23 de junho de 2019

Crónica da Madeira

As ilhas da minha paixão

Regressar a Ponta Delgada, a minha e tão familiar “Cidade dos Poetas”, é como voltar a casa, depois de uns dias de ausência.
Experimento a sensação de que o sol ilumina de maneira diferente os locais do meu contentamento. É como se o mar fosse mais cristalino e houvesse um cântico rompendo o silêncio das ruas. Percorro-as e encontro amigos. Assim vou celebrando a vida, esquecendo até que os meus 83 anos de idade não contam porque a alegria de viver rejuvenesce os meus pensamentos. De quando em quando sinto necessidade de regressar aqui, onde as pessoas são pessoas e não números, como acontece nas grandes cidades. Venho de uma ilha para outra ilha. É o fascínio que elas possuem que me provoca este desassossego bendito. Digo bendito porque, paradoxalmente, alimenta-me a alma e desperta-me para a poesia das coisas. Nelas repouso e mais valorizo os meus olhos tatuados de tantas paisagens que se entrelaçam em mim, com suas raízes e cores.
Cheguei no domingo, às 13h00. Chovia. Para mim a chuva significa abundância. À minha espera estava o poeta Armando Moreira, levou-me pelas ruas e jardins molhados, com os acordes das músicas da sua autoria, cantares melancólicos em vozes quentes e bem ritmadas. Senti, de repente, saudades de uma outra cidade que, igualmente, tanto amo, porque nela vivi e nela cresci espiritualmente: Roma – a “Cidade Eterna”. A música, que sempre considerei como a alegria do pensamento, tem sobre mim grande influência; transporta-me aos lugares, às pessoas, aos acontecimentos.
Domingo à noite fui jantar a casa de um outro grande amigo e poeta: Vitor Meireles. A sua casa é única. É um universo cheio de coisas e de histórias. É o verdadeiro refúgio de um poeta que preenche o silêncio com as palavras escritas. Rodeado de livros, de quadros, de móveis, o Vitor Meireles recebe calorosamente os amigos. Lá estavam outros meus grandes amigos que muito estimo e admiro, açorianos talentosos, escritores que prestigiam as ilhas: Ângela de Almeida; José de Mello; Eleonora Marino. Comigo, o João Pedro, meu adjunto na “CRIAMAR”. A Ângela ofereceu-me o seu último livro: “ A simbólica da Ilha e do Pentecostalismo em Natália Correia” e a Eleonora o seu livro de poemas: “Flor e Fúria”.
Vim a S. Miguel para duas reuniões: Uma como o Prof. Doutor Avelino Menezes, o dinâmico Secretário da Educação do Governo dos Açores, para tratarmos de assuntos referentes ao CRIAPOESIA. O Secretario de Educação merece-me o maior respeito e consideração não só pela pessoa que é mas também pelo governante cujo trabalho desenvolvido na sua Secretaria deve ser sempre destacado: pela dinâmica, pela visão inteligente e pelo conhecimento profundo de tudo o que se refere à  Educação.
A outra reunião abordou os assuntos do Festival Internacional de Ponta Delgada - “Cidade dos Poetas”; iniciativa da Câmara Municipal de Ponta Delgada, da Presidência do Dr. José Bolieiro; tendo como Chefe de Gabinete o Dr. José Andrade, duas figuras ilustres que imprimiram ao Município um outro ritmo e sobretudo conscientes da importância da cultura na vida dos munícipes, têm realizado várias iniciativas de cariz cultural que muito os enriquece. São duas personagens da cultura local que dignificam, com as suas formas de estar na vida, a cidade que com tanto amor e entusiasmo, servem, coadjuvados por um corpo de vereadores que lhes seguem o ritmo.
O “Festival Internacional de Poesia” realiza-se em Outubro, nos dias 10, 11 e 12. Esta é a 3ª edição. A 1ª foi em Ponta Delgada, a 2ª no Porto Santo e a 4ª edição será em Las Palmas. São as ilhas da Macarronésia em destaque, com suas criações literárias. Reunidas exaltam e celebram a Poesia.
Domingo à tarde tive o prazer de reencontrar os meus queridos amigos Sra. Ermelinda e Sr. Joaquim Neves, duas personalidades encantadoras que cultivam amizades com tanto carinho e amor, tal como tratam das plantas na sua “Ilha da Caloura” - esses jardins deslumbrantes que se espreguiçam no mar e se debruçam nas pontes românticas. A Teresa, com aquele sorriso maravilhoso e doce que tranquiliza os amigos, abracei-a só na segunda-feira, no seu regresso de Barcelona.
Estou hospedado no Hotel Casa Hintze Ribeiro, não podia estar em outro hotel. É a minha casa na “Cidade dos Poetas” por todas as razões, pela alegria que se experimenta, pela forma calorosa com que me recebem, pelo conforto que desfruto, pela decoração que me encanta, pelos poemas da Natália Correia e do Antero de Quintal no pavimento. Um hotel decorado pela Nini Andrade Silva, cujo talento artístico e gosto são sobejamente conhecidos internacionalmente.
Regressei à Madeira, na manhã de quarta-feira, muito cedo, já o sol tinha voltado a brilhar, na véspera, em S. Miguel, o verde suado era mais verde e as flores ganharam outra vida. O céu que me cobria era azul, obrigando-me a cadenciar o passo pelo ritmo de uma cidade que se enche de luz para de novo correr no tempo imparável das horas.
Mas antes de deixar a minha cidade de adoção tinha forçosamente de acabar, como sempre, na “Tabacaria”, a meio dos livros. Estou predestinado a ir ali à procura de novos livros. Desta vez exagerei: comprei, em vez de dois ou três, mais de cinco dezenas. Felizmente que o meu caro amigo Ronaldo Couto apoia-me na logística do transporte, colocando-os nos correios. Entretanto o Dr. José de Mello ia-me sugerindo esta ou aquela coleção e assim afundei-me e encalhei nos livros da minha paixão.
Quando abandonei a “Tabacaria”, muito mais feliz do que quando entrei; esbarrei com os olhos nestas palavras: “Filhos da minha antiga mãe, vós, cavaleiros das marés, quantas vezes navegastes nos meus sonhos! E agora apareceis no meu despertar, que é o sonho mais profundo. Estou pronto para partir e a minha ânsia, de velas bem hasteadas, aguarda o vento.”
Não tinha o nome do autor, mas logo associei a Kahlil Gibran, no livro: “ O Profeta.”
O avião levantou, enquanto a cidade ainda meia ensonada, vestia-se de claridades.
Olhei-a na distância. Do alto agigantavam-se as paisagens e o verde derramava-se pelas planícies. A realidade regressava, de novo, ao sonho, o que não é normal: voltar à “Cidade dos Poetas” programado na altitude do voo, muito mais alto que o voo das gaivotas que se perdiam na distância. Deixei-me adormecer até que a voz da hospedeira me despertou para a realidade: estava, de novo, na minha outra ilha – Madeira.
Obrigado amigos. Até a próxima!  

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Categorias: Opinião

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