A Nossa Gente (204) – Rafael Carvalho

“Falta-nos um centro artístico onde sejam ensinados os instrumentos tradicionais!”

Quando nasceu e como se desenvolveu o início da sua vida?
Sou da Ribeira Quente, mas vim nascer a Ponta Delgada, ao Hospital de São José, a 22 de Setembro de 1980. Diz minha mãe que se chamava o carro de praça e que quase nasci pelo caminho, porque a estrada nesta altura não era a melhor! O meu irmão, que é de 1979, foi dos últimos a nascer na Povoação. O meu irmão é de 6 de Setembro de 1979 e eu do mesmo mês do ano seguinte; sou assumidamente um acidente. 
Lembro-me de as minhas avós serem domésticas e de o meu avô paterno ser agricultor e ter as suas terras com uvas, pomares, batatas, laranjas, bananas, etc. A minha mãe era doméstica e o meu pai pedreiro, trabalhava para a antiga Secretaria do Equipamento Social, mas também fazia terras. Por tudo isso fui criado no meio da vida do campo. 
Quando era tempo de escola íamos para as aulas, mas aos sábados e feriados tinha-se que trabalhar na terra, ajudar a semear batata e a abrir as caseiras. 
À medida que fomos crescendo as responsabilidades foram aumentando e nas férias o meu pai dava-nos indicações para fazer determinadas funções; quando ele chegasse a casa tinha que estar feito. Como ele era pedreiro construía tudo, por isso se fosse preciso também se construía um galinheiro. Cresci muito nisso, mas de certo modo isso era uma alegria, porque gostávamos de aguar os pepinos ou os tomateiros com a água dos depósitos que o meu pai fazia com a chuva de Inverno, porque não se podia usar a água corrente para este tipo de coisas. Passou-se assim a infância!

E o ingresso na escola como se deu?
A escola foi feita sempre na Ribeira Quente até ao quinto ano. No meu tempo ainda havia duas escolas, a do lado da ribeira e a do lado do fogo, nós íamos para a do fogo. Descíamos a rua os três e íamos para a escola a pé que ficava muito perto de casa. 

A que se brincava na altura?
Quando éramos pequeninos morávamos em casa da minha avó, perto da ribeira, e tínhamos muitos vizinhos, mas depois – com cinco ou seis anos – mudamos de casa e aí não havia muita vizinhança, além do que não éramos meninos de brincar na rua. A minha mãe preferia que estivéssemos no quintal, podíamos revirar aquilo tudo mas tínhamos que estar debaixo do olho dela. Claro que já mais velhos íamos com os amigos jogar futebol, andar de bicicleta à roda da freguesia, e mais tarde já íamos para a praia sozinhos. Brincávamos igualmente ao berlinde, ao pião, mas também fazíamos muitos jogos simbólicos, com temas como os cowboys, os índios e os westerns – que o meu pai via muito na televisão –, pois só havia um canal e nós recriávamos tudo o que víamos! 
Brincávamos também com a minha irmã Gina, quatro anos mais velha que eu, mas como havia diferença de idades às vezes a coisa não acabava muito bem! Houve uma altura em que eu o meu irmão gostávamos muito de ver os Jogos sem Fronteiras. Por isso, fazíamos estes jogos em casa e na cozinha fazíamos obstáculos, amarrávamos umas cordas e muito mais. A minha mãe lá ia sofrendo aquilo com paciência, até se passar completamente! 
Recordo que gostávamos muito da “Academia da Polícia” e depois levávamos semanas a tentar imitar as vozes deles! O filme “Os deuses devem estar loucos” também saiu quando éramos novos, recordo bem. A gente criava muitas das nossas brincadeiras. 

Como era a sua postura na escola?
Gostava mesmo da escola, era muito estudioso. Lembro-me que vinham muitos professores principalmente de Vila Franca do Campo. Fui para a escola com o meu irmão quando tinha cinco anos, fui no primeiro ano que abriu a pré-primária na freguesia. Íamos os três para a escola: a minha irmã para a 4ª classe, o meu irmão para a 1ª e eu para pré. Quando não havia aulas pelo mau tempo ou porque o professor não podia eu até chorava! Na pré-primária usava-se uma bata branca, e eu adorava-a! Lembro-me de passar o Mário Soares na freguesia e de ter feito na ocasião a minha primeira quadra. Recordo-me também quando aprendi as contas de dividir e de chegar a casa a chorar, porque não percebia como se fazia a divisão. Gostava de fazer os ditados, as cópias e os trabalhos de casa. Quando chegávamos a casa a minha mãe ajudava-nos, porque ela tinha a quarta classe antiga. 

