Roque do Pico, terras dos meus bisavós maternos, cresci na terra onde nasci. Os meus pais deram-me, e a meus irmãos (penso que posso dizer isso por eles) – sou o mais velho de cinco, três rapazes e duas raparigas –, a melhor das infâncias possíveis. A minha mãe, nascida na Horta, de onde saiu aos 16 anos para ir trabalhar nos CTT, deixou atrás pai, mãe e o irmão Jaime, dois anos mais velho do que ela. Antes de chegar à Ribeira Grande, trabalhou no aeroporto de Santa Maria. O meu pai, natural da terra, o mais novo de seis irmãos sobreviventes, ficou órfão de pai aos nove anos, trabalhava no Registo Civil da Ribeira Grande. Para a época, tinham bons empregos, sem exagero e com muito sacrifício, propiciaram-nos o conforto material necessário: uma casa construída de raiz e paga durante anos e anos, um quintal com tudo o que a cozinha precisava, com galinheiro, pombal, coelheira, latadas de uva branca e vermelha, de maracujá, e curral de porcos, onde engordavam sempre dois porcos, além de uma quintinha de laranjas suculentas e mais árvores de fruto ao lado. Nos intervalos das árvores, cultivava-se, no seu tempo, milho doce, favas, batatas, ervilhas. Ainda hoje fico perplexo como foi possível meus pais terem conseguido tudo isso! Só pode ter uma resposta: ele era um excelente administrador. Fazia render muito do pouco. Por isso, foi anos a fio responsável pelos dinheiros (poucos que fez render muito) do seu Ideal e foi o principal responsável pela construção da nova sede social. Era poupado (só mais tarde dei o valor) e sabia investir. A minha mãe ganhava bem e cooperava com ele. Ela tinha uma queda para as novidades tecnológicas: fomos das primeiras casas da rua a ter um bom frigorífico, uma máquina de lavar roupa e uma televisão. Além destes apetrechos, adquiriu muitos mais. E incentivava-nos: por cada boa nota que conseguíamos na escola, ela oferecia livros. Chegou a oferecer um gira-discos portátil, o primeiro da Ribeira Grande. Era uma leitora voraz. Deu-nos vontade de ir além da Escola Primária. 

Que tradições/costumes da nossa terra recorda do seu tempo de infância que hoje já não se celebrem da mesma maneira ou de todo? 
Lembro-me, por exemplo, da desfolha, que se dizia ‘esgalhar o milho.’ Íamos à terra na Tondela carregar os carros de bois com o milho para deixá-lo à porta da dona. Aí acartávamos as maçarocas em cestos de vime. Como paga, um ‘calezinhos’ de vinho abafado e um “biscoite”. Ao serão era a desfolha, ocasião para os mais velhos contarem casos deliciosos. Ou dos serões às portas da rua, onde, de novo, os mais velhos nos contavam ‘estórias’ da terra. Julgo ter vindo daí (e das minhas avós) o gosto pela História em que entre pessoas normais mais do que números e pessoas especiais.

Comparando com a geração dos dias de hoje, na sua opinião que diferenças existem em relação à geração em que nasceu?
Éramos uma geração de rua, de pé descalço (os que os tinham, para não destoar ou ser posto de parte, sentiam-se compelidos a retirá-los) e só de rapazes (as raparigas ficavam fechadas em casa a sete chaves). Eis a grande diferença. Até entrar e depois de sairmos da escola, a rua era nossa. Era também nossa depois e antes de os nossos pais chegarem do trabalho. Como morava perto da ribeira e das levadas dos moinhos, e um pouco mais longe do mar, fui mais um rapaz de ribeira do que de mar. Aí aprendi a nadar. A pescar enguias (que chamávamos irós). A colher o que apanhávamos pelos combros do caminho e margens da ribeira: groselhas (chamávamos camarinhas), amoras. Ou nas quintas: uvas, laranjas ou nos milheirais. Éramos uns bandos desordeiros e livres. Éramos absolutamente territoriais: ai de quem ultrapassasse a nossa rua e passasse para a de outros bandos. Durante o ano inteiro, em qualquer palmo de rua ou terreiro mais aberto, jogávamos à bola ao 12 muda e ao 24 acaba. Até não ser um palmo à frente do nariz ou a fome apertar. O meu bando era eclético e interclassista. 

Que evoluções e alterações tem notado no mundo de trabalho desde que começou a trabalhar até àquilo que é hoje a sua realidade profissional? Conte-nos um pouco do seu percurso profissional. 
Ao contrário da tremenda dificuldade sentida hoje pelos jovens à procura de trabalho, comecei num período em que nos podíamos dar ao luxo de quase escolher o trabalho. Era o início da instalação das estruturas do recentemente implantado Governo Regional. Hoje o acesso é restrito, sendo a competição por lugares acesa, crispada desigual e desleal. A este propósito, chamo a atenção para o fabulosamente certo discurso do 10 de Junho de João Miguel Tavares: “‘Para os jovens portugueses ficou reservada a “esperança” de que nem tudo se resume a currículos e ao conhecimento de pessoas privilegiadas.”’ Leiam-no na íntegra.
Antes e durante a minha carreira profissional, fui fazendo uma carreira/caminhada académica, tendo em mente o que disse João Miguel Tavares: ‘“E se vos perguntarem ‘quem é que tu achas que és?’, respondam apenas: Sou um cidadão que todos os dias faz a sua parte para que possamos viver num Portugal melhor e mais justo.’”
A 7 de Janeiro defendi com êxito a tese de Doutoramento sobre a Introdução da Cultura do Chá em São Miguel (século XIX). Lançarei, no dia 1 de Julho próximo, uma versão ligeiramente menos académica. Antes, fizera um Mestrado em Museologia e Património na Universidade Nova de Lisboa versando o Arcano da Ribeira Grande. Destinou-se a musealizar a vida e obra da sua autora. A sua concretização deu-se com a Casa do Arcano (prémio Vilalva e 1.º Tesouro Regional). Dei aulas em Universidades (Rhode Island College e Universidade dos Açores), em Escolas Profissionais, Preparatória e Secundária e sou Técnico Superior na Câmara Municipal da Ribeira Grande. Fui aí, até 2010, Chefe de Divisão da área da Cultura. A par e passo, e porque a actividade assim o levou, investiguei e divulguei em exposições ou em livro diversos aspectos da colecção e da vida da Ribeira Grande: azulejos, moinhos, Arcano, ponte dos oito arcos, futebol, biografias diversas, igrejas, chá. 

