João Carlos Melo deixou os Açores para o Ultramar e para a emigração

“Os Açores mudaram muito em meio século mas provavelmente eu voltaria a emigrar devido ao meu espírito empreendedor”

Contou-nos um pouco da sua vida nos Açores antes de ir para a tropa e depois emigrar?
Nasci na freguesia de São Roque, em Fevereiro de 1941, numa família muito grande, os Figueiras. Meus pais chamavam-se Leonardo e Sofia dos Santos de Melo. A minha mãe faleceu quando eu tinha 10 meses, era eu o seu filho único. O meu pai voltou a casar e, por conseguinte, fiquei a viver com os meus padrinhos que trabalhavam na agricultura. Depois, viemos morar para as Laranjeiras.
Estudei. Fui para a Escola Industrial tirar o Curso Comercial. Conheci a minha esposa, Donalda de Melo, numa explicação de Inglês. Creio que, no início, ela não engraçava muito comigo! O pai dela já se encontrava no Canadá e a família já tinha feito um requerimento para ir para o país vizinho. Em 1960, conseguiu, então, ir para os Estados Unidos da América. A minha esposa, na altura namorada, juntamente com a mãe e o irmão, foram depois ter com meu sogro. Apesar da mudança, ela quis continuar o namoro comigo, mesmo estando na América.

Também serviu o exército português e foi para o Ultramar.
Sim, dois anos depois, fui para a tropa. Estive em Tavira a aprender a instrução. Fiz duas recrutas na infantaria da ilha Terceira e acabei por ser convocado para o Ultramar onde estive quase 3 anos. Apesar de tudo isto, continuei a trocar cartas com a minha esposa e ela dizia que depois de regressar de Angola, casaríamos em São Miguel. Digo-lhe que foi um erro ter-se casado comigo! (risos).

Casou em São Miguel?
Casámos na sua terra natal, na Lomba do Alcaide, na Povoação. Tivemos uma belíssima lua-de-mel! Todo o dinheiro poupado na tropa foi para a lua-de-mel e a minha esposa disse-me “Não faz mal, quando chegares à América, vais recuperar esse dinheiro”! Naquela altura, ela já tinha uma ideia de me encaminhar para a vida bancária. Ela conhecia alguém que já trabalhava num banco e a vida bancária aqui estava num patamar alto.
No entanto, nos Estados Unidos era uma profissão muito comum, não era nada de especial. No entanto, eu preferia ter outra profissão. Achava que tinha outras qualidades. Eu era destemido, ambicioso, não tinha medo de nada. Nos Estados Unidos, onde existiam oportunidades fantásticas, e ainda existem, quem possuir essas qualidades e gostar de trabalhar, singra lá. Acabei por ir trabalhar para um banco, mas o meu inglês não era ainda muito bom para lidar com clientes ao balcão. Então, fui encaminhado para o Cofre Geral, também em São Francisco, na Califórnia, pois a família estava toda lá. Contudo, neste lugar consegui destacar-me logo nos primeiros 6 a 7 meses. Estava a conseguir promover-me porque trabalhava com vontade e disposição.

Com um bom açoriano, reconhecido como trabalhador…
Sim, sem sombra de dúvida. Havia um reconhecimento por parte do patrão. Houve uma operação que tive de fazer para poderem escolher entre mim e um colega meu, numa altura em houve uma greve dos carros que transportam dinheiro para as sucursais. Na ocasião, fornecíamos pelo menos 300 sucursais no norte da Califórnia. A minha distinção foi possível porque eu consegui pôr em prática qualidades de um bom líder. Subi logo de posto e encontrava-me ao mesmo patamar que o meu patrão. Neste ano, ganhei também muito conhecimento literário. O facto de não ter ido para a universidade não fez mal, pois fui tirando alguns cursos relacionados com economia e o ramo bancário, mas ganhei muita experiência e fui progredindo na carreira. Estive cerca de 12 anos como oficial de operações, depois fui gerente de uma pequena sucursal e ainda estive à frente de uma sucursal que empregava 55 pessoas.

Como é que chega à escrita?
Como se chegou à escrita? Escrevi cartas à minha esposa durante 5 anos e meio, e ainda os tenho! Tinha o gosto de escrever, fui ganhando o hábito e experiência também. Quando tinha praticamente 34 anos de carreira bancária, os bancos estavam a começar a mudar, a utilizar novas tecnologias, a reduzirem pessoal e o que tinha aprendido não dava para ser exercido na altura, portanto decidi reformar-me, isto aos 60 anos de idade. Mas até lá estive a pensar durante 9 meses sobre o assunto.

