25 de junho de 2019

Turismo - Arrepiar Caminho

Há algum tempo atrás lembro-me de ter lido algures que o turismo nos Açôres não deveria ser como o turismo algarvio, ou seja, não deveria ser um turismo de massas.
Porém, quando se fala em turismo de massas, julgo que não se pensa bem no significado da palavra massas. 
Em minha opinião, quando se fala em massas, para se definir a quantidade de pessoas, a relação espaço/quantidade deve ser tida em conta. Exemplificando, se tivermos 50.000 pessoas por mês em S. Miguel pode não ser considerado haver muita gente; todavia, as mesmas 50.000 pessoas por mês nas Flores, julgo não ser comportável naquela ilha, atendendo a que multiplica a sua população, em dez vezes mais.
Como todos sabemos, aqui, em S. Miguel, já começa a haver dificuldades no trânsito, tanto pedonal como motorizado, em lugares como as Furnas, a Lagoa do Fogo, a Caldeira Velha, a Vista do Rei, a Ribeira dos Caldeirões, a Ribeira Quente, e porventura noutros sítios que eu não tenha visto.
Ora se já se verifica uma presença humana elevada nos lugares acima citados, porquê aumentar-lhe a pressão?
Já não basta o rasto que deixa tal pressão? Querem destruir o que de melhor temos que é a paisagem?
Por outro lado, desde que começámos a ser uma “região de turismo”, como alguns muito gostam de chamar, o custo de vida subiu exponencialmente, com especial relevo para a restauração. Há poucos dias fui dar uma volta pela ilha e almocei na Povoação. Na ementa do restaurante constava chicharros fritos pelo “módico” preço de 9,00€ a dose. Estava desconsolado de um chicharrinho frito, encomendei uma dose. 
Chegado o “repasto”, o qual foi servido sem qualquer preocupação na colocação dos dedos no prato, verifico que, os sete chicharros, as duas batatas cozidas acompanhadas de uma folha de alface e uma rodela de tomate, custaram-me 9,00€. Eu acho caro, atendendo a que, antes de haver tanto “tourismo” o mesmo prato custar-me –ia por volta dos 6 ou 7 euros. Quem diz o chicharro, diz outro prato qualquer. O que custava 10 ou 12 euros, agora está por 16 ou 18 euros, para só mencionar os pratos normais. 
É evidente que, quando se viaja, normalmente não se olha muito a gastos. Porém, para os residentes, o problema não pode ser visto da mesma forma. 
Desconheço se existem margens de lucro estabelecidas na restauração. Contudo, a bota tem que dizer com a perdigota, ou seja, o preço tem que estar relacionado com a qualidade do serviço, bem como com a manufactura e apresentação do prato.
Por outras palavras, há que haver um certo controlo, especialmente naqueles lugares onde não se notou qualquer evolução para melhor, tanto no serviço como nas instalações.  
Por exemplo, quando vou almoçar às Furnas, normalmente, não vou ao Hotel Terra Nostra; só lá vou quando quero presentear alguém com um serviço de qualidade. Assim, normalmente, almoço em lugares mais condicentes com a minha carteira.
De resto, nas chamadas épocas baixas, de certa maneira, são os residentes que “aguentam” os investimentos feitos.
Lembro aqui que, há um bom par de anos, aquando da crise financeira do Reino Unido, o turismo algarvio sofreu uma grande redução. Optaram os algarvios por fazer baixas de preços no alojamento e refeições. Foram os portugueses – apesar das suas fracas possibilidades – que impediram que alguns empreendimentos turísticos fechassem as portas, esquecendo o facto de quase terem sido repudiados pelos mesmos estabelecimentos turísticos, em tempo de vacas gordas.
Acho que devemos ter cuidado com as decisões que tomamos. Sei bem que a natureza humana não poder ver “uma camisa lavada a outro”. Por isso, há que criar legislação de modo a haver harmonia. 
A propósito de harmonia, no último programa da RTP/A SEM MEIAS PALAVRAS, que debateu precisamente a actividade turística na Região, a Secretária Regional para este sector de actividade, disse que não deveríamos enveredar por um turismo massificado.
No dia em que estou escrevendo estas mal feitas linhas, ouvi na Antena 1/Açores, que tinha terminado o prazo dado ao empresário madeirense para apresentação do projecto do super hotel, a construir junto a uma praia de Água d’Alto, tendo sido feito um pedido de prorrogação de prazo.
A ser verdade tal notícia, o Governo Regional, tem a oportunidade de arrepiar caminho negando a prorrogação. Com esta atitude, o Governo Regional tem a oportunidade de corrigir o erro que, levianamente, autorizou a construção do dito hotel, provavelmente sem ouvir a opinião de personalidades ligadas ao sector. 
Não seria a primeira vez que tal acontecia num governo socialista. Relembro aqui a autêntica “borrada” concedida à ASTA – para não falar em nomes de pessoas – autorizando a construção das famigeradas galerias na Calheta de Pêro de Teive, à custa da construção do agora chamado Hotel Azor.
Não quero entrar em pormenores nesta matéria, mas o mal está feito, e ainda persiste, para mal das pessoas residentes naquela zona nobre da cidade.
De resto, se bem percebi, foi dito pala senhora Secretária Regional do Turismo que, o novo plano para o turismo na Região não contemplava hotéis de tão grandes dimensões.
Se for mesmo assim, é lógico que a autorização para a construção do hotel de 500 camas seja cancelada.
Ou estaremos, de novo, a ser enganados?
Aguardemos para ver!
P.S. Texto escrito pela antiga grafia.
        21 de Junho de 2019
 

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Categorias: Opinião

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