Associação Jovem Lagoense iniciou actividade há dois anos

“O maior flagelo de uma Associação de jovens é a falta de gente voluntária disposta a sacrificar o seu tempo para que outros o ganhem”

(Correio dos Açores) Em primeiro lugar, explique de que necessidade surgiu a criação desta associação e que objectivos tinha em vista cumprir.
(Jacinta Carreiro, presidente da AJL desde 1 de Março de 2019) A Associação Jovem Lagoense (AJL) surgiu formalmente a 18 de Maio de 2017 por iniciativa do seu fundador, e primeiro presidente, Júlio Oliveira.
Na altura, assumi com ele a vice-presidência, a seu convite, mas todo o processo de criação legal da associação, edificação e solidificação, desde o juntar dos jovens para o projecto à primeira Assembleia-Geral, digamos fundadora, tudo passou por ele.
Na época, pretendíamos instalar na Lagoa uma associação de jovens que não fosse somente um simples ajuntamento de jovens, mas sim um ajuntamento de jovens com um propósito sério, fixo e prático - neste caso a Cultura, a Educação e a área Social.

Considera que havia uma lacuna neste sentido, ou seja, que faltava uma associação de jovens no concelho?
Associações de jovens não faltavam no concelho de Lagoa - aliás, temos algumas, ainda, mas uma com o nosso objecto social como definido nos nossos Estatutos e Regulamento Interno - a Cultura, a Educação e a Solidariedade Social -, que abranja os jovens do concelho de Lagoa todo, desde o lugar da Atalhada à Ribeira Chã, não se encontrava.
Isso num concelho, relembre-se, que de há uns anos para cá tem investido seriamente na área cultural e educativa, embora ainda faltem algumas coisas e ainda se possa fazer e propor outras, sendo que nós enquanto associação também temos algumas ideias.

Como foi a vossa associação vista pela comunidade de uma forma geral? E pela autarquia?
Pela comunidade temos sido razoavelmente bem recebidos. Nunca é fácil. E já sabíamos de antemão que não iria ser fácil.
Temos apenas dois anos de actividade - somos um bebé comparados com outras associações, muitas que passam, hoje, por dificuldades tremendas.
O maior flagelo hoje para uma associação de jovens não é propriamente a falta de dinheiro, pois com pòzinhos fazemos muita magia, mas sim a falta de gente voluntária disposta a sacrificar o seu tempo e a dar do seu tempo para que outros ganhem tempo.
Somos uma associação que aposta em sectores que não agradam a todos e muitas das nossas actividades, inclusive, provocam indiferença em alguns estratos da população lagoense, mesmo quando são bem divulgadas.
Já organizámos debates, palestras, sessões de esclarecimento com pouquíssima gente presente. Mas sessões verdadeiramente educativas e construtivas, que eram, ao mesmo tempo, muitas vezes, também Cultura.
Estamos também a promover, até ao dia 25 de Agosto, a nossa primeira edição do Prémio Literário Manuel Augusto de Amaral, e posso desde já adiantar que não está a ser o sucesso que inicialmente esperávamos em termos de receptividade, tanto dos lagoenses como dos de fora, embora alguns até achem a ideia bastante interessante, principalmente na Lagoa.
Ultimamente, noto que os eventos que enchem mais a casa, curiosamente, são aqueles, ditos “culturais”, mas que não passam de engodo - chamam, mas não constroem; magnetizam ou hipnotizam, mas não fixam nada; não deixam nada em quem parte. E, em cada um dos nossos eventos, certificamo-nos que fica sempre alguma coisa em quem marca presença.
Quanto à autarquia: as relações são, desde sempre, óptimas. Com o vereador que, antes, possuía o pelouro da Juventude, Ricardo Martins Mota, colaborámos imenso, e fomos, através do ex-presidente, um contributo importante para o sucesso do Orçamento Participativo Jovem de 2018, para o qual também contribuímos com propostas de alteração e de adição ao modelo anterior, e que foram aceites.
Estivemos em escolas, fomos a instituições, com técnicos da câmara, e outros membros do Conselho Municipal de Juventude, e estivemos e estamos sempre disponíveis e abertos à colaboração. Queremos que eles nos tenham como uma associação importante e dinâmica na Lagoa.

