30 de junho de 2019

Dos Ginetes

A Nossa Festa

Mesmo se o entusiasmo já não existe como noutros tempos, este Domingo iremos mais uma vez em procissão até ao Pico das Camarinhas para assim dar cumprimento a uma promessa com mais de duzentos anos que aqui foi feita pelo povo dos Ginetes quando esta terra em 1810 foi vítima de uma violenta crise sísmica que se estendeu igualmente às freguesias vizinhas mas com maior incidência a esta terra dos Ginetes.
Recordo-me perfeitamente do tempo em que por cá reuníamos muita gente ao contrário do que sucede agora, não só aqui mas igualmente por “outras bandas” em que se as mesmas não têm uma “mãozinha generosa” das várias entidades oficiais difícil se torna apresentar um programa atractivo capaz de fazer sair as gentes do conforto de suas casas. É o que habitualmente sucede com o S. João dos Ginetes que enfrenta cada ano um “adversário poderoso” como o S. João da Vila.
Todavia no nosso caso outras razões transformaram ao longo dos tempos esta festa que na realidade deveria ser dedicada ao Divino Espírito Santo pois foi à Terceira Pessoa da Santíssima Trindade que a promessa foi feita e realizada pela primeira vez em 1811.
Habitualmente é celebrada no Domingo mais próximo de S. João, mas este ano devido a questões relacionadas com o calendário litúrgico foi por tal adiada de uma semana, para assim não perturbar também os vários Impérios do Divino Espírito Santo que se “estenderam” durante o mesmo mês.
Na realidade, como acima referi, este “Santo popular” nada tem a ver com a promessa feita na altura que a fé do nosso povo levou-o a implorar o Divino, criando assim um Império em honra da Terceira Pessoa da Santíssima Trindade a que foi dado o nome de “Império de S. João, porque voltaram todos à vida normal precisamente 1 ano depois em vésperas de 24 de Junho, data em que a Igreja comemora precisamente este Santo.
Apareceram muitas histórias ao longo destes mais de dois séculos passados, mas que a maioria das gentes de um modo geral respeitou o essencial, pois o importante agora também é que se tire “algum tempinho” e meditar que nada neste mundo está seguro.
De acordo com informações contidas no Arquivo dos Açores e na “Monografia de Ginetes” da autoria do Padre António Lopes da Luz foi a 17 de Junho de 1810 que a terra por cá tremeu, aumentando de intensidade os abalos, destruindo moradias e afectando duramente várias Igrejas como por exemplo a dos Ginetes, Várzea, Sete Cidades, Mosteiros e Candelária. Esta crise viria a terminar no final de Janeiro de 1811. Foram cerca de sete meses vividos num susto constante, o que levou o povo da nossa terra em 1811, unanimemente, à promessa de realizar todos os anos, o Império em honra do Divino Espírito Santo no dia 24 de Junho, razão porque deram o nome de Império de S. João.
As solenidades na altura constavam de Missa Solene e Sermão na Igreja Paroquial, distribuição de esmolas aos mais carenciados, compostas de pão, carne e vinho segundo determinaram os Irmãos fundadores com autorização do Bispo da diocese como era uso na altura.
Por ocasião da preparação do livro “Um Olhar de Observação Sobre os Ginetes”, da autoria do Padre António Leite, ao qual dei a minha pequena colaboração, sei que existia um livro de contas, datado de 1811, no Arquivo paroquial dos Ginetes, onde existia a descrição das receitas angariadas pelas diversas Confrarias e pela própria Paróquia,  assim como as despesas na reconstrução da nossa Igreja que ficou quase completamente destruída.
Tudo foi feito por fases até que no ano de 1821 as obras de reconstrução total da Igreja ficaram completas.
Com mais de duzentos anos passados pouco resta da “promessa original”. 
Não são os Párocos os culpados que tentam a todo o custo equilibrar a fé do povo que balança entre o Divino e o profano. Não somos únicos, pois o mesmo sucede por toda a parte.
Aos meus conterrâneos dos Ginetes este Domingo desejo umas excelentes festas, pois mesmo se nos devem levar a reflectir pela sua origem igualmente servem, sem desvirtuar as mesmas, para termos bons momentos de convívio tão necessários para fortalecer amizades e se possível encontrar velhos amigos que normalmente nesta época do ano por cá aparecem.

Print

Categorias: Opinião

Tags:

Theme picker

Revista Pub açorianissima