Renovação do relvado do estádio de São Miguel é decisão política

NOVAMENTE NA ORDEM DO DIA - A qualidade do relvado do estádio de São Miguel está mais uma vez na ordem do dia, depois de na época passada terem sido os relvados dos campos do Lajedo e das Laranjeiras a serem alvos de críticas por não estarem nas melhores condições para os treinos da equipa do Santa Clara.
A crítica surgiu com a lesão do jogador Carlos Júnior nos primeiros minutos do jogo de carácter particular com o Sport Praiense, realizado no passado domingo.
O treinador João Henriques voltou a ser corrosivo sobre a questão dos relvados que tem ao dispor, ao afirmar que o estádio de São Miguel ganhava por 3-0 ao Santa Clara, referindo-se às graves lesões nos ligamentos cruzados dos joelhos dos jogadores Thiago Santana e Anderson Carvalho, partindo do princípio que a lesão de Carlos era do mesmo grau de gravidade, o que, afinal, não veio a acontecer.

CULPA DAS LESÕES GRAVES? Responsabilizar o relvado pelas graves lesões é um argumento forte e carece de uma explicação mais profunda, até mais científica.
A opinião de especialistas para este tipo de lesão aponta que a maioria das roturas de ligamentos acontecem com os movimentos que os jogadores fazem sucessivamente durante um jogo. Não precisam de serem bruscos para existir uma lesão. Muitos rompem o ligamento cruzado por causa de um movimento individual.

PROBLEMA DE FUNDO - O relvado do estádio de São Miguel raramente tem estado nas melhores condições. Já fiz referência tratar-se de um problema de fundo. Começou aquando da construção, em 1974, e não foi corrigido quando se procedeu, em 1993, à grande remodelação na sequência dos profundos estragos ocasionados com a utilização do relvado nos Jogos Sem Fronteiras, em 1992.
Apesar de toda a relva e a terra terem sido removidas e substituídas e das bases serem preenchidas com brita e com outros materiais necessários, o problema mantém-se.
E mantém-se porque foi colocada desde a base uma camada de terra com cerca de 1 metro de altura, quando deveria ter sido cerca de 30 centímetros. A terra fica muito mole e a relva não tem raiz suficiente para ficar com a solidez que aguente a intensidade e a carga com que é pisada.

SOLUÇÃO É CARA, MAS INDISPENSÁVEL - As soluções já foram encontradas. Já escrevi em Janeiro. É uma questão de decisão política. Investir um milhão de euros para retirar toda a terra do recinto de jogo, colocando as estruturas indispensáveis para receber a terra suficiente e que não seja muito porosa.
Para a colocação da relva há duas opções: semeando nova relva são necessários cerca de 3/4 meses para estar em condições de ser utilizada. Não pode ser feita nos meses de Verão (Junho a Agosto/Setembro) porque não são os indicados devido ao clima.
Noutros meses impede a competição por parte do Santa Clara. Na ilha de São Miguel não há outro espaço com relva natural e que obedeça aos regulamentos das provas profissionais.
A outra solução é a colocação da relva em tapetes. O custo atinge os 760 mil euros. Fica a operação onerada porque os rolos são transportados em contentores refrigerados. Foi o que o Marítimo da Madeira aplicou no seu estádio. Mesmo assim sem os resultados pretendidos.
Um investimento necessário? Sim. Que se justifica? Sim. Ficando ou não o Santa Clara na 1.ª Liga? Sim, porque é uma obra que terá de ser feita mais cedo ou mais tarde.
Ainda há dias um jogador da equipa dizia, em privado, que um dos obstáculos dos jogos em casa é o relvado.
Por diversas vezes tenho referido isso, apesar de estar muito melhor em relação há 3 ou 4 anos. Logo após os primeiros minutos os tufos de relva levantavam-se. Agora o problema são as zonas sem relva, originando alguns buracos.
Ainda recentemente houve a colocação de mais aspersores, com um fluxo de água mais reduzido e que acaba por abranger uma maior área. Minora, mas como o problema é estrutural...

