Rotas gastronómicas (3)

Para além do desenvolvimento da economia local o turismo tem também “um sentido cultural que nos torna mais tolerantes”

Desta vez foi na Rua António Joaquim Nunes da Silva que continuamos o nosso percurso pelos espaços dedicados à restauração e à confecção de refeições leves que se encontram em funcionamento no centro histórico de Ponta Delgada, de modo a percebermos de que forma se tem manifestado o turismo nos negócios dos empresários que escolheram abrir portas nos Açores, mais em concreto na ilha de São Miguel.
Neste sentido, passando pela Tasquinha Vieira, onde para além do visual moderno e acolhedor salta também à vista o selo “Boa cama, boa mesa” atribuído pelo jornal Expresso, começámos por falar com o proprietário Joel Vieira, que nos contou sobre o gosto que tinha em “fazer algo diferente” pela restauração até então existente em Ponta Delgada.
Apesar de não se considerar “um prodígio”, para o chef era evidente o potencial que havia ainda por explorar na ilha, explicando que por fazer diferente deve entender-se o “colocar as nossas vivências num prato e ter a liberdade de brincar com o que gostamos, seja chicharros com melancia ou maçarocas das Furnas”, brincadeiras estas que são feitas à vista de todos os clientes que por ali passam, graças à visão directa para a cozinha.
“Tinha o intuito de fazer algo com personalidade, que fosse uma extensão das coisas de que gosto e da forma como gosto de as fazer. A cozinha aberta é uma coisa de que gosto e é uma maneira de ser super honesto com o cliente. Não há trunfos na manga, as pessoas vêem como é que as coisas são feitas e logo aí há uma ligação diferente com o cliente, na minha opinião”, conta.
Relembrando que começaram num dia de pleno mau tempo, “em plena época baixa e num dia em que a maior parte dos restaurantes nem abriu portas”, Joel Vieira conta que passam vários tipos de clientes pela sua “tasca”, desde os “locais que gostam de experimentar coisas novas” aos turistas.
No que diz respeito ao cliente local, refere que estas visitas devem-se, na sua opinião, ao facto de estas serem pessoas que “querem passar por esta experiência ou por estarem descontraídos uma vez que este é um espaço mais pequeno”.
“Por outro lado”, diz, “recebemos o turista que acha o espaço engraçado, suponho eu. Mas só trabalhamos à noite e só por aí já apanhámos clientes que vêm cá sem pressa, para desfrutar da refeição e, talvez, beber um copo de vinho”, independentemente de serem açorianos ou não.
Quanto à possibilidade de os locais se sentirem a mais perante o turismo, Joel Vieira salienta que esta é uma questão com a qual a população deve aprender a lidar o mais rapidamente possível: “As pessoas, quer queiram quer não, têm que aprender a lidar com o turismo que é cada vez mais uma fonte não apenas de receita mas de muitas outras coisas boas”.
Para o empresário, para além do desenvolvimento da economia local, o turismo é também uma forma de proporcionar “um sentido cultural que traz uma perspectiva diferente das coisas, uma forma de tornar as pessoas mais respeitadoras, permissivas e mais tolerantes em determinadas coisas, uma vez que por estarmos num meio pequeno podemos acabar por ser menos tolerantes ou mais conservadores”.
Assim,adianta que também por conta do turismo conseguiu impulsionar mais rapidamente o conceito em que acredita, algo que não aconteceria tão rapidamente, no seu entender, se dependesse apenas dos locais: “Efectivamente os turistas têm um poder de compra maior, e eu compreendo isso porque nós não somos baratos, quer pelo tipo de produto que usamos quer pelo serviço que temos”.
Porém, e relembrando os “dias terríveis que existiram nos primeiros três meses de funcionamento”, Joel Vieira adianta que os empresários devem estar “atentos e perceber que as pequenas coisas fazem a diferença”.
Para além disso, é também importante, indica perceber que caberá aos empresários “reinventar a nossa postura e que isso não é sinónimo de fracasso. É fundamental sermos plásticos, no sentido de sermos flexíveis porque tudo está em constante mutação e há muitos tipos de clientes diferentes com os quais temos que saber lidar, tanto ao nível das expectativas como ao nível da postura deles”.
Entre os ideais praticados na Tasquinha Vieira, está uma política de zero desperdício praticada com vista na sustentabilidade do restaurante, do fornecedor e do meio ambiente.
“Hoje em dia fala-se muito no zero desperdício e esta é muito a nossa linha por uma questão de sustentabilidade, não só para a nossa própria sustentabilidade, porque fazemos aproveitamento de cortes que à partida não teriam tanto valor, ou carnes, peixes e até legumes que não teriam tanto valor, mas também por uma questão de sustentabilidade do nosso fornecedor”, diz o chef, salientando que assim é criado valor “numa coisa que, à partida, o fornecedor teria dificuldade em vender ou que não venderia muito”.
Em suma, quer para o turista ou para o local, o proprietário da Tasquinha Vieira salienta que ali se encontra um “ambiente descontraído que não deve ser confundido com desleixo”, onde é diariamente aceite o desafio de surpreender o cliente.
“Acho que é mais difícil surpreender com coisas que as pessoas já conhecem, como um chicharro do que com um peixe mais exótico, mas o desafio acaba por ser esse, estabelecer uma ponte com as pessoas e depois brincar um pouco com o que já conhecem, acabando por apresentar um tártaro de chicharro, ou um sashimi de chicharro, onde  apesar de haver uma ponte, a pessoa é surpreendida pela temperatura, pela textura ou pelo tempero”, explica.

