28 de julho de 2019

Crónica da Madeira

Carlos Fernandes e Martha Athayde: dos prestigiados bailarinos que há 33 anos fundaram na Madeira uma Escola de Bailado

Há 33 anos entusiasmei o meu caríssimo amigo Carlos Fernandes e a sua encantadora mulher Martha Athayde a fundarem, na Madeira, uma Escola de Bailado. Sempre considerei o bailado como uma expressão de arte enriquecedora. Não há dúvida que, naquela altura, a não existência de uma escola, constituía um vazio cultural que eu, com a ajuda preciosa, dos dois categorizados bailarinos, poderia preencher.
Assim aconteceu para bem da Madeira que sendo uma Região Autónoma, fazia, a par de tantas outras iniciativas, ter a sua escola de bailado. Ao tempo o Conservatório não incluía, nos seus currículos, esta disciplina.
Nos nossos planos estava para além da escola criar-se a companhia de bailado da Madeira. Estudámos, ao pormenor, as vantagens de tal iniciativa. Os resultados eram positivos e o investimento inicial rondava entre os 8 e os 10 mil contos, porque depois a Companhia autosustentava-se, com os contratos que se iriam fazer. Para iniciar, teríamos apenas de convidar 6 bailarinos profissionais, que, por sua vez, estimulariam os alunos, incentivando-os a uma aprendizagem, cada vez mais profissional. Um dos aspetos positivos seria a promoção que a Companhia faria da Madeira, deslocando-se nos diversos países.Para o êxito desta iniciativa contava com a grande experiência de dois prestigiados bailarinos, com a grande vantagem do Carlos Fernandes ter sido director de cena do Ballet Gulbenkian, durante anos, e por conseguinte ser a pessoa com os contactos necessários para a companhia entrar no mercado do bailado. Ele conhecia bem os empresários contratantes, com eles tinham ótimas relações de amizade.
Recordo que encontrei, o antigo bailarino do Royal Ballet de Londres, John Auld, professor e coreógrafo, numa das minhas viagens a Paris. Falei-lhe da ideia do Carlos e da Martha, seus amigos. De imediato, aplaudiu a iniciativa com vivo entusiasmo, oferecendo a sua colaboração. Contou-me depois, que o Mónaco tinha acabado de formar uma companhia de bailado, não era grande coisa, mas estava certo que no futuro seria um bom investimento e um excelente veículo de promoção do Principiado. Assim sucedeu: anos mais tarde vi anunciado, em grandes paragonas, em Londres, a atuação da Companhia de Bailado do Mónaco.
Foi pena que a Madeira não tenha feito a sua companhia, hoje andaria pelo mundo, já com prestígio e fama firmados.
Tudo isto vem a propósito da Escola de Bailado do Carlos Fernandes que nestes 33 anos de existência tem desenvolvido uma intensa atividade, sempre nos desígnios da qualidade com muito rigor e profissionalismo. Um percurso de prestígio que atesta da competência e experiência dos seus diretores Martha Athayde e Carlos Fernandes.
Todos os anos, por esta altura, em junho, encerram-se as atividades da escola, para o período normal de férias. Nesta longa caminhada, a Martha e o Carlos apresentaram sempre espectáculos inovadores, mesmo nos bailados conhecidos, introduziram-lhes o toque das suas experiências.
O espectáculo do encerramento do ano, no dia 30 de junho, encheu por completo o auditório de Congressos do Casino da Madeira; 600 espectadores de pé ovacionaram, durante largos minutos, a professora e coreógrafa Martha Athayde, que profundamente emocionada agradeceu, abrindo os braços, num gesto de carinho e de gratidão pelo caloroso acolhimento do público que reconhecendo o seu trabalho, prestou-lhe assim justa homenagem.
O espectáculo de domingo foi de uma beleza rara, por tudo o que foi apresentado e tudo o que aconteceu no palco: a interpretação dos bailados, o extraordinário bom gosto de guarda-roupa, adequado a cada Bailado, bem como a excelência dos cenários, com técnicas sofisticadas e a música escolhida. Foi uma sessão que testemunhou, uma vez mais, da qualidade do ensino da referida escola e ainda a preocupação de proporcionar aos alunos o conhecimento de como se constrói um espectáculo, com bom gosto, arte e um profundo sentido de estética. Um gesto de carinho que não posso deixar de referir, foi de muitos pais terem oferecido às suas filhas pequenos ramos de flores, símbolo de amor e um forte incentivo para que continuem com as suas atividades extracurriculares. Estou seguro que algumas destas crianças que já demonstram talento serão no futuro bailarinas, seguindo o exemplo de muitos outros alunos hoje integrados em algumas companhias de bailado, como profissionais.
A paixão pelo bailado levou Martha Athayde a organizar várias iniciativas, tais como: Cursos de Verão. Primeiro na Madeira depois em Lisboa. Cursos que reuniram alunos vindos de muitos países. Iniciativas sempre coroadas de êxito. Foi pena que as entidades oficiais deixassem de colaborar. Considero falta de visão das mesmas, uma vez que estes cursos de verão, além dos ensinamentos, davam a oportunidade dos alunos, de diversas nacionalidades, intercambiarem experiências, conhecimentos e técnicas e, simultaneamente, eram promotores do nosso país. Assim acontece nas regiões europeias onde anualmente se realizam Cursos de Verão de música, de bailado, de arte, literatura, etc. É a constância dos mesmos, num calendário anual, que os torna conhecidos e procurados. Felicito, a Martha e o Carlos por mais este extraordinário êxito da Escola, que tem dado um valioso contributo à cultura e, sobretudo, tem ajudado a criar, em muitos jovens novas perspectivas de vida.

 

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Categorias: Opinião

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