Mas ao que sei continuou a trabalhar. Porquê?
Um cliente meu, que tinha uma empresa necessitava de ajuda e veio falar comigo. Sabia que eu escrevia e poderia fazer um caso de estudo sobre a empresa dele, incutindo assim toda a minha experiência na área financeira. Ele tinha uma fábrica de fazer móveis para escritórios e lá trabalhavam 220 empregados, 180 destes operacionais e os restantes na área administrativa. Pesquisei durante duas semanas. Fiz um estudo e vi que tinha muitas camadas de gerência que não eram eficientes, ou seja, tinha muita gente a mandar. O patrão era da ilha Terceira e chamava-se José Mendes. A voz dele era como um eco na fábrica e disse-lhe: “Recua, tens três supervisores, deixa-os tomar decisões. Se não trabalharem bem, chama-os à atenção”. O estudo tinha à volta de 35 páginas, com observações e recomendações pragmáticas e lógicas. E ele após o ler, disse-me: “Estás a recomendar a medicação, porque não a vens administrar?”. Fui trabalhar com ele a tempo inteiro, como consultor de gestão, durante 1 ano e ganhei mais dinheiro ali do que enquanto estava a trabalhar no banco. Depois, devido a algumas crises que ocorreram no norte da Califórnia, optei por trabalhar a part-time ou apenas quando necessitassem da minha ajuda.
Depois, ajudei um cunhado seu, chamado Guilherme Mendonça. Também emigrou na mesma altura que eu. Abriu uma empresa de reciclagem, mas aquilo ainda não estava muito bem no que se refere à gestão pois tinha um sócio. Como o Sr. Guilherme tinha 3 filhos, aconselhei-o a incorporar mais ainda a participação deles na empresa e acabar a parceria com o sócio. Singraram-se e prova disso é que é uma das maiores empresas do norte da Califórnia, actualmente, valendo 100 milhões de dólares. Têm 6 instalações, localizadas em vários pontos daquela zona.
Na empresa do Guilherme estive uma temporada, mas acabei por me retirar. Não queria ser chefe, apesar de também ganhar bom dinheiro. No entanto, não era o dinheiro que me fazia mover.
Mais tarde, o irmão da minha esposa, Dinis Pimentel, que tinha uma empresa de limpeza, precisou da minha ajuda. A sua empresa tratava dos navios da Marinha. Tinha uma liberdade relativamente aos horários e era considerado como um advogado. Resolvi muitos casos dele e por conseguinte, escrevia muitos relatórios de cariz comercial. Ou seja, através destas funções que ia desempenhando, fui ganhando sempre o hábito da escrita. Mas tinha aquele desejo de escrever qualquer coisa.

Teve algum desafio para escrever?
Em 2000, vim cá fazer uma romaria, no rancho da Covoada. Foi uma caminhada muito humilde e espiritual. Observei como os meus companheiros, irmãos da romaria, aproveitavam esta fase quaresmal para os motivar. Durante esta temporada, aproveitei para reunir informação junto do mestre dos romeiros, Humberto Sousa. Tinha uma boa postura, equilíbrio mental, moral e espiritual.
Somos desafiados pelos nossos amigos. Se gostam daquilo que escrevo, provavelmente mais pessoas vão gostar de ler. Nem todos têm o mesmo gosto no que toca aos livros, às temáticas.

Também fez o caminho de Santiago. Conte-nos esta vivência?
Em 2008, fiz a conhecida caminhada para Santiago de Compostela. Antes disso, li e pesquisei sobre Os Caminhos de Santiago, como seria de esperar. A minha esposa ia comigo, mas depois recuou na ideia. Para este feito, convidei um antigo colega e amigo da tropa, Rogério Viegas. Crente como eu, mas não tanto praticante, fizemos a primeira caminhada do Porto para Santiago. Dois anos depois, quis realizar outra que é a maior. Três anos depois, fiz o Caminho Francês – no total são onze - … Houve na altura, um problema com o meu amigo, o sr. Rogério Viegas, na 4.ª etapa da caminhada. Infelizmente, já não podia mais do seu pé. Parámos numa das pousadas, depois fomos a uma clínica local e a médica fez os tratamentos que eram necessários. Perguntou-nos se julgávamos estar na Idade Média (rindo), visto estarmos a fazer sacrifícios daqueles. No dia a seguir, levei-o a uma central de camionagem de uma cidade para ele regressar, mas só chorava. Foi um dia chato para ele.

