14 de julho de 2019

Alargamento do “regional” de futebol: só para as calendas gregas

PARA ESQUECER - Calendas gregas significa “adiar a solução de alguma coisa para um tempo que nunca há de vir”. É o que irá acontecer com o propalado aumento do Campeonato de Futebol dos Açores de 10 para 12 equipas.
O argumento de quem paga e por isso de quem manda, é o perigo de um maior esvaziamento dos campeonatos de ilha. A Direcção Regional do Desporto (DRD) apresenta uma justificação que colhe a opinião das três Associações. 
O que os três presidentes disseram em entrevistas que este jornal publicou sobre o tema vai no sentido de que o aumento é para esquecer.

MODELO ESGOTADO - Os três organismos que tutelam o futebol açoriano são de opinião estar esgotado o modelo de 10 clubes em duas fases. Uma opinião partilhada por muitos agentes, que, curiosamente ou não, não apresentam alternativas.
O modelo em vigor dura há 6 anos. Se adicionarmos os 18 anos de aplicação na extinta série Açores da 3.ª divisão nacional, são 24 anos!
Um exemplo de louvar e que sempre permaneceu foi o de não retirarem os pontos que as equipas obtiveram nas primeiras fases ou fases regulares.

NÃO INVENTEM - Qual o modelo melhor? Talvez daqui a um ano apareça...
Não há muito para inventar e não há muita solução para encontrar. 
As duas fases já não merecem consenso. Contudo, um modelo com 10 clubes é a melhor solução para enquadrar um período de competição de cerca de 8 meses, que, no entanto, acaba por serem 7 meses face às paragens de duas semanas pelo Natal e Ano Novo e na transição das primeira para a segunda fase.
Não inventem “play offs” como acontecem nos campeonatos de modalidades de pavilhão após as fases regulares, porque o critério de regularidade subjacente a um campeonato deixa de existir. 
Acaba por não servir para nada andarem as equipas a fazerem o melhor em tantos jogos, para um clube 3.º, 4.º ou 5.º classificado poder ser campeão em 4 jogos. 
Cria expectativa, cria entusiasmo, mas fere a verdade desportiva.
O caso do Praiense no Campeonato de Portugal é paradigmático. Foram, na época passada, 34 jogos a revelar superioridade na série com 24 vitórias, 5 empates, 5 derrotas, 57 golos marcados e 21 sofridos e ficou pelo caminho nos jogos a eliminar e por uma questão de golos fora. Quem ficou em 2.º lugar acabou por subir de divisão.

NÃO DESPERDICEM O QUE CUSTOU A CONQUISTAR - O que a Associação de Ponta Delgada defende é partilhada por um reduzido número de clubes, mas não é aliciante como é difícil de implementar face à forma como os clubes estão estruturados. 
A época começava com os campeonatos de ilha. Apontam entre Setembro e Dezembro. Partindo do pressuposto que começava no primeiro dia de Setembro e terminava antes do Natal, são 3 meses e meio de prova. Na época passada o campeonato de São Miguel durou 5 meses (de 8 de Dezembro a 18 de Abril) com as duas semanas de paragem pela quadra natalícia. 
Será possível? Duvido.
Para não ser à pressa e com jogos a meio da semana com custos maiores para todos, o campeonato teria começar a meados de Agosto. Quase impossível porque muitos clubes não estão preparados para terem tudo pronto naquela altura. Não se esqueçam que não são só os seniores para os dirigentes prepararem.
As equipas concorrentes ao campeonato dos Açores seriam qualificadas dos campeonatos locais acabados de disputar. Seria estabelecida uma cota de representantes pelas Associações para perfazerem as 10 equipas, que jogariam entre Janeiro e Maio. Ou seja, seriam 5 meses para o mesmo número de jornadas do campeonato de São Miguel. A prova local seria em contra relógio, como ainda são os campeonatos de juvenis e de iniciados.
Além de ser curto o espaço temporal para a preparação de uma prova regional com uma logística complicada, o interesse desportivo seria unicamente reservado ao 1.º classificado. Não há descidas pelo modelo apresentado. As 9 equipas que regressam aos campeonatos das suas Associações começam tudo de novo na época seguinte.
As equipas de cada ilha que não ficassem qualificadas teriam de disputar as Taças de Honra e de São Miguel que não têm o mesmo entusiasmo e interesse de um campeonato. 
Outra ideia que ouvi é retrógrada. Seria retroceder ao que se organizou até à década de 80, quando os campeões de cada Associação jogavam a qualificação em 4 jogos, a exemplo do que acontece com as equipas de formação.
Não deitem fora o que muitos lutaram para conseguirem o que têm hoje, mesmo com crises financeiras. 

