A nossa gente (211) - Paulo Enes da Silveira

“Durante o curso só tive uma disciplina em que se aprendia a programar computadores e nunca toquei num computador”

Nasceu em São Miguel mas em pequeno passou por várias ilhas...
O meu pai é natural de São Jorge, da Calheta, a família da minha mãe é do Pico mas ela veio nascer no Topo, em São Jorge. O meu pai e a minha mãe não se conheciam mas como ambos queriam estudar um pouco mais foram para a Terceira e foi lá que se conheceram. Casam, o meu pai arranja trabalho em São Miguel e eu nasci de parteira, em casa, numa casa que fica acima do Museu Carlos Machado. Entretanto passei uma temporada na Fajã de Baixo, onde fiz a 1ª classe em casa, e onde fui digamos órfão de irmãos até aos 8 anos. Tenho dois irmãos, mas as mudanças de ilhas que os meus pais fizeram quando eu era pequeno, foram uma experiência muito pessoal com os meus pais.
Os meus pais precisam de ir para a ilha do Faial, para a freguesia dos Cedros, onde fiz a minha 2ª classe, e a seguir fui para a Terceira, onde fiz a 3ª classe no Alto das Covas.
Depois voltei para São Miguel onde fiz a 4ª classe, na Colmeia, e desde os meus 10 anos até aos 17 estive no Liceu Antero de Quental. Eu vivi toda a transformação daquele tempo. Os recreios dos meninos e das meninas eram separados, mas à quarta-feira havia uns Saraus culturais e desportivos e ali convivia-se rapazes com raparigas.
Na primeira excursão que fizemos quando acabou o 7º ano, a primeira vez que saí dos Açores, foi no Paquete Angra do Heroísmo. A minha mãe tinha muito jeito para costura e tricot e fui vestido de cima a baixo por ela. Tinha cabelo até às costas que consegui conquistar ao meu pai. Combinei que se conseguisse ter notas de Quadro de Honra não cortava o cabelo e quando deixasse de ter essas notas, tinha de cortar. Cabelo comprido, viola às costas, calças azul bebé à boca de sino e um pullover justinho de malha rosa bebé.
Depois fui fazer engenharia electrotécnica para o Porto, juntamente com o Aníbal Raposo que foi fazer engenharia mecânica.

O Liceu Antero de Quental deixou-lhe memórias?
Na altura, ao Domingo, havia a missa dos estudantes na Igreja do Carmo, com o Senhor Padre Nóia. O Doutor Mota Amaral ia sempre a essa missa, ainda antes do 25 de Abril, e ia sempre à sacristia no fim. Que era o que nos agradava depois da missa era ir para a sacristia conversar, era um ambiente muito engraçado. Dessa época houve também a primeira missa rock dos Açores. Alguma música composta pelo Aníbal Raposo e penso que pelo António Botelho e um tenor fantástico que era o Luís Resendes. A Igreja enchia e ficava muita gente cá fora a ouvir. Ficou o bichinho da música.

Foi estudar para o Porto...
Antes de eu ir para o continente, o meu pai fez uma viagem a Lisboa porque ele queria que eu fosse para electromecânica, mas eu tinha facilidade em ir para Belas Artes ou para música. Mas o meu pai foi o Instituto Superior Técnico, em Lisboa, mas não gostou do que viu porque soube que várias vezes por ano fechava portas por causa da mobilização política da altura. Foi a Coimbra e ao Porto e quando regressou disse-me que ia era para o Porto. Fiz o curso de 5 anos mas desde aí especializei-me sempre na área dos computadores.
Quando regressei do Porto, ainda trabalhei na Empresa Insular de Electricidade, que depois foi a EDA, e depois fui para a Universidade dos Açores porque o meu tio, José Enes, tinha contribuído para que se começasse o Instituto Universitário que depois tomou a estrutura de Universidade dos Açores. Fui para o Departamento de Cálculo e Informática.

