Isabel Silva Melo, artesã certificada

“Estudo os temas religiosos e manifestações culturais dos Açores e sonho com as peças que vou realizar”

Correio dos Açores - Acabas de receber uma Menção Honrosa na FIA - Feira Internacional de Artesanato. Qual foi a sensação? 
Isabel Silva Melo - Não queria acreditar!! Só fiquei tranquila, quando me perguntaram quem era e onde estava o ceramista Adolfo Mendonça.
 Assim pude ficar amplamente feliz, pois não era a única no Stand dos Açores a ser distinguida. Aí sim, parecia uma criança, quando ninguém via, dava os meus saltinhos de felicidade, penso que ainda não cresci tudo!! Foi uma sensação de dever cumprido, agora a próxima etapa, a responsabilidade, trabalhar mais e melhor.

Como é que uma licenciada em Artes Plásticas pela Escola Superior de Belas Artes do Porto chega a uma artesã certificada na área da cerâmica figurativa?
Estive cerca de 30 anos sem mexer em barro. E mesmo na universidade o barro era para representar tridimensionalmente, depois a peça era simplesmente destruída, ficava apenas o registo fotográfico ou era passada a gesso.
Os meus trabalhos académicos eram em pedra ou metal de grandes dimensões, talvez complexo de ser pequenita, não eram figurativos. O meu paradigma de então era a abstração.
Confesso até, sentir na altura, algo de kitsch em relação à figuração de pequena escala, e olhava do alto dos meus 20 anos de “completa sabedoria” com algum desdém. 
Não compreendia como depois do Fauvismo, de todos os ismos do início do sec XX e depois de duas guerras mundiais, era possível continuar a representar a figura humana com a candura de uma representação realista.
O mesmo se passava em relação à pintura. Por exemplo em relação ao pintor Domingos Rebelo, não gostava da sua obra, pois não percebia como após duas guerras continuava a pintar como se nada tivesse existido.
Confesso hoje ser uma fã incondicional de Domingos Rebelo, quer pela doçura dos temas que a mim me dizem muito, quer pelo ponto de vista etnográfico.
Após ser mãe de três filhas, 24 anos de árduo trabalho na recuperação de uma quintae também ter tido a sorte de aprender com as centenas de alunos que comigo senti crescer, a idade e a vida mudaram-me. 
Agora, e parafraseando as minhas próprias palavras quando questionada o que para mim era importante na vida – “Tal como a água e o pão - o Amor.”
Assim compreendo Domingos Rebelo e todos os pintores, escultores e artistas, que tiveram a necessidade de simplesmente representar o amor, ou outros sentimentos que nos fazem humanos, de forma realista.
Tal como todos eles, necessito, tenho a urgência de representar o amor e a beleza do ser humano face a todas as adversidades da natureza e da vida. 
E respondendo objetivamente à questão, no Natal de 2014 num momento mais frágil do ponto de vista financeiro, fiz presépios de Lapinha que ofereci a familiares e amigos. Para minha surpresa, todos ficaram surpreendidos com a modelação das pequenas personagens do presépio de Lapinha. Até eu fiquei!!
Em Janeiro de 2015, inscrevi-me como artesã na arte de elaborar presépios de Lapinha. Nesse ano, eu sabia que abria o espaço aéreo para as ilhas dos Açores, pelo que percebi que o fluxo de turismo iria no mínimo duplicar e resolvi, então, dedicar-me profissionalmente ao artesanato. Depois, seguiu-se o trabalho em escamas de peixe e os Registos do Senhor Santo Cristo dos Milagres
Em 2017, inscrevi-me numa formação de Cerâmica no Museu Carlos Machado, com o ceramista Delfim Manuel, onde aprendi os conceitos de cerâmica. A manipulação do barro visando a cozedura.Nunca tinha equacionado a vertente da cerâmica.
Após esta formação o meu mundo mudou. O ano de 2017, já com 51 anos de idade, foi o princípio do resto da minha vida como artista. A partir dessa formação, nunca mais parei. Sou uma artesã certificada na área da cerâmica figurativa, tendo recebido convites para participar em mais feiras e exposições.

Como tem sido a reação do público aos teus trabalhos? 
Muito recetiva, acolhedora e calorosa. Sou recorrentemente parabenizada pelos meus trabalhos, o que me deixa muito orgulhosa, mas que se traduz em desafio e responsabilidade para trabalhar mais, peças mais complexas, nomeadamente do ponto de vista técnico.
A cerâmica é um mundo, por isso, tenho a consciência que serei uma eterna aprendiza.

A comunicação social tem dado ênfase aos teus trabalhos?
Tenho tido o enorme privilégio da comunicação social ter vindo a divulgar o meu trabalho enquanto artesã e ceramista. Mas gosto de pensar que o facto de ter iniciado a minha vida como ceramista aos 51 anos de idade, seja um despertar e incentivo para todos aqueles que ainda não perseguiram ou encontraram o seu caminho.

O mercado do artesanato tem mudado ultimamente com a chegada dos turistas?
Acho que o turismo, acompanhado das medidas desenvolvidas pela CRAA, vieram alterar/dinamizar o artesanato açoriano. 
Por exemplo, neste momento, existe uma loja com apenas artesanato certificado. O que significa que já existe número suficiente de artesãos com produtos de qualidade quer dentro da vertente tradicional como contemporânea.

Que temas mais identificam a tua carreira de artista: o religioso ou o profano? 
Ambos, no entanto o religioso tem sido, e é aquele que tem mais projecção no mercado, nomeadamente por parte dos coleccionadores.

