Gerações (15) – Ricardo Silva

“A era digital assusta-me um bocado pelas relações desequilibradas que pode criar entre as pessoas e os países”

Quando e onde nasceu? Conte-nos como foi, de uma forma resumida, o seu crescimento.
Nasci na casa da Natividade da Ribeira Grande, sito ao Adro das Freiras, hoje Biblioteca Municipal Daniel de Sá. Quis o destino que se desse o nome de um grande amigo – o Daniel de Sá – ao sítio onde nasci e ainda por cima que trabalhasse denodadamente para que aquele espaço fosse a bonita biblioteca que é hoje! 
Em Março de 1962, pisei, sem arrependimento, o mundo! Na humildade dos meus pais e na companhia dos meus irmãos, somos quatro, sendo eu o mais novo, sempre senti o conforto familiar e a liberdade de movimentos. Miúdo livre, de rua e de vida rural; adolescente atrevido em espaço urbano – estudei no antigo Liceu e depois Escola Secundária Antero de Quental – e iniciante da interrogação ao mundo; adulto comprometido com as causas que abraça sejam elas a educação, o desporto ou a política. Nunca gostei do “assim assim”, do “toca e foge”, do que está “dentro e fora”! O compromisso, a causa, o valor e as ideias têm muito peso em mim! Por ser um admirador da vida e da Humanidade, no meu crescimento, interrogo-me quanto devo aos meus pais e irmãos, à família em geral, pelo seu contributo na minha caminhada! Quanto devo aos meus professores e amigos? Até hoje!

Que tradições/costumes da nossa terra recorda do seu tempo de infância que hoje já não se celebrem da mesma maneira ou de todo?
Basicamente as tradições e os costumes são os mesmos, com a introdução de outros, quase sempre, sob batuta comercial, tanto no calendário religioso ou civil. Contudo, noto que o tempo e os novos costumes e formas diversas de intervir vão “fazendo das suas”! A religiosidade já não é a mesma – mais superficial e menos vivida; o conceito de família minguou, e diferenciou-se, as gerações familiares reduzem-se ao núcleo base; a amizade é mais volátil, temporária, e de menos presença; socialmente falando a noção de compromisso é menor, em que quase tudo é incerto e passageiro! Isso vê-se mesmo no amor, na política, no desporto, etc. Não quero ser injusto, ou incorrecto, mas quando vejo a vivência de algumas tradições como certas festas do Espírito Santo, procissões locais, Quaresmas e Natais, parece que só restam as sopas e os foguetes, a abertura das luzes e o arraial, o folar e o almoço de Domingo de Páscoa e os presentes de Natal! Muito do belo e do interesse ficou para trás!

Comparando com a geração dos dias de hoje, na sua opinião que diferenças existem em relação à geração em que nasceu?
Não sou passadista ou saudosista! Nenhuma geração se pode afirmar melhor do que outra! Sob que critério? Hoje a marca da liberdade é o grande valor da juventude! Quão grande isso é! Os jovens são tão nobres hoje quanto o eram no meu ou noutro tempo. Oportunidades diferentes, mas problemas também. No campo da liberdade, da escolha e do ser, colocam-se hoje grandes opções aos jovens: estudo e emprego; divertimento e alienação; participação cívica e inactividade; emigrar ou ficar; ter ou não ter filhos e quando; etc. O que quero dizer é que todo o tempo tem o seu “mundo próprio”, sendo que no caleidoscópio da vida sinto que hoje os jovens são mais responsáveis pelas suas opções de vida! 

Que evoluções e alterações tem notado no mundo de trabalho desde que começou a trabalhar até àquilo que é hoje a sua realidade profissional? Conte-nos um pouco do seu percurso profissional. 
O mundo do trabalho evoluiu a nível instrumental, mas profundas desigualdades ainda marcam o mundo laboral: entre homens e mulheres; entre jovens e trabalhadores mais experientes, trabalhadores que ainda são explorados pelas formas mais subtis e abjectas! Isto dói-me como pessoa e cidadão. Evoluiu a técnica, mas a exploração persiste! Sou uma pessoa que desde miúdo quis ser professor! E de História! Cumpri este objectivo e vivi-o plenamente até 1996! 
Pelas minhas preocupações sociais e políticas tenho sido “emprestado” à causa política e pública mais directa. Fui Director Regional da Habitação, experiência humana incrível, Presidente de Câmara da Ribeira Grande, a minha terra, e hoje administro uma empresa de serviço público directo à agricultura nos Açores – o IROA, S.A. – que é um trabalho de entusiasmo diário pelos desafios e pelas pessoas para quem trabalho: os agricultores. Sou um servidor público apaixonado, mas sei que mora em mim basicamente um professor! E disso retiro uma enorme satisfação! 

As viagens são uma parte importante da sua vida? Que viagens mais gostou de fazer e que outras sonha realizar?
Quem viaja enriquece! Sempre dei grande valor à viagem como forma de conhecimento! Não só a física, mas aquela que um livro, um documentário, filme ou conversa podem proporcionar. Na viagem está o outro: o outro homem, a outra cultura, o outro espaço e isso sempre me fascinou! A multiplicidade das geografias e das culturas. Sempre fiz por viajar, mas também gosto muito de estar! De estar nuns Açores cada vez mais belos, únicos e cativantes na natureza e na cultura. Sinto muito a minha terra! As viagens mais marcantes foram à Noruega, Roma, Holanda e África do Sul! Mas há outras que quero fazer! Tenho de ir ao Egipto, à Grécia e à Islândia, forçosamente, para homenagear o homem, como criador de cultura, e a natureza na sua plena diversidade. Não sou rico, mas sou cada vez mais rico quando regresso de uma viagem!

