9 de julho de 2019

A vila museu

A antiga capital de S. Miguel constitui hoje em dia um autêntico museu vivo e percorrermos as suas ruas deparamo-nos com a história de um povo que nunca baixou os braços, face aos cataclismos que a avassalou.
Prova-o o facto de ali ser celebrada, mais uma vez, anualmente, com grande esplendor, a festa de S. João, que leva a Vila Franca do Campo milhares de pessoas, sobretudo para assistirem às vistosas e garbosas marchas cujo colorido e alegria contagiam todos quantos ali acorrem.
Torna-se obrigatória, numa visita àquela Vila, entrar na vetusta Igreja Matriz de São Miguel Arcanjo, que constitui uma jóia do património religioso dos Açores, cuja torre ostenta o sino mais antigo da ilha, oferecido pelo rei D. João III em 1554. Esta Igreja manteve o estilo arquitetónico das igrejas quatrocentistas, à semelhança da primitiva igreja, e é um sinal visível do labor e religiosidade do povo de Vila Franca do Campo.
Visitar o Convento de São Francisco ou também conhecido pelo Convento dos frades, construído no séc. XVI, tendo o primeiro sido destruído pelo terramoto de 1522, deparamo-nos com um testemunho dos primórdios do povoamento da ilha de São Miguel, tendo este espaço exercido uma notável ação educativa junto da população local. Atualmente, este convento foi totalmente recuperado e é hoje uma unidade hoteleira.
Por outro lado, vale a pena uma visita ao Convento de Santo André, no Largo Bento de Góis, fundado em 1533, que foi o primeiro mosteiro de Clarissas da ilha e está localizado exatamente no local do primeiro Convento de S. Francisco, e onde se encontra uma belíssima capela decorada com painéis de azulejos do século XVIII, retratando a vida do irmão de S. Pedro.
Outro exemplar do riquíssimo património edificado daquela Vila é o dos Paços do Concelho, hoje símbolo da graciosidade do património deixado pelas várias gerações que ali habitaram e que em 22 de outubro de 1522 viveu um dos momentos mais dramáticos da sua história. Por Alvará de 12 de dezembro de 1560 o rei concedeu a Vila Franca do Campo a imposição do vinho e da carne para a construção da “Casa da Câmara”, com torre para o relógio, tendo em vista substituir a primitiva que foi soterrada.
Como guardião de toda a Vila, ergue-se sobranceiramente a Ermida de Nossa Senhora da Paz, um templo quinhentista, anterior a 1522, que foi reconstruída em 1764 e sucessivamente melhorada e aumentada. Subir os seus degraus, constitui uma experiência de pendor religioso que muita gente prova e que promete reviver, tal é a intensidade da visita.
Atualmente, Vila Franca do Campo passou a ter um novo espaço integrando o Museu Municipal, com o núcleo do Solar Viscondes do Botelho também conhecido de “Comando”, o que veio enriquecero espólio com a Casa Botelho de Gusmão, a Olaria Museu do mestre António Batata, o Forno de Loiça de Manuel Jacinto Carvalho, a Central Hidroelétrica de Água d´ Alto e a Moagem de São José.
Passar pela Vila e não ter a oportunidade de visitar o seu Museu é perder uma excelente oportunidade para apreciar as suas riquíssimas coleções etnográficasque refletem as tradições e vivências ancestrais das gentes da primeira capital da ilha. Ao entrar no novo espaço, o visitante depara-se com uma agradável surpresa, pois entra num solar devidamente recuperado, dando-nos a sensação que recuamos ao tempo vitoriano. 
Trata-se de uma casa nobre, caracterizada pela arquitetura micaelense do início do século XIX, referente ao “ciclo da laranja” e que vale a pena transpor os seus umbrais e embevecer-se com o ambiente acolhedor que ressalta naquele solar.
Percorrendo as suas bonitas salas, os visitantes poderão observar diversos temas que definem e testemunham a cultura desta comunidade, tais como, a Loiça da Vila, os Ofícios Tradicionais, a Arte Baleeira, a Religião e Devoção, a produção de Violas da Terra, Engenhos Hidráulicos percursores no desenvolvimento da ilha, Achados Arqueológicos, arquitetura referente ao “Ciclo da Laranja”, entre outras.
De acordo com Gaspar Frutuoso, “em uma só triste noite foram acabadas muitas vidas e ficou tudo tão coberto, que nem nobres casas, nem altos edifícios, nem sumptuosos templos, nem nobres e vulgares pessoas pela manhã apareceram, ficando tudo raso e chão, sem sinal nem mostra onde vila estivesse.”
Apesar de tudo isto, Vila Franca do Campo soergueu-se e quem a visita pode apreciar uma terra que sabe preservar e cuidar do património local que os diferencia dos demais. Não elenquei todos os monumentos e vivências desta localidade que muito bem poderia ter o título de cidade, dado a sua monumentalidade e a mentalidade urbana das suas gentes, mas fica para uma posterior oportunidade.
 

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Categorias: Opinião

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