Quantos jovens integram actualmente a associação? Considera que é um número ideal?
Actualmente a Associação Jovem Lagoense possui cerca de três dezenas de sócios.
É muito pouco. Não é ideal, de todo, mas este é um mal transversal a todas as associações de juventude: a dificuldade em chamar jovens dispostos a assumirem o trabalho voluntário, dispostos a arregaçar as mangas e a trabalhar “de graça”, por uma causa, que é a nossa, e que é nobre.
Não se trata, como alguns pensam muitas vezes, de trabalhar para o presidente ou para proveito de poucos. Ninguém ganha absolutamente nada em termos numerários e em termos efectivos com isso (nem mesmo em termos de estatuto social, como pensam!).
 Somente no aspecto afectivo é que se pode somar: ganhamos amizades, ganhamos nostalgia de momentos e muitas memórias boas. Fica, por isso, o convite para que se juntem a nós.

Trabalham tendo em conta três eixos, nomeadamente a solidariedade social, a educação e a cultura. Por que motivos escolheram estes “eixos” como linhas de actuação? São aqueles que consideram os pilares da sociedade lagoense ou aqueles que carecem de mais intervenção?
O fundador da AJL escolheu a cultura pois considerava, e considera, que a Lagoa ainda tem importantes passos a dar na área cultural, nomeadamente do ponto de vista da estimulação do pensamento crítico através da cultura.
Considera que a câmara municipal tem-se mostrado aberta a novas experiências no sector da organização de eventos como o Inspiral ou o Caloura Blues, agora o IN Lagoa, assumindo a importância do futuro Museu da Lagoa - Açores.
Mas o nosso fundador considerava, e considera, também fruto do seu olho clínico sobre o concelho, e fruto da sua experiência como autor de livros publicados, que faltavam estímulos culturais relevantes que fizessem as pessoas sair de casa para pensar, e que fizessem a Lagoa ombrear com as maiores cidades no campo das artes - seja no campo da expressão plástica, musical, literária.
Na área da educação, achou importante que os jovens contribuíssem, também em jeito de gratidão, para aquilo que de melhor eles tiveram na sua vida: a educação, que molda os jovens e adultos do amanhã.
Educar através de jovens é uma forma nobre de contribuir para o desenvolvimento de uma sociedade, e o Júlio Oliveira pretendia uma Lagoa, através do impulso desta associação, que pense criticamente e pela sua cabeça.
Finalmente na área social, são conhecidos os vários problemas a nível concelhio e as estatísticas são públicas. No Natal, principalmente, aquando da nossa campanha solidária (e esta associação, em dois anos, já ajudou 12 famílias carenciadas com 12 cabazes alimentares e brinquedos) notamos muito o pulsar das carências.
Alguns até nos perguntam se aquilo lhes “está mesmo a acontecer”, o que é verdadeiramente sintomático da situação em que vivemos. Só quem está no terreno, em contacto, é que sabe.

Têm tido o destaque que esperavam?
Sim, a comunicação social tem-nos dado o destaque esperado para a nossa dimensão, o nosso mérito e o nosso trabalho.
Em termos de entidades, não estamos cá para receber diplomas de mérito, estamos aqui para trabalhar. Aceitamos de bom gosto, é claro, o que vier, mas não pensamos em “destaque” propriamente dito, cientes do nosso trabalho e tranquilamente conscientes em relação ao nosso dever cívico.

Contam servir como inspiração para outros jovens de outros concelhos?
Sim, isso seria verdadeiramente importante e seria um sinal de que estamos num bom caminho.

