28 de julho de 2019

Linha d’água

Tiros nos pés e silos vazios

Aproxima-se o tradicional período de férias que eu próprio aproveitarei para recarregar baterias. Poderemos descansar sem que levemos preocupações no saco de praia ou na mala de viagem?
O Verão é a temporada dos grandes e devastadores incêndios florestais por obra da natureza em fúria ou de humano criminoso, como foi evidente na semana passada. É um verdadeiro pesadelo social e converte-se já num terreno fértil para o pior da política.
Tinham já “ardido cerca de 10.000 hectares de floresta”. O fogo até já estava extinto. Porém, sobravam ressentimentos e acrimónia.
Por um motivo que associo às eleições aprazadas para o próximo outubro, e como se não bastassem os relevantes prejuízos materiais e o enorme susto que perturbou e desesperou imensas famílias, um ministro desassossegado e um presidente de município mediático, envolveram-se, sem conta nem peso nem medida, num verdadeiro “bate-língua” de vizinhos desavindos. Tinham estado juntos quando decorria o rescaldo do fogo, mas silenciaram o que lhes ia na alma.
Depois, distantes um do outro e não no mesmo momento, eis que disparam, cada um de per si, os respetivos “petardos” verbais: preocupe-se com as consequências do desastre e não com a sua participação televisiva porque não é comentador; devia ter acionado o plano municipal de emergência… disse o ministro dirigindo-se ao autarca. Sentindo-se ofendido na sua dignidade, o edil retorquiria mais tarde, com tranquilidade, que o plano a que se referia o ministro só tinha sido aprovado no dia anterior pelo próprio ministério que o acusava de não ter feito uso oportuno do mesmo; depois, acutilante, que o ministro devia repetir a ofensa, olhos nos olhos, sim senhor, e em presença da população do concelho. O homem também é as suas circunstâncias que eles não salvaram. Havia antecedentes próximos. A autarquia acabara de ganhar na justiça uma causa contra o Governo que a discriminara e a privara sem fundamento dos apoios financeiros europeus cedidos ao Estado Português pela União Europeia quando de fogos anteriores.
No passado, o incidente, seria caso para um duelo de armas em punho e bala no tambor, ao nascer do Sol, apadrinhado e testemunhado por homens de negro. Mas estamos no séc. XXI, em tempo do “pós-verdade”: a realidade é a que cada um constrói depois de escolher o intérprete e esquecer os factos reais.
Antes do descrito episódio, um outro tinha ocorrido no mesmo ambiente: a comunicação social. Um Chefe do Estado Maior desconfortado refere-se às forças armadas em termos desabridos ameaçando publicamente não executar missões por insuficiência de meios. Um ministro da Defesa, empertigado, considera infelizes as palavras do Chefe de Estado Maior e aponta a porta de saída a tão alto dignitário militar que anunciara uma espécie de greve às “missões” de defesa nacional por falta de meios humanos e materiais. Fumo sem fogo!
Greve severa e sem fim é a declarada pelos sindicatos dos motoristas para meados de agosto.  Para além dos combustíveis, até poderão faltar os bens alimentares nos supermercados… O Governo prepara os remédios e, espantosamente, recomenda que o povo se previna, sugerindo o açambarcamento. No ínterim, terá de definir os serviços mínimos na ausência de acordo entre trabalhadores e empresários. Os sindicatos, porém, foram esclarecendo que os motoristas não cumprirão serviços mínimos no que respeita a operações de carga e descarga porque não usufruem remuneração específica nem profissionalmente estão preparados para os prestar. Se assim acontecer a paralisação poderá ser total. A lei da greve está desatualizada. Carece de urgente adequação à realidade que hoje a torna ineficaz. Porque permite greves por tudo e por nada e sem fim, como a prevista por causa dos “enjoos nos voos da TAP”. Depois, porque possibilita o recurso despudorado a seres humanos inocentes para obtenção de vantagens particulares como estudantes, ou a doentes hospitalizados que são lesados e castigados.
Três fragilidades em três áreas vitais para qualquer Estado que se preze de o ser: a defesa nacional, a proteção civil e a segurança do abastecimento de bens alimentares e outros vitais.
As minhas férias?! Passá-las-ei nos Açores.

 

 

 

 

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Categorias: Opinião

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