Quando descobriu, no meio disso tudo, o gosto pela música?
A minha mãe sempre gostou de cantar pela casa, era do tipo de pessoa que trabalha e canta ao mesmo tempo. Ia à missa com os meus pais e a minha mãe sentava-se no primeiro banco a levantar os cânticos, pelo que cantávamos com ela. O meu pai tocava violão, tocou na tropa, esteve em Angola e quando foi para o Canadá, onde a minha irmã nasceu, cortou com este hábito. Eles regressaram, mas como o meu pai não tinha violão não tocava. No meio disso tudo ele comprou um violão de cordas de aço e quando se lembrava tocava. Sou do tempo em que a televisão só abria às seis da tarde e as falhas de luz eram uma constante; nestas alturas contavam-se histórias e o meu pai tocava violão, o qual estava no quarto dele e não podíamos tocar-lhe, pois éramos pequenos e podíamos estragar. 
Certo dia, com 11 ou 12 anos, pedimos a meu pai que queríamos aprender a tocar violão, sem saber que reacção teria ele. Ele começou a ensinar-nos duas ou três modas que sabia, os acordes e a fazer acompanhamentos. Ele tocava de ouvido, não sabia o nome dos acordes, e também aprendi assim. 

A Ribeira Quente daquele tempo era muito diferente, não era?
Há duas décadas a Ribeira Quente era muito distinta, não só ao nível das infraestruturas, mas também ao nível da formação das pessoas; a minha irmã foi das primeiras mulheres a ir estudar para fora. 
Quando começaram os projectos europeus fundou-se o Centro Paroquial e Social, junto da igreja, onde fazemos os concertos anuais e damos as aulas de viola da terra. Também nesta altura abriram cursos e as mulheres iam para lá aprender a trabalhar escamas de peixe, folha de milho, bandeiras do Espírito Santo e artesanato no geral. Nesta altura quase toda a população feminina era doméstica. 
Com este crescimento, mais tarde se criou o Grupo Folclórico da Ribeira Quente, em 1993. Comecei a ir para os ensaios com o meu pai, como só havia um violão ele tocava duas músicas, eu outras duas e aí por diante. Nesta altura o professor Carlos Quental, que dava aulas há dois ou três anos na Povoação, começou a ir para a Ribeira Quente dar aulas de viola da terra e eu frequentei-as. Portanto, comecei a tocar viola da terra por causa deste professor e quase por acidente, aos 13 anos! 

Houve algo que o encantasse de imediato na viola da terra?
Gostei logo. O professor Quental falava de forma apaixonada da viola, das suas sonoridades, da emigração e dos seus dois corações. Além disso, tive uma educação da parte dos meus pais que me ensinou a ouvir o professor a falar e não se reclamava, nem podia chegar a casa e dizer alguma coisa sobre o professor. Isso não é assim hoje em dia, porque os alunos sentem necessidade de rebater tudo ou de dar opinião sobre factos concretos. Não quer dizer que não houvesse algum professor de quem não se gostasse tanto, mas havia respeito.
Ensaiava durante toda a semana e procurava descobrir mais e mais na escala da viola, mesmo nos sítios errados. Não havia internet, nem registos de áudio ou vídeo para vermos. Tive uns seis meses de aulas de viola, foi com este curso que fiquei e aprendi essencialmente músicas de folclore. No ano seguinte, com 15 anos, já ensinei aos meus colegas aquilo que sabia. 
Naquela altura só havia o grupo folclórico e os escuteiros, mas os jovens ficavam na freguesia. Hoje em dia eles vão para as festas que existem por aí. No nosso tempo os ensaios de Sexta-feira ou de Sábado eram religiosos e ninguém poderia marcar nada para aqueles dias. Criamos também um grupo musical, como qualquer jovem daquelas idades. Foi muito interessante

