Matt Mc Beath e Melissa Rodrigues dizem hoje sim na Matriz de Vila Franca

Filha de emigrantes escolhe São Miguel para casar com programa turístico para oitenta convidados vindos da Bermuda

As belezas estonteantes naturais e as paisagens verdejantes decoradas com o colorido das hortênsias da ilha de São Miguel têm servido de cenário para maravilhosas fotografias e filmagens de casamento de filhos de emigrantes e de estrangeiros, alguns dos quais descobrem ou renovam o amor nestas paradisíacas paragens.
 Este Verão são vários os enlaces de estrangeiros nos Açores. A empresa Ambiance Weddings Azores – Destination de Maria C. Vieira já organizou até agora mais de vinte, e muitos outros estão agendados.
“Os Açores estão na moda e os pedidos de casamento, este ano, de estrangeiros a querer casar em São Miguel têm sido muitos. Eles dizem o que pretendem e nós organizamos com tudo a rigor”, garante a empresária.
Ontem, sábado, a empresa de Maria Vieira esteve a realizar o serviço para o casamento de um casal de Espanha e dos EUA e hoje também é responsável pela organização do matrimónio de um casal de bermudianos, Melissa Rodrigues e Matt MC Beath.
Melissa Rodrigues é neta e filha de emigrantes açorianos que se fixaram na colónia inglesa, e escolheu a terra de seus avós e pais para oficializar o matrimónio.
O casamento oficializa-se este domingo na Igreja Matriz de Vila Franca do Campo e a boda terá lugar numa quinta em Santana, Vila de Rabo de Peixe, concelho da Ribeira Grande.
Para o enlace, só da Bermuda chegaram esta semana 80 pessoas a São Miguel. Os avós, Beatriz, de São Jorge, e José Paulo, de São Miguel, que residiam à época na Ribeira-Chã, e também emigrantes na Bermuda, promoveram uma festa de acolhimento aos convidados na sua casa no pisão da Vila, lugar onde passam o Verão, e agora, na reforma, como nos conta José Paulo,  vão ficar pela ilha uma temporada maior, cerca de três meses.
 Para que os convidados sentissem a cultura açoriana foram recebidos pelo grupo de folclore de São Pedro de Vila Franca do Campo e foram servidas iguarias típicas desta ilha do atlântico. Tudo para que, como nos diz José Paulo, as pessoas sintam e saboreiem os bons sabores da nossa terra.

Meio século de emigração sem nunca
esquecer a terra natal
José Paulo recorda que saiu de São Miguel há 50 anos, numa altura em que as pessoas de cá viviam algumas dificuldades. Dois anos mais tarde Beatriz Paulo juntou-se ao marido, juntamente com a filha de dois anos, Cidália Rodrigues, mãe de Melissa.
“Vivo na Bermuda mas tenho a minha casa aqui. Gosto muito de cá estar. Adoro esta terra. Este ano ficamos por três meses mas regressamos por causa dos filhos, tenho um casal, e das minhas cinco netas. É a família que nos faz partir, porque aqui vive-se muito bem. O clima é maravilhoso, os fins de tarde são frescos, quando comparado com as altas temperaturas que se fazem sentir na Bermuda ”.
José Paulo manifesta-se muito feliz por a neta mais velha ter decidido casar nos Açores. “Temos muito orgulho nela e ficamos muito contentes quando nos disse que queria casar na minha terra. O noivo também ficou encantado por casar cá.
A minha neta é uma menina muito sociável, vinha sempre connosco a São Miguel e aqui sempre fez muitas amizades. Lembro-me que a ia buscar às festas e ela ficava feliz. Não me arrependo nada porque assim ela apreciou a nossa cultura”.
Melissa Rodrigues, que foi pedida em casamento em São Miguel, diz que a opção de casar cá foi do casal, pois, embora ele seja nascido na Bermuda, tem um carinho muito especial por São Miguel.
Conta-nos, tal como o avô já tinha feita referência, que desde criança que vem a São Miguel com os avós, porque os pais nem sempre têm férias no período estival.
 “Nasci na Bermuda mas sempre passei os meus verões em São Miguel com os meus avós. Esta ilha sempre esteve no meu coração. Foi aqui também que o meu noivo me pediu em casamento e assim achámos os dois que seria maravilhoso casar nesta terra. Ele não é português, mas gosta muito das pessoas de cá, das comidas, das tradições e adora a ilha.
Para o casamento veio um grupo da Bermuda que está a aproveitar para fazer turismo.” Uma grande parte ainda tem família em São Miguel e este grupo é já uma terceira geração de filhos de emigrantes na Bermuda, são nossos amigos mas não conheciam os Açores e acharam que era uma boa oportunidade para conhecer a ilha. Uns estão em hotéis de Vila Franca e Água d’ Alto, outros na Caloura e outros ainda em Ponta Delgada. É uma boa oportunidade de conhecerem São Miguel”, sublinha Melissa Rodrigues.
Matt Mc Beath, o noivo, acha a ilha linda. “Esta ilha é maravilhosa. Admiro a maneira como a comunidade socializa e o respeito que existe entre as pessoas e gosto muito da cultura e dos costumes que têm”, opina.