As viagens são uma parte importante da sua vida? Que viagens mais gostou de fazer e que outras sonha realizar?
São essenciais. Residi fora da ilha (na Europa e na América) alguns anos e visitei com vagar vários locais. Viajo ainda diariamente do modo mais cómodo. Aqui recorro não ao barco ou ao avião mas à palavra: escrita ou dita. Ou à imagem. A minha viagem de sonho é uma que planeio com a minha companheira. O local fica connosco.

Que relação estabelece diariamente e actualmente com a sua família? Sente que hoje tem mais tempo para lhe disponibilizar? 
Com a disponível, a relação é diária e vital. Saímos, às compras ou a passear, almoçamos ou jantamos juntos com bastante frequência. Conversamos diariamente sobre tudo e sobre nada. Menos de trabalho. De futebol ainda menos.
E os amigos que lugar têm na sua vivência diária? Relaciona-se com os seus amigos com maior frequência nos dias de hoje ou quando era mais jovem? 
São o tesouro mais valioso. O tempo, de ontem, o dia todo, agora, por circunstâncias da vida, melhorou em qualidade e perdeu em quantidade. Basta uma conversa rápida na rua, na praia, onde quer que seja, e estamos cheios. Vou ter com eles ou eles vêm ter comigo sempre que um de nós precisa de uma palavra. Entre os bons amigos, conservo alguns da minha infância.

Como é a sua relação com a internet? Usa-a apenas para o trabalho ou como forma de lazer também? Esta relação foi evoluindo ao longo dos tempos? 
Normal. Assemelha-se a uma faca de dois gumes: bem utilizada é uma ferramenta útil, mal utilizada, pode ferir. Uso-a para trabalhar (foi-me imprescindível para a elaboração da tese de Doutoramento) e para comunicar com amigos e familiares à distância ou com quem partilha a minha área de interesses académicos.

De que forma se relaciona com os seus filhos? Como procura acompanhar o crescimento de ambos com uma maior proximidade?
Tenho três filhos e não tenho netos. Faço tudo o que um pai/mãe faz. A melhor prova do que afirmo foi a maneira como o mais novo a princípio me identificava: mãe. Usava a palavra indistintamente para mim e para a mãe/mãe. Os dois primeiros fizeram-no também. 

Como caracteriza o seu modo de vestir nos dias de hoje e na época em que estudava e que começou a trabalhar, por exemplo? 
A minha mãe, depois de tanto batalhar, conseguiu que eu ligasse um pouco mais ao vestuário. No geral, entre uma peça de vestuário nova e um livro novo, quem me conhece sabe de antemão a minha preferência. Hoje, visto de acordo com as ocasiões. Apesar de me sentir como um pinguim fora de água, chego a usar fato e gravata. Milagre! 

Como caracteriza a sua alimentação actualmente? Acha que a mesma tem mudado ao longo dos tempos tendo em conta a modernização que a própria alimentação tem sofrido?
Em casa de meus pais, que era uma casa grande, mas regrada em tudo, comíamos o que vinha à mesa, que era igual para todos. Além de meu pai e nós cinco, moravam connosco a minha avó Deodata e a tia Natália e depois a minha avó Palmira e tia-avó Lídia. A mesa estava sempre pronta para receber quem viesse: primos de fora em férias, amigos. Meu pai adorava dar festas. A dieta era rica e variada. 
Normalmente, havia toda a semana sopa, de peixe, de legumes. O segundo prato era invariavelmente de peixe ou de carne (de vaca ou porco – que criávamos), simples com batata da terra ou doce ou mais avantajado com cenoura, nabo, feijão (verde, branco ou vermelho). Aos domingos e dias feriados e santos, a ementa era melhorada: sopa com cozido ou carne assada com batata ou bacalhau e bolos. Bebíamos muito leite fervido que o leiteiro deixava à porta. Ou sumos naturais feitos com os maracujás das nossas latadas ou limonadas dos nossos limões. Ou ainda vinho doce das uvas do quintal. Sem esquecer o vinho do Pico que meu pai negociava e distribuía na ilha. Os meus pais eram ambos exímios cozinheiros, meu pai excedia-se no polvo e no bacalhau, minha mãe nos demais pratos e doçaria. Além dos meus pais os meus tios e avós cozinhavam. Conheci em casa sabores da Ribeira Grande, da Terceira, do Pico, do Faial. 
Como me dizia repetidamente o meu saudoso amigo, o clínico dr. Joaquim Sampaio Rodrigues, ‘Tudo o que é bom não presta e tudo o que não presta é bom’, acabei, não sei se bem ou mal, pela minha saúde, a renunciar à deliciosa variedade e estimulante quantidade de pitéus trocando-a por uma incerta exiguidade e a suposta qualidade. Que saudades!

                          

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