30 de julho de 2019

Um sonho tornado já realidade

 Tudo começou na altura em que o primeiro Ministro da República decidiu em segredo mudar-se para a ilha Terceira e se ausentou repentinamente de São Miguel, carregando os seus pertences numa lancha de desembarque da Marinha. Ao chegar ao Palácio da Conceição nesse dia fui informado que as instalações até então ocupadas pelo Gabinete do “ representante especial da soberania da República”, como ao tempo dizia a Constituição, estavam vazias… Fui logo vistoriá-las, na companhia de alguns colaboradores.
Na grande sala onde o próprio MR trabalhava, atravancada com uns cadeirões esverdeados, herança dos antigos governadores civis, havia duas pequenas portas, tapadas por reposteiros, por onde se acedia às tribunas do coro da igreja anexa ao Palácio. E no coro lá estava o bonito órgão de tubos, em modelo de armário, que eu bem conhecia e até ajudara a tocar, dando ao fole, quando era menino, por altura das novenas de Nossa Senhora do Carmo. Inactivo por muitos anos, praticamente não funcionava.
Já não me lembro como surgiu o nome de Dinarte Machado como sendo pessoa capaz de restaurar o dito órgão. O certo é que o trabalho lhe foi confiado e em pouco tempo ficou pronto. O templo tornou a encher-se com os sons do antigo instrumento.
Dinarte Machado foi depois, com uma bolsa de estudos da Secretaria Regional do Trabalho, especializar-se com os melhores organeiros portugueses e esteve também em Espanha aperfeiçoando-se neste seu novo ofício. Graças à sua habilidade e entusiasmo foi possível lançar um projecto ambicioso de restaurar o valioso património organístico existente na nossa Região Autónoma, o que se tem vindo a fazer ao longo dos anos e ainda não se chegou ao fim, tão grande se revelou a tarefa a realizar.
De pouco, porém, valeria arranjar os numerosos órgãos de tubos existentes nas igrejas açorianas, alguns dos quais já quase reduzidos a destroços, mas ainda assim recuperados, fruto da sabedoria e paciência do nosso novo organeiro, se não houvesse quem soubesse tocar neles. O Conservatório Regional foi por isso desafiado a preparar futuros organistas, com credenciais, para substituir alguns curiosos, cheios de boa vontade, que tentavam debalde extrair dos órgãos de tubos toda a beleza musical que neles se encerra.
Ana Paula Andrade estava então a estudar piano em Lisboa e aceitou fazer também o curso de órgão. Quando voltou para Ponta Delgada e assumiu funções docentes foi logo aberto idêntico curso e não têm desde então faltado candidatos a tão sublime arte. Juntou-se-lhe depois Christiana Spadaro e mais recentemente Isabel Albergaria, esta já antiga aluna do Conservatório e nele iniciada em tal matéria.
A escola de órgão de tubos existente no nosso Conservatório tem vindo a afirmar-se como de alto valor. Ana Paula Andrade é a titular do Órgão Histórico da Matriz de São Sebastião. Isabel Albergaria, titular do Órgão Histórico da Igreja de São José, em Ponta Delgada, tem participado regularmente nos concertos dos seis órgãos da Basílica de Mafra, por sinal restaurados também por Dinarte Machado, vencedor do concurso correspondente e, no final, de um prémio europeu, em reconhecimento do valor cultural de tal empreendimento.
Sucedem-se os concertos das ilustres professoras de órgão do nosso Conservatório pelas igrejas açorianas com instrumentos já restaurados. Mas o mais importante é comprovar que os alunos também triunfam no domínio da difícil arte de fazer música em instrumentos tão complexos e exigentes.
Há pouco mais de um mês, pude assistir às provas finais de uma aluna, que vai continuar a estudar órgão numa escola superior em Lisboa. Já a tinha ouvido em São José, substituindo a organista titular em alguma ausência ou impedimento. Na sua prova académica, sentada ao novo órgão com pedaleira adquirido para o Conservatório a benefício de uma operação mobilizando mecenatos diversos, Joana Galvão mostrou as suas capacidades, brilhando a grande altura.
Na semana passada, foi a vez de o jovem Gonçalo Gusmão, aluno da Professora Christiana Spadaro, fazer a sua despedida do Conservatório com um verdadeiro concerto na Igreja Matriz de Nossa Senhora Mãe de Deus, na Povoação. Perante numerosa assistência, que enchia o vetusto templo, que é o segundo maior, em comprimento, da ilha de São Miguel, logo atrás de São José, ficou comprovada a qualidade da preparação do organista – e a qualidade do instrumento também! Não faltou uma peça de Bach, marcada pelos desafios de execução do contraponto, para acabar de encher as medidas do público, onde havia muita gente nova.
Disse-me Antoine Sibertin-Blanc, titular do Órgão da Sé Patriarcal de Lisboa e mestre de quase todos os organistas portugueses, quando o fui cumprimentar, interrompendo o ensaio do concerto inaugural do novo órgão de tubos da Sé de Angra do Heroísmo, que cada um desses instrumentos tem características específicas, que lhes dão sonoridades peculiares, as quais o intérprete deve descobrir e potenciar. Ao longo das nossas ilhas dos Açores há pois todo um rico manancial a valorizar e que bem pode constituir atractivo para os melhores organistas virem tocar entre nós.
Para tanto, impõe-se lembrar a oportunidade de fazer construir de raiz um novo órgão de tubos, com requisitos modernos, para a Igreja do Colégio de Ponta Delgada, aqui abordada há tempos atrás, com intuitos de valorização da Cultura e também do Turismo nos Açores.

(Por convicção pessoal, o Autor
não  respeita o assim chamado
Acordo Ortográfico.)     

 

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Categorias: Opinião

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