23 de junho de 2019

A vertente social do torneio do Clube União Micaelense

OS OBJECTIVOS DE UNS E DE OUTROS - As competições de futebol da época de 2018/2019 terminaram, dando lugar aos torneios de futebol infantil.
Por todo o Mundo se realizam. Em Portugal vão ganhando forma e de ano para ano são mais os que surgem do que os que desaparecem. Não há contabilidade, mas ultrapassa, e muito, a centena.
Os Açores não fogem à regra. Há torneios que já fazem parte do roteiro anual e outros que vão ganhando forma.
Por cá há uma diferença em relação a muitos dos que se realizam no Continente. Os clubes organizam-nos com o intuito de promoverem o futebol, de incentivarem as crianças a praticá-lo e de darem a conhecer às centenas de visitantes as paisagens, a gastronomia, a cultura e os monumentos das ilhas.
Por cá as organizações suportam as viagens de algumas equipas, nomeadamente de clubes com projecção e de dimensão, mesmo tratando-se de crianças de 10, 11 ou de 12 anos de idade.
Por cá as organizações custeiam as estadas dos atletas das equipas forasteiras, proporcionando-lhes condições que são elogiadas.
Lá por fora, muitas das organizações são suportadas em empresas. O principal objectivo é o lucro. Cobram dinheiro nas inscrições e em quase tudo o que promovem. Não lhes faltam clientes. Mesmo dos Açores. Anualmente são várias as equipas a viajarem até ao Continente ou à Madeira, além de a outras ilhas dos Açores. Outro fenómeno que anualmente ganha uma maior dimensão.
As despesas com as viagens são por conta dos pais ou de fundos angariados com a realização da venda de rifas, de sorteios ou de jantares.

SEIS EM SÃO MIGUEL - Pode dizer-se que estes torneios de futebol infantil estão na moda. Promovem-nos em série e são cada vez mais disputados pelos clubes que pretendem neles participarem. 
Na ilha de São Miguel são já 6 os torneios que se realizam. Começam em Janeiro com o Pikas Cup, organizado pelo Vitória do Pico da Pedra, e que teve a segunda edição, prossegue, em Abril, com o Internacional Football Tournament, promovido pelo Clube União Micaelense, e que já vai em 13 edições.
O mês de Junho é o mais forte. No início joga-se o Pauleta Azores Soccer Cup U13, que cumpriu a 7.ª edição e tem a responsabilidade da Associação Clube Futebol Pauleta; a meio é o Figueiras Cup, sob a organização do Clube Desportivo Santo António, que teve o 4.º torneio.
Neste fim-de-semana realiza-se em Nordeste o 5.º Priolo Cup, com organização repartida pela Câmara Municipal do Nordeste e pelo Centro Desportivo e Recreativo do Concelho do Nordeste e termina nos dias 13 e 14 de Julho, na Povoação, com o primeiro Torneio Internacional Diáspora sub-10, que tem como organizador o Mira Mar Sport Clube.

CHEGAR À DIÁSPORA E MACARONÉSIA -  O torneio do Clube União Micaelense tem tido uma projecção pela forte vertente social que é ali implementada. É a opção da actual Direcção. É por esta razão que anualmente ao torneio têm vindo clubes da diáspora e da chamada Macaronésia, que engloba, além dos Açores, as ilhas Madeira, Canárias e Cabo Verde.
O aspecto desportivo com a realização dos jogos não está no topo das prioridades. Importante é que haja convívio, que haja a divulgação da nossa cultura paisagística, através de passeios e de momentos de lazer que a organização proporciona.
Desde há alguns anos que tinha curiosidade de saber como se processava a organização de um torneio que já vai em 13 edições, sendo o mais antigo dos Açores.  
Cada edição começa a ser preparada logo no dia imediato ao termo do torneio anterior. São cerca de 30 elementos ligadas à estrutura, com um núcleo duro composto por 3 ou 4 elementos.
Através da presença de clubes de fora dos Açores e do país, mesmo tratando-se de equipas de crianças, o União Micaelense e os Açores são projectados.
Homenageia sempre uma figura de prestígio que esteve ou está ligada ao clube, contribuindo de forma activa para a história de 108 anos.
Os troféus são originais. São elaborados através de peças que replicam a história e a cultura da ilha de São Miguel. Já foram sobre o basalto, sobre a latoaria, sobre a telha e sobre a criptoméria. 
Para a edição de 2020 já está esboçada a área que será a base dos troféus. Promete fazer sucesso na entrada do campo Jácome Correia, como tem acontecido nos últimos anos.

DESAFIO CABO VERDE - O aspecto social ficou este ano marcado com a vinda da equipa da Associação Desportiva e Cultural Maracanã, da cidade da Praia, ilha de Santiago, de Cabo Verde. 
Mais um desafio ganho pelo coordenador geral do Clube União Micaelense. Arsénio Sampaio Furtado é o rosto principal deste torneio, do seu figurino e do percurso ascendente, contando com o apoio de um grupo de pessoas que não se poupa a esforços para que tudo corra bem.
O desafio de ter a presença de Cabo Verde foi superado com sucesso. Juntou muitas vontades e muitos apoios para possibilitarem a vinda de crianças com dificuldades tremendas, até para terem botas que pudessem utilizar nos jogos e as roupas de equipamentos para os jogos.
Quando aos responsáveis foi perguntado qual a cor do equipamento para se apresentarem no torneio, a resposta foi simples: qualquer um serve. “Jogamos com a cor do equipamento que nos ofereceram” foi a resposta dos responsáveis pela agremiação de Cabo Verde.
A onda de solidariedade foi tão vasta que a caravana pôde transportar muitos quilos de material de diversas áreas e que a Associação é carente.
Este é mais um exemplo de como o desporto pode servir de cooperação e de ajuda para que crianças com carências desfrutem de condições parecidas com as de outras crianças.

APOIOS OFICIAIS ESCASSOS - Sendo um torneio que envolve cada vez mais pessoas, esperava-se que os contributos oficiais fossem maiores, para minimizarem as despesas que o clube tem numa organização tão complexa e com resultados que são evidentes numa altura do ano (Páscoa) que permite a vinda de muitos acompanhantes.
Este ano foram cerca de 80 pessoas afectas ao clube Associação Desportiva Taboeira, de Aveiro, 72 dos Estados Unidos da América e 48 da Bermuda que estiveram na ilha de São Miguel.
Com um orçamento de cerca de 60 mil euros, os 7 500 euros actuais concedidos pela Direcção Regional do Turismo e, este ano, os 5 mil da Direcção Regional do Desporto, são insuficientes para quem tanto faz pela promoção.
Se compararmos com outras organizações, sem a mesma dimensão, há claramente um déficite para com o torneio do Clube União Micaelense.
O trabalho que antecede os dias dos jogos é de grande azáfama. A preparação das salas de aula para servirem temporariamente de dormitório e recompô-las posteriormente, a colocação dos colchões cedidos pelo Exército, a limpeza. 
Durante o torneio foram servidas 2 100 refeições e mais de 600 pequenos almoços.
Os cuidados com a organização são tantos que três elementos da organização estão permanentemente em apoio às equipas que ficam alojadas na Escola Roberto Ivens, em Ponta Delgada, que inclui a dormida. Para que nada falte a quem vem ao torneio.
Recordo que o União Micaelense é dos poucos clubes inseridos nas provas regionais que tem o processo de certificação praticamente concluído. Tem 88 pontos em todos os itens, quando o máximo são 100.

Print

Categorias: Opinião

Tags:

x
Revista Pub açorianissima