Que caminho seguiram os seus estudos no meio de tudo isso?
Fiz o secundário na Povoação. Da mesma maneira que o primeiro ano da pré-primária na Ribeira Quente foi o da minha turma, o meu 10º ano também foi o primeiro da Povoação. O primeiro curso ainda era bastante limitado quanto a condições de laboratório; tínhamos apenas três microscópios para toda a gente, com riscos nas lentes, e dois computadores apenas, mas o curso lá se fez e não deixou mazelas em ninguém. Para se ser bom professor não é preciso um bom laboratório e há sempre aspectos a evoluir, é mesmo assim. Orgulho-me muito de ter feito o meu secundário na Povoação e vou sempre defender a minha Ribeira Quente e o meu concelho.
Aqui também levávamos o violão para a escola e aprendíamos uns com os outros, sem qualquer preconceito de um saber mais que o outro. 
Em 1998 entrei para a Universidade dos Açores (UAç), mas o ano lectivo de 1997-1998, o meu 12º ano, foi muito complicado, porque decorreram as derrocadas na Ribeira Quente. Foi uma tragédia horrível, onde morreram muitas pessoas incluindo os meus avós paternos! Ficamos muito marcados e admito que durante um ano não dormi na minha cama, porque sentimos tudo a estremecer e saímos de casa a meio da noite. Tivemos que desenterrar os avós e isso é algo que não se deve pedir a ninguém… os meus pais compreenderam muito bem o nosso quase desinteresse pela escola. Tínhamos 17 anos e questionávamos tudo sobre a vida a partir daquele momento.
Passei no exame nacional, mas nem sequer estava muito virado para aí. Entrei para a Universidade para o curso Matemática, porque não tinha a nota mínima para entrar no curso que queria, Biologia e Geologia. Não fazia a mínima ideia da nota mínima que precisava para entrar para a UAc, nem eu, nem os meus colegas e era mesmo assim. Concorremos para a universidade um pouco sem sabermos o que estamos a fazer, ao contrário de alunos meus que com 12 e 13 anos que já sabem o que querem ser! 
Do pessoal da Povoação viemos sete e ficamos todos em Matemática, a minha última opção. Vir da Povoação para Ponta Delgada, com turmas de 150 alunos na universidade, foi uma mudança abrupta. Estávamos completamente perdidos em Ponta Delgada! Foi muito complicado e tive mesmo um abrandamento da minha vida. As disciplinas que consegui fazer foram as teóricas, porque não sabia e não sei estudar matemática! Ao fim de dois anos mudamos todos para Gestão. Passados estes dois anos comecei a trabalhar, porque precisava!

Como começou esta carreira profissional?
Comecei no Holiday Inn, depois fui para o Millennium BCP, na sucursal de Vila Franca do Campo, e de seguida trabalhei como escriturário numa empresa de Construção Civil, na Sousa & Garcês. Entretanto, fui estudando e trabalhando, mas as seis disciplinas mais complicadas do curso não as fiz, pelo que não acabei ainda o curso.
Depois fiz a maior loucura da minha vida: despedi-me de escriturário, estava efectivo mas era infeliz; acho que me adapto facilmente, mas não estava bem e a minha esposa foi mais maluca do que eu porque me incentivou e ajudou nesta decisão. Fui ainda oito anos tesoureiro da Junta de Freguesia da Ribeira Grande, o que me fazia ir muitas vezes durante a semana à Ribeira Quente.
Entretanto, praticava viola no grupo folclórico da Ribeira Quente e no grupo folclórico da UAç. Aprendi músicas das tunas na viola, mas nunca fui para a tuna. Cheguei a ajudar em vários outros grupos de folclore, em freguesias como as Furnas, a Água Retorta ou a Fajã de Baixo, mas com o grupo da universidade o ritmo era diferente porque éramos todos jovens e era uma folia.

É nesta altura que entra o conservatório?
Entrei como aluno para o conservatório aos 26 anos, portanto nunca é tarde, e vim ser aluno de formação musical, porque me faltava a teoria. 
De um momento para o outro, a minha esposa – que trabalhava como assistente social – segurou as pontas da casa para eu poder seguir os meus sonhos e vim dar aulas para o conservatório, com um grupo de sete alunos, e tinha também a academia da Povoação, mas estas funções não me davam segurança. Demiti-me no ano em que casamos, tinha eu 28 anos, há 11 anos, e sem perspectivas nenhumas. Foi uma fase muito complicada, mas senti-me muito leve. Estou, portanto, no conservatório há 11 anos contratado. Entre os 22 e os 28 anos andei por vários trabalhos até chegar aqui e estabilizar, para cumprir um sonho; foi um investimento grande da minha parte e do conservatório também, porque não me conheciam de parte alguma. Fui ficando cada vez com mais horas de trabalho aqui e a responsabilidade foi aumentando. Desta forma, investi na minha formação aqui. 
Fiz a primeira prova, auto-proposta, da viola da terra de 5º grau de um conservatório do país. Foi aprovada por toda a gente e depois submeti-me a exame. (…) Começamos a ensinar viola da terra oficialmente neste conservatório, o primeiro do país, em 2004-2005. Depois disso, já várias pessoas fizeram o exame para o quinto grau, e no total são já cerca de sete pessoas. 
Depois demoramos sete anos a tentar instituir o curso do secundário como ensino oficial, o que foi muito complicado. Passado tudo isso, foi aprovado no ano lectivo passado o curso de secundário da viola da terra. Assim sendo, temos o curso básico e o secundário legislados nos Açores, mas ao terminar estes estudos o aluno não pode ir tirar uma licenciatura em viola da terra, porque ela não existe! Provavelmente não vai existir, mas espero que um dia exista pelo menos licenciatura em viola de arame. (…)