Mas tirou o curso de electrotécnica?
Tirei electrotécnica porque não havia informática na altura. Os computadores desenvolveram-se nos anos 50 mas 20 anos depois ninguém tinha computadores em casa, mas mesmo nas grandes empresas que tinham computadores nem todos podiam mexer naquilo.
Durante o meu curso só tive uma disciplina em que se aprendia a programar computadores e nunca toquei num computador. Tínhamos uma sala de aulas que tinha umas máquinas que escreviam os programas em dois sistemas. Eu aprendi o sistema das fitas brancas com uns furinhos perfurados e logo a seguir também apanhei o sistema de cartões. Quando escrevíamos os programas pegávamos nos rolinhos das fitas, que púnhamos um elástico, ou nos cartões e íamos levar a um guichet especial onde um senhor fazia correr numa maquineta os programas que tínhamos feito nas fitas ou nos cartões. Havia um dia de terror quando um ou dois dias depois íamos buscar o programa que tínhamos feito e havia umas listagens em papel. Quando aparecia “sintaxe error” significava que tinha de voltar a fazer tudo de novo porque não havia nada que me dizia se eu me enganava. Hoje em dia temos os terminais e os ambientes de programação que me dizem onde tenho erros.
Depois tive a sorte de conhecer grandes gurus da informática pelo mundo fora e hoje vou passando o testemunho.

Como conheceu esses gurus?
Tem a ver com a Universidade dos Açores, que tinha alguns seminários extra-curriculares e tinha anúncios de conferências que iam acontecendo. Eu já tinha feito o equivalente ao mestrado, que aqui não havia mas havia Provas de Aptidão Pedagógica e Capacidade Científica, e no Departamento de matemática vejo um cartaz com umas letras: H.B.D.S., muito grandes, que não sabia o que queria dizer. Em inglês significa Hipergrafs Based Data Structure, e o cartaz dizia que ia haver um seminário disso na Covilhã e ia estar lá um guru dar esse seminário. Peço à Universidade para ir fazer esse seminário e quando lá chego vejo que tinha a ver com formalização dos conhecimentos em estruturas de dados para o computador pode trabalhar, como base de dados. Quem foi dar esse seminário foi um professor da Universidade Pierre et Marie Curie, em Paris.
Ainda hoje estou a trabalhar com um grande guru da matemática, Rui Agonia Pereira, que trabalha na área da tradução automática e estamos a trabalhar num conjunto de linguagens, que se chama linguagens controladas, para auxiliar a boa programação. Se formos a um programa de tradução, o Google Translate, ele traduz para outra língua mas se puser um soneto de Camões para traduzir para russo, não se percebe. Ou seja, tudo o que for muito específico, com vocabulário próprio, não se consegue traduzir bem. As linguagens controladas são linguagens que se trabalham antes de iniciar a tradução e onde se aplica vocabulário específico. Faz-se uma base de dados com expressões idiomáticas, etc e quando pedir uma tradução de um assunto específico, vai aplicar aquela base de dados específica.

Esse é um dos focos da sua investigação?
Actualmente sim. Digo sempre aos meus alunos que se estamos a trabalhar em informática, temos facilidade de trabalhar porque auxiliamos todas as áreas, seja farmacêutica, automóveis ou agricultura. Tinha um grande professor de informática, francês, que foi presidente do júri da minha tese de doutoramento que dizia que um programador é tanto melhor programador quanto mais culto for. Se tiver uma cultura vasta e sólida, há muita coisa que os peritos me vão dizer em termos específicos mas se souber a base posso ir avançando.

Qual a época que gostou mais de trabalhar?
Acho que cada época tem o seu encanto e a sua beleza. Naquela época era a época de ouro. O meu primeiro computador foi um ZX Spectrum Sinclair que nem tinha ecrã e que tinha 8K de memória.
O que me deslumbra hoje é que como em tão pouco tempo houve uma evolução extraordinária. O aparecimento do computador, a passagem ao computador pessoal, o advento da internet. No início, na minha outra vertente mais cultural, já dizia aos artistas que tinham de aparecer na internet senão ninguém sabia quem eles eram.