Que relação estabelece diariamente e actualmente com a sua família? Sente que hoje tem mais tempo para lhe disponibilizar? 
Nunca vivi longe da minha família em termos afectivos e, nesse sentido, o tempo que temos é o tempo que podemos ter, na certeza de que ele cimenta a nossa relação familiar. Não concebo a vida em caixas, tudo se mistura e em tudo podemos envolver positivamente a família por forma a todos serem de todos em termos de tempo e de presença. Temos liberdade e temos o espaço de cada um! É assim que vivo com os meus filhos, irmãos, sobrinhos e primos. Sabendo estar com qualidade! 

E os amigos que lugar têm na sua vivência diária? Relaciona-se com os seus amigos com maior frequência nos dias de hoje ou quando era mais jovem? 
O afecto humano é muito grande! Tenho amigos e conhecidos! Amigos sólidos de quem a presença diária não é precisa, mas sabe-se que o afecto “está lá”! Foi a amizade construída e duradoura. Tem-se a amizade dos conhecidos com quem passeamos na vida, uns dos outros, com gosto e respeito, colhendo o melhor de cada um: é também uma amizade bonita que cultivo e gosto. Por aqui se vê que a amizade como sucessão de encontros na vida de uma pessoa é um valor que cultivo e a quem sou grato. Nos amigos aprecio as ideias, a paixão e a tolerância. Não gosto do intriguismo, da maledicência e da ingratidão! 

Como é a sua relação com a internet? Usa-a apenas para o trabalho ou como forma de lazer também? Esta relação foi evoluindo ao longo dos tempos? 
A minha relação com a internet é funcional e prática. Não me lembro de a ter usado como forma de lazer! Gosto de muitas outras coisas do que estar à frente de um ecrã! Aliás, a era digital assusta-me um bocado pelas relações desequilibradas que pode criar entre as pessoas e os países! O totalitarismo espreita através destas formas, muito para além do previsto pelo George Orwell, no 1984 – o famoso Big Brother – e podemos prever uma “nova besta” em que a exploração, o controlo da sociedade e a desigualdade estão no som do “click”! É só ver o que já se pretende fazer na China em termos de identificação das pessoas. Por isso, acautelemo-nos todos com a robótica, informática e digitalização da actividade humana! 

De que forma se relaciona com os seus filhos e netos? Como procura acompanhar o crescimento de ambos com uma maior proximidade?
A família é algo que prezo muito! Não só a nuclear, mas também a extensa! Dou valor, porque sinto e assim fui educado, aos meus tios, sobrinhos e primos, directos e indirectos, e gosto de seguir a evolução de cada um! Nesta latitude o sentimento em relação aos meus filhos e neto é muito fundo! Se os estimarmos revivemos várias vezes! Por eles e com eles criamos futuros, abandonamos os egos e aumentamos a nossa humanidade. Nunca me senti longe dos meus filhos e agora do meu neto! Sempre os acompanhei e eles sempre me acompanharam na maior e melhor liberdade. Não gosto de pieguices, da paternidade atrofiadora, manipuladora, mas posso dizer que em cada um deles expresso o meu amor de pai e, agora, de avô da forma mais genuína e alegre.

Como caracteriza o seu modo de vestir nos dias de hoje e na época em que estudava e que começou a trabalhar, por exemplo? 
A simplicidade e o conforto mínimo foram sempre valores que cultivei no vestuário. Julgo que o excesso e a ostensividade não fazem parte da minha personalidade porque cultivo a proximidade com as pessoas. Nunca gostei de me sentir prisioneiro da roupa ou da preocupação que ela pode exigir nos meus modos e espírito. Dela nunca fiz qualquer tipo de marca pessoal. Evoluí, contudo, ao longo do tempo e aqueles que me conheceram como estudante e no início da minha carreira profissional sabem que sempre dei valor aos conselhos de tantos! Em muitas situações andava sempre fora ou ao lado da moda! 
Como caracteriza a sua alimentação actualmente? Acha que a mesma tem mudado ao longo dos tempos tendo em conta a modernização que a própria alimentação tem sofrido?
A minha alimentação insere-se dentro de um contexto de vida saudável! Devemos alimentarmos para trabalharmos bem, devemos evitar os excessos e cuidar do nosso corpo como elemento de importância da nossa mente ou espírito. Nesta base, gosto de tudo moderadamente e dou grande valor – cada vez mais – ao sabor dos alimentos e ao momento da refeição. Hoje, a panóplia de alimentos que dispomos ajuda a uma alimentação variada e equilibrada. Para mim é fundamental a alegria na refeição! A boa disposição junta e uma boa conversa aumentam a qualidade da refeição! Se tivermos isso, temos equilíbrio para os dias e energia para as mais diversas situações. A minha alimentação tem mudado na perspectiva de que tenho cada vez mais atenção àquilo que como evitando o açúcar, o sal e as quantidades perniciosas! 

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