4 de agosto de 2019

Uma escandalosa festança

 1- A Comissão de Orçamento, Finanças e Modernização Administrativa da Assembleia da República deliberou a 31 de Julho enviar ao Ministério Público o relatório extraordinário dos grandes devedores da banca, bem como o estudo de divulgação pública de informação crédito a crédito.
2- De acordo com os elementos enviados pelo Banco de Portugal aos deputados que compõem a Comissão, em 31 de Dezembro de 2015 a Caixa Geral de Depósitos contabilizava mais de 2,9 mil milhões de euros em crédito mal parado, distribuído por 46 grandes devedores.
3- Na mesma altura, a Caixa registou e assumiu imparidades respeitantes a esses créditos em mora na ordem de 1,2 mil milhões de euros.
4- Entre 31 de Dezembro de 2007 e 24 de Maio de 2017, o Governo para salvar o sistema financeiro português, disponibilizou 23,8 mil milhões de euros, de Fundos Públicos que foram usados pela banca: 6,2 mil milhões para a Caixa Geral de Depósitos; 4,3 mil milhões para o Novo Banco; 4,9 mil milhões para o Banco Português de Negócios; 3, 3 mil milhões para o BANIF; 3,3 mil milhões para o Milleniun; 1,5 mil milhões para o BPI e 450 milhões para o Banco Privado Português.
5- O Millenuium BCP e o BPI pagaram ao Estado os fundos que lhe foram emprestados.
6- A CGD por ser um banco público sujeita-se a maior escrutínio e verificamos que em 31 de Dezembro de 2015, apenas onze dos 46 grandes devedores concentravam 2,18 mil milhões de euros do total de 2, 9 mil milhões, de crédito em exposição.
7- De entre os 46 grandes “magníficos”, é de referir a empresa Artlant com 350 milhões; Joe Berardo e sua empresa Metalgest, com 319 milhões por junto;  Vale do Lobo com 186 milhões; a Investifino com 138 milhões a CP- Comboios de Portugal com 663 milhões.
8- A  Artlant era uma empresa tailandesa ligada à petroquímica que teve incentivos públicos por ter sido considerada pelo governo como Projecto de Interesse Nacional, e acabou por declarar insolvência, tendo a CGD reclamado 500 milhões de crédito que ficaram a “voar”.
9- O filme de Joe Berardo ainda não começou a ser rodado, porque só agora depois da indignação nacional que o caso tem gerado, é que os presumíveis responsáveis começaram, a toque de caixa, a usar o que a lei permite para irem atrás dos bens, na posse de terceiros, mas que se sabe serem pertença do Comendador.
10- Quanto à divida de 600 milhões da CP, em Setembro de 2018 o governo injectou na empresa 455 milhões de euros para amortizar dívida.
11- Só que, entre 2014 e 2018, os juros da dívida dos Comboios de Portugal somaram 309 milhões de euros, o que quer dizer que apenas ficaram disponíveis 146 milhões para amortizar a dívida dos 600 milhões de Euros.
12- Em 2017 , a CGD teve  mais de 1,3 mil milhões de euros de perdas reais respeitantes a 16 devedores.
13- Enquanto os grandes devedores se banqueteavam, sabendo embora que estava a caminho uma enorme tragicomédia nacional, a banca deleitava-se, maltratando os pequenos devedores, exigindo-lhes garantias por tudo e por nada, penhorando os cacos que encontravam em caso de incumprimento, deixando os nababos em paz e o país caminhando alegremente para a bancarrota.
14- Vamos ver o que fará agora o Ministério Publico com o relatório enviado pelos Deputados da República, porque em todo esse processo parece haver dolo das instituições financeiras e dos seus dirigentes, apesar de a maioria ter entretanto perdido a memória, e dos devedores que usaram o dinheiro para beneficio e poder pessoal.
15- Entre os escombros que descrevemos, ressalta uma empresa pública de transportes ferroviários, a CP, e por afinidade pode concluir-se que os transportes, sejam eles marítimos, ferroviários ou aéreos, sofrem de um mal comum.
16- A CP viaja com equipamento velho e alugado ao exterior. Não há uma política para a ferrovia, e deixa-se crescer o tráfego rodoviário com todos os inconvenientes que tem.
17- E cá, a SATA  continua  agonizante, e pelos vistos só há um caminho para a socorrer. É injectar o dinheiro que lhe falta, como tem sido feito com a CP, de modo a dar-lhe asas para voar…

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Categorias: Editorial

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