Mas continuou a fazer o Caminho…
Sim, continuei sozinho. Fi-lo em menos tempo do que esperava. E nessa altura, deu-me vontade de escrever algo: sobre o que estava a acontecer naquele ano, incluindo a própria caminhada. Pensei então: “Isto tem que ser dito, pelo menos para mim! Ou para a família, amigos, aqueles que me rodeiam”.
Pus-me então a escrever as memórias daquele ano, ou seja, 2011, o meu primeiro livro publicado no ano seguinte.
Sabia que tinha material para lançar um livro, mas não sabia se tinha aquela competência literária.
Deram-me referências de uma editora, mas quando lá cheguei disseram-me para escrever um romance, aconselhando-me a ver mais novelas e ler outros romances, sobretudo de Ken Follet. Comecei a ler aquilo, mas senti que estava “acima” da minha cabeça, mas como sou teimoso, não desisti. Li também outras coisas. Senti que após estudar, tinha capacidades para escrever algo mais emocionante e intrigante. Então escrevi Chasing The Dream, publicado em 2014. O livro À Procura da Diáspora é uma tradução desta obra, mas modifiquei certas coisas.

Sentiu necessidade de escrever em Português?
Nos Estados Unidos, por ano, são publicados mais de meio milhão de livros. Escrevi aquele livro e gostei das experiências no entanto, alguém sugeriu que fizesse uma tradução para português. Mas pensei logo que era um disparate pois ainda me encontrava muito recentemente no mundo literário. Tinha que ganhar mais confiança na escrita e, sobretudo, no português.
Na altura, estava a trabalhar para um quinzenário na Califórnia. Escrevia artigos e comecei a aprender melhor a língua portuguesa com o Padre José Ferreira que os corrigia. Depois aventurei-me.

Qual tem sido a recepção dos leitores portugueses, nomeadamente os açorianos, em relação ao seu livro?
Foi uma surpresa. No ano passado, falei com o vereador da Câmara Municipal de Ponta Delgada, Pedro Furtado, sobre um possível lançamento de um livro em português. Ele então encaminhou-me para o Dr. José Andrade. Abraçou logo a ideia e fez um trabalho magnífico. Devo-lhe imenso! Abriu as portas da sua casa e disse que podia contar com ele para tudo o que precisasse. O lançamento do livro correu bem e teve uma boa recepção. Encontra-se à venda na Livraria do SolMar. Depois, fui para Lisboa marcar presença na Feira do Livro, mas claro que lá encontravam-se as grandes editoras do país. Mas já estou convicto de que de estou integrado no mundo português, sobretudo nos Açores.

Vai escrever mais livros?

Certamente haverá mais, mas em português creio que será difícil. Ainda existem certas partes da minha história que não foram divulgadas.

Como vê os nossos emigrantes nos EUA?

São pessoas muito trabalhadores e com vontade de vencer. Muitos emigrantes dos Açores foram para os Estados Unidos, não para ser ricos, mas para terem impacto na economia local e em serem bons cidadãos americanos. E conseguiram e conseguem. Escrevi sobre eles, também sobre o José Mendes, entre outros, para órgãos de imprensa luso-portuguesa. Diziam que tudo o que eu escrevia ‘trazia alma e carinho’.


Vem muita vez aos Açores?
A minha esposa sempre teve o desejo de arranjar uma casa cá na ilha. Temos três filhos e sete netos. Já vieram cá por duas vezes. Mas a Donalda só tinha uma coisa em mente “Tenho que ter uma casa aqui”. Em 2005, nos últimos dias da nossa estadia, dedicou-se à procura de casa. E assim arranjámos uma casinha na Atalhada. Geralmente, venho sempre por 2 meses e meio, 3 meses. Gosto de estar cá. É uma cultura diferente.

A ilha também mudou muito desde que parti?
Mudou muito. Tenho amigos que falam mal da corrupção que se assiste em Portugal. Mas quando cá venho todos anos, vejo investimentos e melhorias bem-feitos na ilha de São Miguel e é isso que lhes digo. Se formos para os principais pontos turísticos da ilha, vemos uma melhor conservação.

Se fosse hoje, emigrava, tendo em conta a actual conjuntura económica, social e cultural que se vive nos Açores?

É difícil responder. Mas provavelmente faria isso devido ao meu espírito de empreendedorismo. Nada me mete medo. E acho que quem tiver esse mesmo espírito, devia sair. No entanto, ainda há muito para melhorar, a começar nos transportes marítimos e aéreos. Todos os anos faço uma viagem de barco e este ano não consegui, porque estava atrasado, o que foi pena.

Nélia Câmara/R.F.

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Autor: CA

Categorias: Regional

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