10 de agosto de 2019

Indignação e protesto

O meu amigo de longa data, Américo Viveiros, ilustre açoreano e diretor deste jornal que tão generosamente me acolhe há muitos anos (como diria o meu querido e saudoso amigo Jorge do Nascimento Cabral) publicou recentemente neste jornal um editorial sobre a falta de credibilidade moral que hoje atinge de alto a baixo homens e instituições.
O editorial faz o retrato fiel da atmosfera moral do nosso tempo e suscita algumas reflexões que julgo de alguma pertinência.
Em primeiro lugar as instituições são formadas por indivíduos e se os indivíduos não tem credibilidade moral as instituições pura e simplesmente refletem o carácter moral dos indivíduos que as formam e lideram.
Depois há que perguntar porque é que se agravou o deficit de senso moral dos Homens de hoje?
Vamos tentar esboçar uma tentativa de compreensão desta realidade incontestável.
A vida humana não tem base onde se fixar para além do instante fugaz; o instante, o presente não se pode agarrar e fixar, foge para passar ao instante seguinte e assim sucessivamente até se esgotar no último instante da vida.
Todavia o indivíduo luta continuamente para encontrar uma base onde assentar a sua vida efémera.
Como é que eu devo viver esta vida que é uma sucessão de momentos que começam no nascimento e acabam na morte? Os gregos antigos entendiam que a vida boa era a vida virtuosa o que pressupõe um código de conduta composto por um conjunto de máximas, princípios ou valores que pautam a conduta individual.
Ora os princípios morais e os valores, não são fixos, mudam com o tempo.
Ora, hoje estamos num período tardio da história da humanidade e este período é um período de niilismo.
Este niilismo do tempo actual é uma posição normal uma vez que o céu foi retirado e os valores mais elevados são desvalorizados.
O capitalismo, o primado do dinheiro e do lucro é apenas um dos factores que contribuiu para a falta de credibilidade moral de indivíduos e instituições no tempo actual.
A democracia é outro dos factores causais dessa falta de credibilidade moral; a democracia é boa se existir um grau aceitável de educação e cultura por parte dos cidadãos; mas, como é o caso do mundo actual, se isso não existe, causa a mediocridade democrática (a mediocracia).
Mas atenção, o capitalismo apenas agravou a atmosfera moral da sociedade actual porque os males da sociedade actual remontam ao tempo do nosso dramaturgo Gil Vicente e ao tempo de Cristo.
Gil Vicente na sua célebre farsa Todo o mundo e Ninguém, dizia que todo o mundo quer dinheiro ninguém quer a virtude.
Ou seja, a farsa vicentina remete para uma incompatibilidade de fundo, incompatibilidade insanável a meu ver, entre a avareza material e espiritual e a virtude, designadamente a virtude do amor e compaixão pelo próximo. E a mesma incompatibilidade entre o capitalismo puro e duro vigente e o cristianismo.
O mundo ocidental tentou sem sucesso superar essa contradição de fundo recorrendo à hipocrisia, moral, política e religiosa.
A moral que o cristianismo proclama está ferida de morte pelo vício da hipocrisia. Cristo disse que não é possível servir a dois senhores ao mesmo tempo, isto é, não se pode fazer uma vida dupla, ser católico ao domingo e traficante de armas na segunda feira.
Já várias vezes disse nos meus escritos que o tipo de homem criado pela hipocrisia moral, política e religiosa tem que ser superado por um novo tipo de homem.
Mas que tipo de homem é esse?
E o homem livre, homens como Schopenhauwr, KirKgaard, Tolstoi, Dostoievsky, Ortega, Emilio Zola, Unamuno, Montaigne, Nietsche etc.
A escrita hoje tem que ser uma escrita de indignação e de protesto.
A falta de credibilidade moral dos indivíduos e das instituições é a consequência mais grave da niilismo e da hipocrisia dominante no nosso tempo.
A corrupção antes de ser económica é espiritual; onde a musa canta como o cego ao dinheiro, onde nenhuma verdade, nenhum valor, nenhum princípio moral são reconhecidos como é aceite como verdadeiro e absoluto a corrupção dos espíritos, a traição dos afetos è inevitável; a degenerescência individual e social aumenta exponencialmente.
A vida moral hoje está em elevado estado de decomposição atingindo proporções semelhantes à época do baixo império romano.
É uma luta feroz de interesses, de abjecções indescritíveis, onde triunfa habitualmente a escória moral do mundo e em que soçobra o escol moral e intelectual, a elite moral e intelectual que deveria constituir o orgulho e a glória dos países.
Os homens melhores de Portugal num passado histórico não muito longínquo, aqueles que tinham uma verdadeira envergadura messiânica acabaram por se suicidar e a canalha triunfou.
Não era o Aleixo que dizia que “Não creio numa sociedade sã isto é o que foi ontem e o que há-de ser amanhã”?
O mal, como diz o povo, corta-se pela raiz; e a raiz é o coração do homem.
Alienada e fragmentada como hoje está a sociedade e o vulgo, o grosso do rebanho tem muita coisa para ler e muita coisa para refletir; mas há mais livros, mais autores do que leitores, quem lê são sempre os mesmos e a maioria não se interessa.
Andam por aí numa corda bamba moral cuja única finalidade é andar continuamente em frente, atrás do prazer do momento e do ídolo da ocasião.
Inteligências há poucas!
Quase sempre as desinteligências
nascem das cabeças ocas
por ódio às inteligências…
Há um ódio declarado à inteligência e ao espírito crítico e livre.
Escrevo por isso apenas para lavrar o meu protesto e a minha indignação contra o espírito degradado do meu tempo.
E faço minhas as palavras de Ovídio gravadas no túmulo de Descartes: “Viveu bem quem se escondeu”.

 

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Categorias: Opinião

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