Primeiro estudo publicado revela que cachalotes preferem a costa norte da ilha de São Miguel para permanecer

Em nove anos foram identificados ao largo da ilha de São Miguel um total de 393 cachalotes, na sua maior parte fêmeas, detectados de forma frequente em grupos compostos por fêmeas, crias e outros cachalotes juvenis, conforme permitiu averiguar a investigação levada a cabo por Miranda van der Linde, bióloga marinha da Futurismo.
Assim, e de acordo com a bióloga que levou este estudo avante, iniciado no ano de 2010, em 393 indivíduos apenas 41 foram identificados como sendo cachalotes machos já adultos, enquanto os restantes 352 cachalotes dizem respeito a fêmeas e a indivíduos mais jovens que podem variar entre os dois géneros.
Estas conclusões, atingidas por intermédio da foto-identificação, conhecida por ser um método não destrutivo e que não perturba o animal ou o ecossistema onde se insere, utilizando fotografias das marcas naturais do corpo do animal para o seu reconhecimento e podendo naturalmente complementar-se com outros métodos de identificação, permitiu ainda reconhecer os grupos ou famílias de cachalotes que se distribuem pelas águas que banham tanto a costa sul como a costa norte da ilha de São Miguel.
Nesse sentido, de acordo com Miranda van der Linde, a primeira conclusão a que chegou o primeiro estudo sobre cachalotes na maior ilha do arquipélago, já publicado na revista “Marine Mammal Science”, é a de que existem “muitos cachalotes aqui nos Açores e que, comparados com outras áreas do mundo, os cachalotes aqui são mais marcados no corpo”, visíveis através de marcas brancas de pigmentação que “poderão ter a ver com a genética”.
No entanto, a espécie que é frequentemente reconhecida pela sua cauda proeminente sempre que mergulha no oceano, não seria o indicador ideal para se alcançarem conclusões mais detalhadas ou fidedignas, uma vez que esta nem sempre é detectada em crias ou até mesmo nos juvenis, sendo por isso importante optar pela observação de outras marcas visíveis nestes indivíduos.
“Normalmente os indivíduos são identificados pelas marcas naturais que têm na cauda, pelas marcas que ganham durante a vida, mas os cachalotes nem sempre mostram a cauda e os juvenis e as crias também mostram-na pouco. E eu, como tinha reparado que existem muitos indivíduos que têm marcas no corpo, queria identificá-los através dessas mesmas marcas”, conta.
Quanto aos grupos compostos na sua grande maioria por fêmeas adultas, a bióloga marinha da Futurismo adianta que através das fotos recolhidas conseguiu perceber “quem estava com quem e que eram sempre os mesmos indivíduos que estavam juntos”, grupos estes que, muito provavelmente, se manterão durante a vida inteira destes cachalotes, ou seja, uma média de 80 anos.
Apesar de ainda não existirem estudos direccionados para melhor entender o comportamento dos cachalotes nos Açores, onde existem em relativa abundância um pouco por todas as ilhas do arquipélago, a bióloga indica que estes grupos de fêmeas permanecerão juntos durante todos estes anos com o intuito de auxiliar no crescimento das crias, garantindo que são amamentadas e protegidas das orcas, o seu principal predador.
“Estes grupos existem provavelmente para tomar conta das crias. Nos cachalotes não é só a mãe que toma conta da cria mas também as outras fêmeas do grupo, tal como as irmãs, as tias, ou as avós, que poderão também amamentar as crias de outra fêmea, e que poderão também proteger essas crias em relação às orcas que são o único predador das crias dos cachalotes”, diz.
Para além disso, e de acordo com o pouco que se conhece até ao momento, a bióloga marinha da empresa de animação turística que teve um importante papel no desenvolvimento deste estudo explica que será também provável que os cachalotes acabem por se reproduzir dentro do mesmo grupo, embora seja frequente que machos adultos visitem os Açores a partir de outros locais do mundo, como a Noruega, com o propósito de acasalar com várias fêmeas.
No entanto, e apesar de não ser possível determinar quer rituais de acasalamento ou os rituais associados à gravidez das fêmeas nos Açores, relata ter, a 20 de Junho de 2016, presenciado o nascimento de dois cachalotes na costa norte da ilha de São Miguel, resultando em duas novas crias de duas fêmeas adultas diferentes.
“Provavelmente também se reproduzirão dentro do mesmo grupo. Já tive a oportunidade de ver na costa norte, em 2016, duas fêmeas a dar à luz ao mesmo tempo, uma a seguir à outra. Vi duas crias a nascer num dia, então é possível que elas também possam reproduzir-se em conjunto. Não direi que possam planificar exactamente quando terão as crias, mas a realidade é que vimos muito sangue na água, muito movimento e depois vimos a cria recém-nascida com a pele enrugada e com a barbatana dorsal ainda curvada”, descreve a bióloga natural da Holanda.
