Guilherme Almeida chegou a secar roupa nas turbinas da Fábrica da Praia

Em Água de Pau existe o lugar da Praia dos Trinta Reis, que em 1991 chegou a ter mais de uma centena de habitantes, mas que hoje em dia pouco mais de 40 pessoas tem.
O declive das encostas continua a proporcionar boas culturas, mas já não são muitos, aqueles que se dedicam à agricultura familiar.
A caminho do actual Museu Hidroeléctrico da Ribeira da Praia chegamos à fala com Guilherme Almeida, de 75 anos de idade, que sempre ali viveu.
Quando começamos a conversar, Guilherme Almeida desbravava favas, por si semeadas, colhidas para cozinhar e outras para congelar.
Num terreno ali perto tem uma horta com quase tudo o que necessita, mas o sítio mais próximo para se fazer compras é em Vila Franca do Campo.
No passado era lavrador e trabalhava com um irmão, que um dia foi tentar a sua sorte nas Bermudas e por lá ficou. Foi então que resolveu vender a sua lavoura e promoveu a sua reforma. “Na altura tinha cerca de trinta cabeças de gado”.
Por estes dias aparecem cada vez mais turistas no Lugar da Praia dos Trinta Reis. Ingleses, italianos, espanhóis, alemães e de outros países. “Conversam connosco, só que muitas vezes ficamos sem perceber que línguas falam”, quer isto dizer que aparecem visitantes de outras nacionalidades. “Muitas vezes eles percebem-nos e aí a comunicação fica mais fácil”.
No Lugar da Praia dos Trinta Reis “a água corria na ribeira, agora já não corre. No passado havia aproveitamento hidroeléctrico aqui, mas como a água foi canalizada para outros locais, já nem um fio de água tem”, lamenta.
O nosso interlocutor recorda o tempo em que as quatro fábricas da luz funcionavam, mas não foi há muito tempo que a ribeira deixou de ter o seu fio de água. “Deve ter sido há uns 30 anos atrás”. No presente, só quando chove o suficiente é que a ribeira volta a ter vida.
Entretanto, pequenos charcos fazem as delícias de alguns “patos e marrecos”.
Na sua mocidade, na Fábrica da Praia pedia aos funcionários para colocar a sua roupa a secar junto das turbinas que dissipavam calor, porque não havia outra para usar. “Eram outros tempos”.
Questionado como terá sido possível o homem transportar os diferentes tipos de turbinas existentes nas quatro fábricas da luz, numa altura em que não havia maquinaria capaz de carregar todo aquele material pesado, Guilherme Almeida não tem dúvidas ao destacar que “naquele tempo comia-se muito pão de milho, por isso é que os homens tinham muita força para trabalhar. Hoje em dia, come-se muito pão de trigo”. Para bom entendedor poucas palavras bastam.
 

Durvalino Araújo valida que melhor lugar não há

Quando chegamos à fala com Durvalino Araújo gozava a companhia do seu amigo de longa data, Guilherme Almeida.
Instado a pronunciar-se acerca da origem do Lugar da Praia dos Trinta Reis, quis logo fazer uma separação, porque aquele local sempre foi conhecido pelo Lugar da Praia. “O local dos Trinta Reis era mais para cima e não neste local”, frisou.
Há quem diga que o nome advém de uma moeda de trinta reis, que ali terá sido encontrada, datada de 1891, mas também é possível que o nome tenha surgido devido ao avistamento de muitas aves marítimas da família dos Larídeos (tipo gaivota) que apareciam naquele lugar em busca de comida, pois a ave alimenta-se de peixe.
Durvalino Araújo, de 71 anos de idade, trabalhou muito tempo na construção civil, tal como a maioria dos homens daquele lugar, onde alguns habitantes se dedicam ainda à agricultura familiar. Nos finais dos anos 90, ajudou a construir a ponte da Praia dos Mosteiros.
“Melhor lugar do que este não há e mesmo para dormir é uma paz de espírito como não se encontra em muito sítios”.
No passado, e para além da agricultura, sempre que podia também ia à pesca. Naquele tempo começou “a trabalhar muito novo, com 13 anos”, precisa. “Tinha acabado de sair da escola e tinha de ajudar os meus pais, porque não havia a fartura que há hoje em dia”.
O Lugar da Praia dos Trinta Reis “não tem” hoje em dia “mais do que 40 pessoas”, valida. “Já teve mais gente, mas agora está assim”. 
Durvalino Araújo foi tropa no Ultramar, mas desse tempo não guarda muitas boas recordações, a não ser algumas amizades que perduram no tempo.
Durvalino Araújo reconhece “a importância do Trilho das Quatro Fábricas da Luz que tem trazido um movimento diferente àquele lugar”. 
O Trilho das Quatro Fábrica da Luz é um percurso pedestre com extensão de 2,1 Km, a duração de 01h30, classificado como fácil e que se caracteriza por ser um trilho linear. Tem o código PR 39 SM1 da rede de Trilhos dos Açores. Ao longo de todo o percurso estamos rodeados de natureza, com diversas espécies de fauna e flora, bem como ribeiras e quedas de água.
No fundo, atravessa locais de grande importância histórica na industrialização da ilha no final do Século XIX e início do Século XX, retratando o início da produção e distribuição de energia eléctrica, através de fontes renováveis, impulsionado pelo Eng.º José Cordeiro (1867 – 1908).
 

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Autor: CA

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