A minha casa é na Bermuda e o meu
 jardim é em São Miguel”
Já o pai de Melissa, Silvino Rodrigues, natural de Vila Franca do Campo, e a mulher, Cidália Rodrigues, da Ribeira Chã, conheceram-se na Bermuda quando ele foi de visita a um irmão que lá trabalhava. Gostou da ilha. Mas foi obrigado a regressar e quando acabou o serviço militar decidiu emigrar. “Estabeleci-me lá, tenho a minha família e só penso vir para cá um dia quando estiver na reforma. Não é bem voltar de vez, é ficar cá uns meses e uns meses lá. É muito difícil viver fora da família. Se eu me fixasse cá estava a separar-me da minha família, dos filhos e mais tarde dos netos, e isso eu não faria, porque a família é o mais importante. Eu sei que há muita gente que regressa à sua terra natal. Estão contentes de uma maneira mas tristes de outra, porque se sentem sozinhos e eu não quero sentir-me sozinho por haver ausência. Eu adoro os Açores e gosto muito de vir cá sempre que é possível.
As minhas filhas falam português, estudaram na escola portuguesa, foram para a universidade, mas mantivemos sempre em casa a cultura açoriana. Sempre falei com as minhas filhas desta terra com muito amor e com muito carinho. Eu digo sempre aos meus amigos que a minha casa é na Bermuda mas o meu jardim é na ilha de São Miguel.
Ficar como emigrante na Bermuda não é fácil.
“Emigrei numa altura diferente, também não era fácil, mas quando a minha esposa adquiriu a nacionalidade bermudiana tudo se tornou mais fácil. Criei raízes lá, a minha esposa e as minhas filhas, e se eu voltasse a esta ilha teria de começar de novo, até porque, tal como eu, os meus amigos micaelenses emigraram quase todos, e sempre que posso entro em contacto com eles porque nós, como emigrantes, nunca podemos esquecer as nossas raízes açorianas. Isso é muito importante”.
Silvino Rodrigues opina que sendo a Bermuda, uma ilha com pouco mais de 60 mil habitantes, “parece pequena mas é grande porque não nos conhecemos.
As pessoas trabalham e quando terminam querem regressar a casa e conviver com a família. Depois de me casar aprendi a fazer de tudo. Sou um homem bem rico em aprendizagens, porque se não estivermos ao lado da nossa família os nossos filhos crescem e nós não aproveitamos. Foi muito importante para mim ver as minhas filhas crescer”.
Recorda ainda: “O meu pai faleceu eu tinha 15 anos. Naquele dia a minha vida mudou. Estava a estudar no Externato de Vila Franca e tive de ir trabalhar. Não me arrependendo de ter emigrado, pois tive a sorte de ter na Bermuda um dos meus irmãos. Costumo dizer que sou português-açoriano. Porquê? Porque carrego a minha bandeira de três maneiras, como português, como açoriano e como emigrante.
É verdade que temos de nos adaptar quando emigramos a uma nova realidade. A primeira barreira é a língua, embora eu tivesse tido três anos de inglês na escola e conseguisse comunicar. Na Bermuda fui para um colégio durante três anos porque a minha esposa disse-me que não podia acompanhar-me sempre para resolver alguma coisa. Somos marido e mulher mas somos muito amigos. Se não houver uma amizade entre um casal não é bom e é isso que transmitimos aos nossos filhos para saberem que tem de haver união e para que não fiquem, desamparados”.
Silvino Rodrigues tem família em São Miguel (Vila Franca e Ribeira Grande), nas Flores (Ponta Delgada) e na Bermuda.
Quando a minha filha me disse que queriam casar na Matriz de Vila Franca tive de me ausentar porque as lágrimas caíam-me”, assumiu reconhecendo que São Miguel melhorou muito e que “hoje em dia um casal vive melhor, desde que os dois trabalhem”, do que se vivia no tempo em que deixou a ilha para emigrar.

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