Gerações - Gilberto Vieira

“No meu tempo remendava-se a roupa que se ia rompendo e hoje compra-se roupa rota”

Quando e onde nasceu?
Eu nasci no dia 11 de Outubro de 1959, a 4 km do hospital de Angra do Heroísmo, ou seja, nasci em casa, como quase todas as crianças desse tempo, na freguesia de São Mateus da Calheta.

Conte-nos um pouco o que foi a sua infância e juventude?
A minha infância foi repartida entre a construção, muitas vezes solitária, de um mundo lúdico em que aproveitava o ambiente que me rodeava para moldar brinquedos e brincadeiras em que a imaginação imperava, e a ajuda à família nos afazeres da quinta. Recordo, com alguma pena, que apesar de viver ao lado de um campo de futebol e a poucos metros do mar, não me era permitido usufruir nem de um nem de outro, com o argumento de serem potencialmente perigosas as actividades aí praticadas. Talvez por isso, não cheguei a ser um Cristiano Ronaldo! Mas no que ao mar diz respeito, tenho-me vingado, sendo frequentador assíduo, embora por duas ou três dezenas de minutos por dia, todo o ano, das magníficas águas do Negrito.
No que respeita à juventude resume-se a trabalhar e estudar em simultâneo, à noite. Ao mesmo tempo, comecei a colaborar com instituições da comunidade, por entender que o contributo de todos é essencial em muitos aspectos do bem-estar comum, princípio que cultivo até hoje, nomeadamente no movimento associativo, de que sou membro e sócio fundador de algumas instituições.

Que tradições/costumes da nossa terra recorda deste tempo e que hoje já não se celebrem da mesma maneira, ou de todo?
 Lembro-me bem de que os poucos momentos festivos que tínhamos ao longo do ano eram muito esperados e apreciados, como pontos de descompressão de uma vida cíclica de trabalho. Era assim com as festas do Espírito Santo, com as festas de freguesia, com um eventual casamento, com as matanças, com o Natal, que mesmo pobrezinho que fosse irradiava magia, com os três dias de carnaval ou simplesmente com o anual Pão-por-Deus, com a Páscoa ou com a missa dominical, que quebrava a rotina de uma semana de trabalho e proporcionava algum merecido descanso.

Comparando com a geração dos dias de hoje, na sua opinião que diferenças existem em relação à geração em que nasceu?
A diferença maior e a mais importante é o acesso à educação. No meu tempo de jovem não chegava ao número de dedos de uma mão a quantidade de estudantes que havia numa freguesia, isto após a conclusão da quarta classe em que, mesmo assim, muitos ficaram pelo caminho. Estudar no liceu era sobretudo para filhos de pais com algumas posses – para não dizer gente rica –, e no caso da frequência do ensino superior que era apenas ministrado no continente, era mesmo para muito poucos. E note-se que no seio da mesma família havia rapazes que prosseguiam estudos e as irmãs nem por isso.
Com a escolaridade obrigatória alargada dos quatro anos de então para os actuais doze, surge outra diferença fundamental – a entrada no mundo do trabalho. Na minha geração era normal começar a trabalhar muito cedo, não apenas ajudando a família nas respectivas actividades, como iniciar uma carreira profissional remunerada, quer fosse na actividade agrícola e piscatória quer fosse no comércio ou como paquete, por exemplo. Hoje a entrada no mercado de trabalho inicia-se, geralmente, após a conclusão do ensino secundário ou mesmo superior.
Outras diferenças óbvias prendem-se, por exemplo, com o acesso à informação ou com os ‘gadgets’ – os brinquedos dos nossos dias, em diametral oposição aos do nosso tempo de meninice, a maior parte improvisados por nós próprios.