Enquanto associação, o que acham da Lagoa que se está hoje a construir? Consideram que têm sido dados os passos certos para a Lagoa que idealizam?
A Lagoa está na rota do crescimento e do desenvolvimento económicos, como é sabido, e está, desde o tempo de Luís Alberto Meireles Martins Mota, antigo presidente de câmara, a crescer com o trabalho dos lagoenses que todos os dias se levantam, como nós que somos apenas jovens, e que “arregaçam as mangas”, sujam as mãos “na terra”, fazendo dela a sua grande “casa”.
Basta olhar para as periferias e achámos nelas, hoje, a construção de um Hospital internacional, por exemplo.
Achamos que o concelho da Lagoa em si precisa de mais cultura além da que nos tem sido amplamente disponibilizada e de um enfoque maior nas áreas da educação, combatendo-se, por exemplo, o abandono precoce da escola, do associativismo e da juventude, carecendo também de um enfoque maior na área da proximidade, cidadania, e relações de transparência entre os cidadãos e a edilidade, bem como entre os cidadãos e as respectivas juntas de freguesia do concelho.
E para todas essas áreas temos propostas concretas, enquanto associação de juventude mas ainda não as apresentámos. Um dia.
Contudo, realço o trabalho de cooperação e de proximidade e amizade institucionais que devem sempre existir, e que existiram sempre, entre a Associação Jovem Lagoense e a Câmara Municipal.

O que pode ser avançado sobre a Plataforma Cívica Pensar a Lagoa?
A Associação Jovem Lagoense em nada tem a ver com a Plataforma Cívica Pensar a Lagoa. Falarei, então, enquanto membro integrante do Grupo de Contacto da Plataforma: a mesma foi criada também pelo Júlio Oliveira, com o simples objectivo de  reflectir em reunião, de pensar a Lagoa e apresentar propostas concretas para o desenvolvimento e crescimento sustentados do concelho da Lagoa nas suas mais variadas vertentes.
Contudo, de momento, estamos num processo de reestruturação interna, e não sabemos ao certo se o projecto avançará como queremos.

Actualmente a AJL têm em cima da mesa três iniciativas diferentes. Contem-me um pouco sobre cada uma delas e expliquem de que forma contribuem para a cidade.
Sim, temos em vista a comemoração do Dia Internacional da Juventude, a 12 de Agosto próximo; o prémio literário Manuel Augusto de Amaral, a decorrer até 25 de Agosto próximo e o I Colóquio “A História da Lagoa”, a 2 de Setembro próximo.
Relativamente à actividade do dia 12, a Associação Jovem Lagoense – AJL – vai assinalar, a partir das 11h00, no Dia Internacional da Juventude, uma actividade no Complexo Municipal de Piscinas da Lagoa, em Nossa Senhora do Rosário. Esta consiste, em primeiro lugar, numa palestra ministrada pela enfermeira Graça Araújo, convidada, acerca d’ Os Cuidados a ter com o Sol. À mesma assistirão, prevêem-se, mais de 80 crianças oriundas de várias instituições lagoenses.
No que concerne ao Prémio Literário, foi instituído por nós, na modalidade de poesia, um prémio literário, o Prémio Literário Manuel Augusto de Amaral, em homenagem a este poeta lagoense, cujo prémio para a obra poética vencedora é a publicação, sem custos para o autor, do livro por parte da Câmara Municipal de Lagoa.
Relativamente ao I Colóquio “A História da Lagoa” este contará com um amplo leque de comunicações e de convidados com provas dadas nas suas respectivas áreas.
Assim, o mesmo decorrerá no Cine-Teatro Lagoense Francisco D’ Amaral Almeida, no dia 2 de Setembro, entre as 09h30 e as 16h00, sendo que a Cerimónia de Abertura, às 09h30, contará com uma intervenção minha e outra da presidente da Câmara Municipal de Lagoa.

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