A presença de um número tão elevado de fêmeas quando em comparação com os machos adultos que foram identificados nos Açores prende-se, explica, com o facto de as fêmeas preferirem “águas mais quentes enquanto os machos passam mais tempo em águas frias”, como é o caso da Noruega, de onde vêm alguns machos adultos para garantir a reprodução da espécie, embora “fiquem apenas durante algumas horas com o grupo, tentem acasalar com vários indivíduos para depois irem embora”.
Trabalhar com este tipo de experiências e realizar este tipo de estudos foi, em primeiro lugar, o que trouxe Miranda van der Linde aos Açores, uma vez que tinha interesse em ver e em estudar “grupos de fêmeas de cachalotes com as suas crias e com juvenis”, algo que não é frequentemente visto na Nova Zelândia, país onde estudou e fez a sua tese de mestrado sobre cachalotes, e cujos mares são habitados principalmente por machos adultos que preferem, como já foi referido, águas mais frias.
O estudo em causa, publicado na revista de especialidade, tem como objectivo principal “conhecer um pouco melhor os cachalotes dos Açores, que até agora são pouco estudados sobretudo aqui em São Miguel”, indica a bióloga marinha, explicando que, embora existam já outros estudos que envolvem a ilha do Pico e a ilha do Faial, não foi ainda desenvolvido um estudo que permita cruzar dados e perceber se existem ou não diferenças no que diz respeito ao comportamento dos cachalotes entre as várias ilhas do arquipélago.
No futuro, adianta que gostaria de continuar a estudar o comportamento desta espécie na ilha de São Miguel, explicando que actualmente a Futurismo continua a tirar fotos e a tentar acumular mais dados e conhecer mais indivíduos, comparando as fotos conseguidas em São Miguel “com as fotos de outros cientistas do Atlântico Norte para tentarmos perceber quantos indivíduos foram vistos nas outras ilhas dos Açores e também na Madeira ou nas Canárias, por exemplo”.
Entretanto, a bióloga é da opinião de que “existe falta de estudos aqui nos Açores”, facto que poderia ser facilmente contornado uma vez que existem muitos biólogos a trabalhar na observação de cetáceos, tendo oportunidade para estudar “não só os cachalotes mas também as baleias de barba e os golfinhos”, sendo que no arquipélago, principalmente na Primavera, passam cinco espécies de baleias de barba, nomeadamente a baleia azul, a baleia comum, a baleia sardinheira, a baleia de bossas e baleia anã.
Ainda no que diz respeito aos estudos desenvolvidos com cachalotes, Miranda van der Linde adianta que gostaria de reunir mais informação para melhor perceber os nascimentos que ocorrem ao largo dos Açores: “Gostava de tentar perceber mais sobre os nascimentos, queria saber mais sobre quando é que as crias nascem, se há alturas ou áreas específicas onde as fêmeas prefiram dar à luz como na costa norte, por exemplo, ou se as fêmeas ficam juntas para dar à luz as crias, uma vez que o nascimento de baleias é uma coisa que poucas pessoas viram até agora”.
Para além disto, a bióloga marinha gostaria ainda de perceber ao certo “o que se está a passar na costa norte”, no intuito de entender melhor o porquê de, “aparentemente, existirem mais cachalotes naquela zona e de existirem ali grupos maiores”, incluindo elementos como a temperatura da água e a quantidade de alimento que ali existe em comparação com o mar que banha o sul da ilha.
Estes resultados poderão ser alcançados não só com recurso à foto-identificação, explica Miranda van der Linde, salientando que podem ser também gravados “os cliques que os cachalotes produzem para falar entre si, já que eles produzem padrões de cliques que variam entre várias áreas do mundo. É como se falassem línguas diferentes, ou dialectos diferentes, e é algo que pode também ser estudado nos Açores, para além da comparação das caudas entre ilhas ou entre famílias/grupos para percebermos se há diferenças entre eles”.
De acordo com a autora deste primeiro estudo sobre os cachalotes na ilha de São Miguel, este é “um tipo de investigação que está ao alcance das empresas de animação turística”, salientando que a Futurismo desde o ano passado utiliza também hidrofones, “microfones utilizados para ouvir os cachalotes debaixo de água e que agora são utilizados para fazer gravações que poderão ser analisadas futuramente”.

 

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