Sente que teve um papel fulcral no relembrar a viola da terra na nossa Região?
Sim, e sei que tenho lutado bastante com outras pessoas para que isso aconteça. No entanto, tenho noção que tive um caminho muito mais sinuoso e difícil para chegar aqui do que pessoas que com seis anos entram para o conservatório. (…) Por isso sinto que tive que abrir caminho em muitas áreas ao nível do ensino, assim como o meu colega Ricardo Melo. Mas ainda hoje em dia há muitos problemas diários para resolver. Outra coisa que reparo é há muita gente que se aproxima e que quer tocar a viola da terra, mas agora já tenho o meu caminho definido e sei muito bem com quem quero trabalhar. 

O que é que falta fazer ainda aquando da viola da terra na nossa Região? 
O que nós precisamos é de ter no nosso currículo regional, e até já começou a acontecer, uma referência nos nossos manuais de ensino a tradições como a nossa viola, os foliões, as filarmónicas, as tunas, entre outros. Basta uma página com a informação das nossas tradições nos livros escolares. Ainda vou a escolas onde há miúdos que nunca viram uma viola da terra, mas também já há muitos que a reconhecem e que estão atentos a este tipo de instrumento. (…) 
Está a faltar-nos em São Miguel uma escola de violas tradicionais, ou seja um centro artístico onde sejam ensinados os instrumentos tradicionais! Importa aí ter pessoas que saibam tocar, velhos mestres, que queiram ensinar os mais novos. E não é só o governo regional que tem que se dedicar a isso, as autarquias também o podem fazer e já existem algumas a trabalhar nesse sentido! A curto prazo, deve existir nas ilhas todas este tipo de projecto, com cursos que possam ser certificados e onde os formadores tenham uma formação reciclada para acompanhar os alunos. 
Falta uma entidade oficial que regule esta prática para que não desapareçam os tocadores nas nossas ilhas. (…) Já se justifica há muito tempo mais um professor de viola da terra no conservatório, porque a procura existe. Tenho tido excelentes resultados com os alunos que se vão cruzando comigo, mas mais de metade seguiu estudos em outras áreas e não volta aos Açores.

O seu filho, de cinco anos, mostra querer seguir as pegadas do pai?
Ele tem uma viola pequenina, com a qual faz barulho, e quando encontra a minha fora do saco trata de fazer música contemporânea, tocando-lhe com as mãos e com os carrinhos, mas ele gosta muito de cantar. Quando estou com a minha viola, ele muitas vezes vai buscar a sua, o que me orgulha muito. 

O que mudou na sua vida desde a paternidade?
Foi uma mudança da noite para o dia! Aos 17 anos pensamos que aos 25 vamos ter a vida toda orientada, mas não é bem assim. Temos que lutar muito, assim como os meus pais que tiveram que emigrar durante dois anos para o Canadá para voltar e comprar o a sua casa, onde criaram os seus filhos. (…) 
Ter um filho aos 33 anos já não se enquadra no relógio biológico do tempo dos nossos pais, por exemplo, porque é preciso estudar primeiro, acabar o curso, procurar trabalho e encontrar uma estabilidade para construir uma vida, quando se encontra! Antigamente dizia que tudo se criava, mas eles viviam todos perto uns dos outros. 
Depois de muito tempo a viver de renda num apartamento, decidimos comprar um, neste caso em Ponta Delgada, mas não é a mesma coisa do que viver numa casa, e sinto isso todos os dias porque criar um filho num apartamento não foi o que sonhei quando tinha 20 anos… por isso com bom tempo aos fins-de-semana saímos sempre para o espaço verde com o miúdo. O que estamos a viver agora é o que os meus pais viveram em 1976, no Canadá. É tudo feito de carro ou de autocarro, para irmos trabalhar tem que se pagar uma ama ou deixar os filhos na creche para serem criados por outros, porque já não ficam com os avós como antigamente, e quando chega ao final do dia já estamos exaustos!
Está a ser a melhor experiência das nossas vidas, mas nunca ninguém está preparado para isso. Tivemos que refazer toda a nossa vida em torno disso e profissionalmente também tive que tomar outras opções, claro. Preciso de sanidade mental e de tempo para gozar o meu filho e a minha esposa. O desafio é maior agora, mas é diferente. 
Felizmente que ainda há familiares que reconhecem que hoje em dia criar um filho é outra coisa, não só porque não estamos tão perto dos pais, mas porque a própria sociedade mudou e é tudo mais exigente; mesmo os profissionais de saúde têm muita desinformação e é preciso filtrar muita coisa! 

                                            

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Autor: CA

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