Que evoluções e alterações tem notado no mundo de trabalho desde que começou a trabalhar até àquilo que é hoje a sua realidade profissional? Como foi feito o seu percurso profissional.
Creio que na questão anterior já respondi à primeira parte desta pergunta. E hoje temos realidades socioeconómicas bem distintas das de há meio século, com novos tipos de trabalho, de que as novas tecnologias e o turismo são bons exemplos.
No meu caso concreto, para além de ter começado em criança a ajudar o meu pai nos trabalhos da quinta, iniciei a minha actividade profissional já ligada ao imberbe turismo que tínhamos, aos 13 anos, como paquete do Hotel de Angra. Posteriormente fui promovido a recepcionista da mesma unidade hoteleira, posto que assumi até me mudar, aos 15 anos, para a Agência de Viagens Ornelas, no seu balcão de Angra do Heroísmo, do qual fui responsável. Ao mesmo tempo, estudava à noite. Da conjugação de experiências com turistas nesses dois trabalhos, tive a noção de que havia um nicho de mercado ansioso por conhecer a autenticidade das vivências culturais, etnográficas e gastronómicas dos locais que visitavam. Ora, essa oferta era inexistente nos Açores. Resumidamente, foi assim que nasceu a Quinta do Martelo, uma antiga propriedade de família, que recuperei e transformei num centro interpretativo, etnográfico e gastronómico açoriano.

As viagens são uma parte importante da sua vida. Que viagens mais gostou de fazer e que outras sonha realizar?
Sem dúvida. Preocupei-me em conhecer os Açores e tive a felicidade de viajar muito, dentro do arquipélago e para diversos destinos do mundo, por causa da minha actividade profissional ligada às viagens. E, curiosamente, a primeira, para o exterior, foi para os Estados Unidos, onde tive a oportunidade de conhecer o outro lado da vida dos emigrantes com quem lidava na agência de viagens, muitos deles no processo de partida para uma terra desconhecida, ao encontro de um mundo simultaneamente promissor e assustador. Recordo que a segunda foi ao Amazonas, onde percebi a importância da natureza para fruição dos locais e atraccão de turistas interessados. E tantas outras. Mas no final, sem qualquer tipo de “bairrismo”, não tenho dúvidas em afirmar que, pelo menos em turismo de natureza e sossego, os Açores são dos melhores destinos do mundo.

Os amigos que lugar têm na sua vivência diária? Relaciona-se com os seus amigos com maior frequência nos dias de hoje ou quando era mais jovem?
Tenho a felicidade de ter muitos amigos, mas confesso que não consigo ter o tempo disponível para o convívio que todos eles merecem. E foi assim praticamente ao longo da vida, deixei-me absorver pelo trabalho e tenho pena, mas não aprendo!

Como é a sua relação com a internet? Usa-a apenas para o trabalho ou como forma de lazer também?
Uso-a essencialmente como ferramenta de trabalho, mas também, de vez em quando, como forma de contacto descontraído com a realidade que nos rodeia.

Como caracteriza o modo de vestir nos dias de hoje e na época em que estudava e que começou a trabalhar, por exemplo?
Interessante! No meu tempo, remendava-se a roupa que se ia rompendo; hoje compra-se roupa já rota, por que é moda. Mas não se deduza que sou contra isso – cada geração procura maneiras de se afirmar em relação às anteriores e isso, no fundo, é saudável. Agora, se me pergunta se seria capaz de usar roupa rota, deliberadamente ou não, isso não. O mesmo se aplica a tatuagens e piercings – tenho pavor de agulhas! Mas até acho que um e outro ‘adereço’ ficam bem, em alguns casos, nos nossos jovens.

Como caracteriza a sua alimentação actualmente? Acha que a mesma tem mudado ao longo dos tempos tendo em conta a modernização que a própria alimentação tem sofrido?
Um dos meus problemas é não ter tempo para comer a tempo e horas. De resto, adapto-me bem ao que me põem na mesa, e muitas vezes uma sopa e uma peça de fruta resolvem o problema. Mas sim, continuo a ser paladino da comida tradicional da Terceira e dos Açores. E temos uma culinária tão rica, em qualidade e sabor.      

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