LIGA APROVOU RELVADO - Apesar de todos os problemas, o relvado do estádio passou na minuciosa vistoria que os técnicos da Comissão da Liga Portugal procederam na sexta-feira. Deixaram uma recomendação para não ser tão utilizada a zona da baliza Sul, alternando os treinos dos guarda-redes com a baliza Norte.
O relvado do estádio de São Miguel subiu no final da época de 2017/2018 para a categoria 2, numa escala de 3. Classificação que mantém.
Com os cerca de 900 mil euros investidos no ano passado e neste ano nas melhorias efectuadas no estádio, a classificação global atribuída pela Liga é de 3, sendo o máximo de 1, onde estão os estádios do Benfica, do FC Porto, do Sporting, do Guimarães, do Marítimo da Madeira, do Boavista e do Gil Vicente.
Com o nível 2 estão os estádios do Moreirense e do Tondela.
O estádio de São Miguel ombreia com os do Setúbal, do Rio Ave, do Portimonense, do Belenenses, do Desportivo das Aves, do Paços de Ferreira e do Famalicão.
A outra grande falha, que está sendo adiada e que justifica intervenção a curto prazo, é a cobertura de outras zonas das bancadas. No nosso clima é indispensável. É um dos aspectos que afasta muitas pessoas dos jogos.
Há cerca de 10 anos foi feito um projecto (a foto de baixo documenta) para a cobertura e entregue ao Governo. Ficou arrumado na gaveta. Até quando?
Por tudo isso é que em Maio escrevi que a subida do Santa Clara à 1.ª Liga seria uma grande dor de cabeça para os lados de Sant’Ana.

E QUEM ESTÁ NA CONSERVAÇÃO? - A SAD do Santa Clara pretende passar a responsabilizar-se pela conservação dos relvados do estádio de São Miguel e do campo do Lajedo, entregando à empresa nacional RED. No início do mês fez uma proposta sumária por escrito.
Se a SAD tem dinheiro para fazê-lo, será menos uma despesa para o erário público. Porém, há aspectos que terão de ser equacionados.
A actual conservação dos relvados está entregue à empresa micaelense Granja. Acontece desde 2013. Vigora um novo contrato, assinado em Dezembro, por um período de 3 anos, pagando o Governo Regional 1 800 euros mensais mais IVA pelos cuidados dos relvados do estádio e dos campos do Lajedo e das Laranjeiras. A empresa é também responsável pelo fornecimento de todas as sementes indispensáveis.
A sair agora terá de ser indemnizada... pelo Santa Clara.  
Os outros problemas recaem nos funcionários, na maquinaria e na utilização dos relvados por outros clubes, pelas competições associativas, pelos árbitros e por outras associações já que o espaço é público. Quem fará e como será feita a gestão?
Os restantes encargos, como a água, a energia eléctrica e a manutenção dos espaços exteriores ao relvado, fica sob responsabilidade da SAD ou do Governo?
São assuntos relevantes necessitando de serem bem equacionados em reuniões presenciais com os máximos responsáveis da Direcção Regional do Desporto, do Parque Desportivo de São Miguel e da SAD do Santa Clara.

E A ACADEMIA NA LAGOA? Esta proposta da SAD do Santa Clara surge numa altura em que já foi público do interesse do principal investidor em construir uma academia, com dois relvados naturais, com todas as infra-estruturas necessárias e também com apartamentos visando a colocação dos atletas e até proporcionando estágios com equipas estrangeiras e nacionais.
O terreno escolhido situa-se na cidade da Lagoa, ao lado do hospital em construção. O contrato prevê o pagamento de uma renda à Câmara Municipal da Lagoa e posterior compra face a situações legais que impedem a venda imediata.
A academia, a ser construída por fases, deveria estar a funcionar no início da nova época.

“NÃO PRECISAMOS DE VENDER” - Todas estas movimentações a surgirem indiciam que a SAD do Santa Clara está financeiramente bem e recomenda-se. Aliás, isto mesmo deu conta o presidente.
Numa entrevista difundida pela RTP-Açores há 15 dias, Rui Cordeiro foi peremptório quando afirmou terem a “vida organizada e neste momento não precisamos de vender atletas”.
Quando andam todos os clubes a passar por dificuldades, a arranjar soluções de financiamento, a transaccionar passes de atletas, a alienarem as dívidas, outros a contraí-las, o Santa Clara passa ao lado da crise.
Como dizia o exonerado sócio Miguel Simas na Assembleia Geral do clube de 27 de Junho, “ou Rui Cordeiro é milagreiro ou anda a brincar com os sócios”. Espera-se que nem uma coisa nem outra.
O que todos pretendem e os sócios especialmente, é que não se repita o que sucedeu em 2003, quando o clube desceu da 1.ª Liga, com uma dívida que quase chegou aos 15, aos 18 ou aos 20 milhões (há versões para todos os gostos da catástrofe) e que ainda hoje apoquenta quem está a gerir o clube e a SAD.

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Categorias: Opinião

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