Parcerias com agências de viagem
enchem as salas dos restaurantes
A funcionar há cinco anos, na Rua António Joaquim Nunes da Silva, está o Regresso à Conversa, um projecto que nasceu há cerca de cinco anos e que resulta hoje num “negócio quase familiar e onde todos se conhecem uns aos outros”, gerido por Carlos Botelho.
Neste espaço dedicado à restauração e ao catering, o forte são as horas de almoço “diferentes e onde são servidas refeições à base de comida gourmet” onde aparecem tanto locais como turistas, tendo em conta que este é um estabelecimento que mantém parcerias com agências de viagens que, por vezes, enchem a sala apenas com turistas.
Para além disso, refere Carlos Botelho, o restaurante que gere tenta também suprimir algumas lacunas que existem, nomeadamente no que diz respeito a refeições vegetarianas ou adequadas para celíacos ou intolerantes à lactose, adiantando que “ainda antes de chegarem a São Miguel já há pessoas que nos contactam a pedir informações”.
Contudo, com cinco anos de funcionamento, considera ainda que a empresa é “nova no mercado” e que, após um início complicado, a melhor estratégia de vendas ou de publicidade passa simplesmente por manter a comunicação com as pessoas e por ir “ao encontro daquilo que as pessoas procuram em vez de ambicionarmos por uma casa cheia”.
“O início foi mais complicado, como tudo na vida. As pessoas começaram por vir cá mas depois a maior publicidade que foi feita da nossa parte foi ao prestar um bom serviço às pessoas que depois transmitiram a outras o que viam e o que experimentavam cá a pessoas conhecidas”, conta.
Neste sentido, esclarece que o espaço apenas serve jantares nas noites de Sexta-feira e Sábado, uma vez que o intuito dos empresários passa, neste momento, por “não aumentar o número de pessoal” e por “fazer o esforço necessário para dar outra força ao restaurante a nível económico”, apostando por isso, como já foi referido, nas horas de almoço.
    
Uma nova aposta no centro histórico
Apesar de aberto há apenas dois meses, na Rua João Moreira funciona o Teatro 17, espaço gerido por Laurent Couto e a sua mulher, Lúcia Rego, onde apostam principalmente no conceito do prato do dia a preços acessíveis a par de uma ementa elaborada que está sempre disponível, atraindo assim locais e turistas em simultâneo.
Este novo espaço situado no centro histórico de Ponta Delgada, com um visual moderno e acolhedor em simultâneo, não é, no entanto o primeiro projecto de restauração levado a cabo pelo casal, uma vez que já estabeleceram outros restaurantes em parques industriais da ilha de São Miguel, nomeadamente nos Valados e no Azores Park.
Nesses antigos projectos, diz Laurent Couto, era servida essencialmente “comida de panela” e que pelos preços acessíveis cativava apenas os locais que trabalhavam ali perto, sendo esta uma oportunidade para abraçar outros tipos de culinária mais sofisticados e “completamente diferentes”.
Como atractivo principal, os empresários apostaram “bastante no peixe, já que temos peixe fresco todos os dias”, servindo assim para atrair locais e turistas interessados nesta iguaria.
No entanto, o principal objectivo do empresário seria, num primeiro momento, incluir também um novo elemento no menu, nomeadamente a cozinha francesa: “Inicialmente quisemos implementar um registo diferente com comida francesa mas as pessoas experimentaram e pareceram não aceitar tão bem, por isso decidimos mudar completamente a ementa e decidimos apostar mesmo no peixe fresco”.
De acordo com o empresário, a falta de aceitação em relação à comida francesa deve-se, na sua opinião, ao facto de “as pessoas não estarem habituadas a este tipo de comida. Vêm, experimentam mas fica por aí e para voltarem cá é mais complicado, até porque este é um tipo de comida onde é preciso puxar mais pelo preço”, explica Laurent Couto.
Por esse motivo, conta, para atrair mais clientes os empresários optaram por “baixar um pouco o custo” dos produtos escolhidos de forma a aproximar os preços praticados no Teatro 17 aos que se encontram usualmente na baixa da cidade.
Assim, feitas estas alterações, salienta que é o cliente local que aparece com maior frequência no espaço na hora de almoço, enquanto ao jantar é o turista que enche a sala. No entanto, considera que esta é uma realidade que poderá vir a alterar-se “uma vez que a casa ainda não é muito conhecida e tudo leva o seu tempo”.
Aos fins-de-semana, relata, são apenas servidos jantares aos Sábados, onde aparecem também mais turistas do que locais. Por esse motivo considera que “apesar de ter apenas dois meses de funcionamento e não conseguir fazer um balanço, considero que o turismo é essencial (…) e até temos tido uma boa aceitação, julgando pelos comentários positivos que são deixados no TripAdvisor”, conclui.

 

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