És vista como uma artista de recriação da obra de arte e não de reprodução. Concordas com esta consideração?
Não sei bem como responder sobre como me “rotulam”, mas sim, como não faço reproduções, concordo com a consideração.

O que mais te apaixona: Professora de Artes Visuais ou Artesã?
Gosto muito de ser professora. É um trabalho de muita responsabilidade, mas gratificante. Sinto que ajudo os meus alunos a crescer e a encontrar o seu próprio caminho. A paixão pelo barro é mais recente, sinto uma necessidade premente de trabalhar mais e mais. Até agora com o apoio e compreensão dos familiares, amigos, colegas e Conselho Executivo da Escola, tenho conseguido conciliar as duas.
A minha paixão pelo barro é arrebatadora, o meu sonho era poder dedicar-me exclusivamente a ela.

Qual o segredo na arte de trabalhar as escamas de peixe?
Dei uma formação este ano onde expliquei tudo, desde o mais básico aos meus truques todos que fui aprendendo sozinha. Mas o verdadeiro segredo reside em trabalhar com amor.

Os teus presépios de Lapinha têm tido muita procura?
Tenho encomendas de Lapinhas que já tentei que fossem para uma colega minha, mas azar o meu, não aceitam. O que depois é constrangedor para mim levar tanto tempo, mas não consigo trabalhar mais do que já trabalho. Pois trabalhar em barro, como referi, é a minha paixão.

As feiras por onde passas tem sido uma mais valia na divulgação da tua obra?
Sim, a feira não é apenas um espaço comercial. É, acima de tudo, uma montra, onde damos a conhecer o nosso trabalho. Por isso, para mim, as feiras são muito importantes, não só para divulgar o meu trabalho, como para conhecer e aprender com os colegas presentes e ainda para conhecer pessoalmente os apaixonados pelo artesanato, que têm histórias deliciosas  e coleções fantásticas.

A tua obra Registo Político figurará Museu da Autonomia. Qual é a sensação da artista?
Fiquei muito feliz e honrada, em vez de um saltinho infantil, se fosse mais nova era uma pirueta acrobática!!

O Registo Contemporâneo do Senhor Santo Cristo dos Milagres foi oferecido ao Presidente da República. Consideras uma obra identitária dos Açores?
Na altura foi uma questão que algumas pessoas colocaram. O Registo tradicional é simplesmente deslumbrante. Contudo, um registo não tem de ser apenas bidimensional. E temos inúmeras maquinetas a comprová-lo.
Nem tem de seguir todas as normas instituídas pela tradição para manter a sua identidade.Nesse Registo pretendi homenagear todas as mulheres que anonimamente preparam o andor do Senhor Santo Cristo dos Milagres, e todos os devotos que carinhosamente entregam flores oriundas de todo o mundo no Santuário da Esperança para a decoração do andor que irá percorrer a cidade de Ponta Delgada.
Representava o momento de devoção, de carinho e amor para com a imagem do Senhor.Por todos os motivos acima apresentados considero o Registo oferecido ao Senhor Presidente da República, uma peça identitária dos Açores.

Fala-nos do grupo Colectivo 18.
É uma estrutura destinada a dar suporte a grupos de criadores. O C18 tem por objetivo principal dignificar o artesanato português, apresentando propostas conjuntas, em espaços nobres e procurando dessa forma novos caminhos para a mostra e comercialização de artesanato tradicional e contemporâneo. Pretende ser um coletivo onde cada um trará asua individualidade, experiência e visão, sobre cada uma das temáticas escolhidas.
O Coletivo 18 surgiu no ano 2017 com a finalidade de juntar um grupo de criadores e ao longo do ano de 2018, expor em conjunto, peças pertencentes a três temas em três espaços diferentes e em três momentos distintos. No ano de 2019 fui convidada a integrar o Grupo. A última exposição deste ano irá ser realizada em Ponta Delgada, no Museu Carlos Machado em Novembro, com o tema A Arvore da vida.

De que trata o teu trabalho com o tema Lusíadas, que foi exposto no Palácio Nacional de Mafra?
Na exposição no Palácio Nacional de Mafra, no âmbito da segunda exposição de 2019 do Colectivo 18, com o tema Os Lusíadas, optei por representar o amor de Dom Pedro e Dona Inês. Fiz três peças com representação de mãos. Tentei representar a magia do toque quando as mãos de dois enamorados se encontram.

A tua actividade de pintura está relegada para segundo plano? 
Penso que depois de descobrir a plasticidade do barro, a minha pintura ficou renegada para segundo plano, onde sempre deveria ter estado.

Onde vais buscar a inspiração para as tuas obras?
Estudo e pesquiso temas religiosos, assim como as diversas manifestações culturais e religiosas do nosso arquipélago. Os livros e poemas que li, as obras de arte que tive o privilégio de fruir, a minha experiência de vida, o amor e os sonhos. Sempre os sonhos. Sonho com as peças que vou realizar. 

Como está o mercado de arte nos Açores? 
Eis um assunto que não gosto de falar. Tento sempre não estar a par do mercado da arte quer aqui na Região, quer a nível nacional. É um mundo complexo e muito difícil. Considero-o um mundo paralelo, sei que existe, mas não o quero ver. Já referi que ainda não cresci?

Qual o teu próximo projeto?
Já comecei a definir o que pretendo fazer em 2020. Mas ainda é um sonho.
Par este ano ainda tenho de dar resposta a vários eventos. De 27 Julho a 11 de Agosto vou estar presente na Feira Nacional de Artesanato de Vila do Conde. No mês Novembro, na Feira de artesanato Prenda e a exposição do Colectivo 18 no Museu Carlos Machado. Ou seja, vou ter de trabalhar 48 horas por dia.
                              
 

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