23 de junho de 2019

Mare Nostrum

No início do Verão

No Início do Verão faz sentido relembrar algumas questões relacionadas com as alterações climáticas. Assisti recentemente a um interessante episódio do programa Biosfera cuja questão principal era “qual o papel do vento nas alterações climáticas?”. Nesse programa foi referido um estudo do Instituto de Tecnologia de Massachusetts  (MIT) que apresenta dados sobre a previsibilidade de uma maior estagnação da circulação do ar durante o Verão nas latitudes médias do hemisfério norte, ou seja, Norte da América, Europa e Ásia.
Os efeitos dessa estagnação da circulação do ar deverão ser também sentidos nos Açores. Se a essa diminuição do vento no Verão se adicionar o previsível aumento de temperatura pode considerar-se que as condições de conforto bioclimático terão tendência para piorar nas nossas ilhas, facto que aliás já foi sentido no Verão passado. Um elemento essencial para contrariar esta tendência são as árvores, especialmente nos aglomerados urbanos.
O papel das árvores na melhoria do ambiente urbano é amplamente reconhecido, mas para citar apenas dois benefícios pode referir-se a mitigação da poluição e o ensombramento. O ensombramento é especialmente útil no Verão e será cada vez mais necessário, pelas razões atrás expostas. Assim, intervenções como aquelas que foram recentemente efetuadas no parque urbano da Alagoa, na cidade da Horta, de podas radicais de árvores de ensombramento e de sebes, fazem cada vez menos sentido.
As árvores em questão são metrosíderos (Metrosiderus excelsea), que normalmente suportam bem ser podados e que muito provavelmente vão resistir a esta intervenção. No entanto, neste Verão não haverá ensombramento na zona do parque de merendas, e no próximo inverno a sebe que permite a proteção, quanto aos ventos salinos, das espécies de árvores mais delicadas existentes no interior do parque da Alagoa não estará a produzir o seu efeito.
No nosso país, e na tradição habitualmente corrente da arquitetura paisagista, é desejável que as árvores e arbustos mantenham a sua conformação natural. A poda de árvores e arbustos não deve ser entendida como uma operação rotineira em parques urbanos e jardins, mas sim uma operação excecional, devidamente justificada por causas identificáveis. Caso seja necessária deve ser o mais subtil possível, de modo a que não se note a intervenção. 
Na obra “A Árvore em Portugal”, Francisco Caldeira Cabral e Gonçalo Ribeiro Telles referem que a poda de árvores ornamentais pode ter duas finalidades: a modificação do equilíbrio biológico e a modificação da forma da planta. A primeira é por vezes necessária quando se interfere ao nível do raizame da planta, para equilibrar a proporção entre a parte aérea e a parte subterrânea da árvore, e só é justificada em situações de emergência. A modificação da forma da planta pode ser necessária para subir copas de árvores e desse modo libertar caminhos, ou melhorar a iluminação. No entanto, também neste caso, deverá manter-se a forma natural da planta e não se devem podar as árvores ornamentais como se árvores de fruto se tratassem. Além disso, não devem ser podadas na Primavera ou Verão, mas sim na época de repouso vegetativo.
O ensombramento e o abrigo que as árvores proporcionam é valioso, e deverá tornar-se cada vez mais importante devido ao seu papel de melhoria do conforto bioclimático e mitigação dos efeitos das alterações climáticas. As árvores em meio urbano, especialmente em parques urbanos e jardins como o Parque da Alagoa são um património que é de todos os cidadãos e com os quais estes estabelecem uma relação afetiva. Esperemos que daqui para a frente haja mais bom senso no tratamento deste património.
Programa Biosfera, RTP2, 8 de junho de 2019.
Francisco Caldeira Cabral; Gonçalo Ribeiro Telles - “A árvore em Portugal”. Lisboa: Edições Assírio & Alvim, 1999. 
 

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Categorias: Opinião

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