28 de julho de 2019

Dos Ginetes

Unidade de Saúde está doente

 Este é o mesmo título aqui utilizado há já alguns anos mas que como tantas vezes sucede a teimosia dos nossos eleitos tem sempre prioridade nas decisões finais sem olhar aos interesses dos mais desprotegidos que são os nossos doentes e idosos.
Infelizmente entre altos e baixos, damos voltas sem conta regressando infalivelmente ao ponto de partida, o que nos perturba pelas tristes recordações do passado que se acumulam, pois parece-nos que os responsáveis da saúde pouco ou nada se preocupam em escutar as experiências de quem trabalha no terreno, esses sim, conhecem os verdadeiros problemas e não aqueles que continuam a dirigir a partir de uma confortável cadeira no interior de um gabinete bem mobilado. Também já sou idoso e semanalmente tenho contacto com vários aqui na minha terra o que me preocupa pois vejo com algum receio o que a qualquer momento me possa suceder no que diz respeito ao bem-estar que qualquer “ser humano” tem direito. Tal como sucede em outros países, não vale a pena ser hipócrita, “nós os velhos” em muitos casos somos considerados como um estorvo. É a sensação que temos, pois passam-se histórias no domínio da saúde, como diz o nosso povo, “que nem lembram ao diabo”.
O assunto desta crónica, que fique bem claro desde já, nada tem a ver com o profissionalismo do pessoal que trabalha na Unidade de Saúde de Ginetes que sei perfeitamente disposto a fazer o seu melhor. Seguem as normas que lhes são dirigidas por quem de direito, e como diz o velho ditado popular “Soldado obediente não merece castigo”. Todavia, ocasionalmente tenho assistido a situações “muito desagradáveis” que não fazem parte de um país civilizado como o nosso pois continuamos a dar dois passos em frente e quatro à retaguarda.
Sou um “utente” normal como qualquer residente dos Ginetes, não possuo estatuto especial, digo o que penso sem me ocupar da vida pessoal das pessoas, apenas sou incapaz de me refugiar no silêncio quando assisto a injustiças, e aí sim aproveito como cidadão a liberdade de expressão que me permite dar voz a gente que sofre “acomodada” no silêncio muitas vezes com receio de represálias, uma forma “pouco ortodoxa” ainda utilizada nestes meios pequenos.
Já tenho mais de sete décadas de existência por isso conheço um pouco o peso da vida, e embora me considere um afortunado pela saúde que tenho, mesmo se não é perfeita, quando penso em muitos dos dos meus amigos de infância já não fazem parte deste mundo agradeço ao Bom Deus os anos que já vivi. Todavia não considero um favor mas sim um dever dos nossos eleitos, que em tempo de eleições cá vêm seduzir-nos, respeitar e defender os direitos que obtivemos no passado e darem-nos o que a nós pertence, para que possamos ter todos um final vivido com a maior tranquilidade.
Ainda há dias estava na Unidade de Saúde de Ginetes quando entrou uma senhora aproximadamente da minha idade que acabara de chegar de Ponta Delgada onde tinha sido submetida a uma pequena cirurgia mas que infelizmente tem problemas de “equilíbrio” e acompanhada por um familiar lá foi pedir apoio para nos dias seguintes alguém do pessoal de enfermagem a visitar para o indispensável “curativo”, como era uso por cá há alguns tempos passados. A resposta foi cruel:
“Minha senhora isso era antes, mas agora é diferente”. Pode sempre telefonar para tirar alguma dúvida mas não estamos autorizadas a ir a sua casa. Saí de imediato pois não quis ouvir mais. A infeliz senhora provavelmente com todos os problemas que a afectam encontrou mais um e foi pelos próprios meios que teve de descobrir a alternativa para se dirigir à Unidade de Saúde nos dias seguintes, sempre os mais complicados.
Como no início referi tudo o que se vai passando nesta e noutras lindas terras Açorianas nada tem a ver com os “verdadeiros profissionais da saúde” pois eles próprios são vítimas da incompetência de gente que desconhece a realidade do abandono a que estão entregues estas terras pequenas.
Ainda na passada Quarta-feira no Correio dos Açores era notícia o comunicado da Secretaria da Saúde que a partir do mês de Setembro todos os Utentes da Ilha de S. Miguel iriam ter Médico de Família. Já ouvi algo semelhante várias vezes. Vou esperar sentado para compreender como vão organizar toda esta história, pois os médicos de família que existem, parte deles, no momento estão simplesmente “superlotados”. Que me desculpem mas após ao que já assisti fico sempre desconfiado. O futuro dirá se tenho ou não razão.

 

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Categorias: Opinião

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