UMA FASE COM 10 CLUBES - Realmente os 12 clubes seriam o ideal para uma prova numa única fase. O único proveito passa pelo período de tempo de competição. Seriam 22 jogos, melhor do que os 18 se fosse numa fase com 10 clubes, mas pior do que os 26 encontros como acontece com as duas fases.
O problema do esvaziamento os campeonatos associativos acaba por não ser tanto na ilha de São Miguel, mas, sobretudo nas ilhas sob a jurisdição das Associações de Angra e da Horta. Contam-nos, mas não sei os argumentos, que o número de equipas seniores tem baixado nos últimos anos.
O modelo que se enquadra para o futebol sénior açoriano é o que foi pensado quando há 7 anos se planeou o Campeonato de Futebol dos Açores. As equipas qualificadas começavam em Setembro por disputarem as Taças de Honra e de São Miguel (no caso da AFPD) com as equipas não apuradas das respectivas Associações. Os calendários seriam estabelecidos de forma, a que no início de Janeiro pudessem começar o campeonato açoriano e os campeonatos de ilha.
Uma fase com 18 jornadas, com o mesmo critério de apuramento do campeão e dos 3 clubes a desceram. Seriam 4/5 meses, dando um total de 8/9 meses aos clubes que estarão no campeonato açoriano.

FALTA SENTIDO CRÍTICO - Como muito dificilmente haverá um aumento de equipas seniores de futebol que seja entendido por razoável no âmbito das Associações de Ponta Delgada, Angra do Heroísmo e Horta, o alargamento aprovado por 8 dos 10 clubes que disputaram o campeonato da época de 2017/2018 nunca irá acontecer.
Os clubes que em Fevereiro de 2018 depositaram nas mãos de quem lhes representa o dever de apresentarem na DRD a argumentação válida que proporcionasse o alargamento, ficaram sem reação e, de certo, decepcionados.
Mas contribuíram, e muito, para que o desfecho fosse o que já se vislumbrava. Nunca se preocuparam em pressionar as Associações para saberem o conteúdo da argumentação. Nunca se preocuparam com a demora de um ano na chegada do documento à DRD.
A maioria dos dirigentes dos clubes não tem sentido critico para os assuntos que visam a promoção do futebol. Acomodam-se às situações, reúnem muitas poucas vezes entre si, tornando-os enfraquecidos e com reduzidos argumentos reivindicativos perante o poder. 

DESINTERESSE PELO CFA - O facto de um documento demorar um ano a chegar ao destino é sintomático da forma como se olha e do desinteresse para com a principal prova do futebol destas ilhas.
Só quando o tempo de decisão encurtou é que as Associações colocaram mãos à obra. Elaboraram um documento possivelmente sem grandes argumentos para ser rejeitado rapidamente.
A DRD, através do director António Gomes, disse o que pretendia para poder validar o aumento. Que traçassem um cenário da expectativa que tinham com os resultados dessa alteração a curto/médio prazo. 
Os clubes não se podem dissociar do desenlace. Por acaso sabem do teor do texto que chegou à DRD? Por acaso sabem do teor do texto apresentado pela DRD que justificou a nega?
Ao não ter sido emitido um comunicado conjunto pela DRD e pelas Associações ou em separado é mau. Revela insegurança e deixa no ar esconderem qualquer coisa neste processo. 

PORQUE NÃO HÁ APOIOS PARA OS SENIORES DAS PROVAS DE ILHA? - A questão financeira é a principal razão para os clubes não apostarem em equipas seniores. 
Os custos são elevados com as inscrições, com a logística, com os subsídios atribuídos a atletas e com toda a envolvência que uma equipa sénior requere. 
Não é atrativo para as direcções dos clubes formarem equipas seniores e por isso a tendência é para a estagnação, apesar de na ilha de São Miguel terem ressurgido dois clubes nos dois últimos anos.
As Associações já deveriam debruçarem-se sobre a forma como devem os clubes das provas internas de seniores receberem um apoio oficial. São, afinal, as únicas a não tê-lo.
Os próprios clubes não se têm posicionado de forma a requereram atenções que nunca tiveram. 
Os seniores são o topo da pirâmide. São a continuidade à prática desportiva. Têm-se verificado muitas desistências por falta de incentivos e porque não há espaço nas poucas equipas para muitos atletas prosseguirem.
Se houvessem contratos programa com os clubes para as equipas seniores, que nunca percebi porque não são englobadas no pacote, de certo que os campeonatos de ilha teriam mais equipas.
As verbas seriam canalizadas estritamente para as inscrições, aquisição de equipamentos e de bolas. Seria um contributo interessante.
Bastava cortarem com a maioria dos torneios regionais inter-Associações dos escalões de Sub-12 até aos Sub-17 que nada de novo trás na evolução dos atletas, para já ser uma ajuda importante aos clubes.

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Categorias: Opinião

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