Tem também esse lado ligado à cultura...
Estive ligado inicialmente ao Teatro Universitário do Porto. Depois lancei o primeiro concurso nacional de dramaturgia/peças de teatro a nível nacional. Fui professor no Conservatório de Música de Lisboa, fui durante doze anos Director Artístico do Festival Internacional de Música de Coimbra, toco vários instrumentos, em particular a viola e a guitarra portuguesa.

Como entram as artes marciais na sua vida?
Entram logo muito cedo. Em 1969 houve um fenómeno fantástico em Ponta Delgada é que ninguém tinha televisão em casa mas havia uma loja, que já não me recordo o nome, que tinha umas vitrines que dava para a rua e no dia em que o homem pôs o pé na lua toda a gente foi ver, interrompeu o trânsito e tudo. Rapidamente o meu pai comprou uma televisão a preto e branco para casa onde eu via os desenhos animados da pantera cor de rosa, a telenovela “Gabriela Cravo e Canela” e os filmes do Bruce Lee. Tinha umas cadernetas de cromos que se compravam e ia coleccionando, com a história das artes marciais.
Na altura aqui havia judo, mas eu não queria judo. Quando fui para o Porto fui para o teatro e fui para as artes marciais. Era aventureiro mas certinho e ambicioso. Estudava o mínimo necessário para ter 14 para evitar ter de fazer os exames para a Ordem dos Engenheiros, mas podia dedicar-me às artes marciais e teatro. Logo ali foi quando comecei a ter uma actividade multi-facetada.
No Porto encontrei uma academia com gente ligada à Faculdade de Engenharia, que vinham do judo dos anos 60 e 70 em Portugal e tinham abertura de receber grandes mestres orientais que passavam por ali e davam seminários e treinos.
Nos anos 75/76/77 tivemos um mestre do Vietname que veio residir para Portugal e que se tinha especializado numa vertente do karaté que se chama karaté shotokai. Durante os 6 anos que estive no Porto foi nesta arte que mais evoluí.
Acabo o curso em 1979 mas no dia em que cheguei aos Açores abri uma academia de artes marciais, a Academia Shoshinkai de Artes Marciais de Ponta Delgada. Tive de sair em 1983 porque fui fazer um Doutoramento para Paris e essas lides ficaram entregues aos meus alunos, porque tive três alunos brilhantes: o António Terra que é o expoente máximo do Karaté no Canadá, e que vem cá em Setembro que vai coincidir com os 40 anos da Academia; tive também o Marques, o Fernando Vicente e o Manuel Fernandes que não é dos Açores mas que pertenceu à Casa de São José e esteve a estudar karaté connosco.
Lembro-me que vínhamos para o jardim Antero de Quental, fazíamos uns treinos ao ar livre e voltávamos depois para o pavilhão a correr. Éramos visíveis.

Quando trouxe as artes marciais para cá, foi uma lufada de ar fresco?
Só havia judo na altura e rapidamente em dois anos tinha classe de adultos e classe infantil. Recordo-me que na altura tínhamos um pai e um filho a treinar e o pai vinha à classe infantil porque o filho tinha asma e o pai tinha medo que o filho se cansasse. Mas eles foram consultar o médico que lhes disse que se ele não ficasse muito cansado, até podia ser um caminho para ele se libertar da asma. E curioso que passados 2 ou 3 anos essa criança ficou sem asma nenhuma.
As artes marciais aparecem com uma filosofia de envolver as famílias também. Faríamos os famosos saraus da Academia Shoshinkai em que os pais vinham e traziam coisas para comermos e partilharmos e convidávamos sempre algum de nós que fosse especialista em alguma coisa. Tínhamos um médico muito querido, o Doutor Roger, que fazia karaté connosco e uma das palestras que ele deu foi sobre os bons comportamentos na alimentação para se ter mente sã em corpo são. Fazíamos excursões e pic-nics e depois fazíamos treinos com as famílias a assistir.
Nas artes marciais  tem de se saber muita coisa, tem muitos rituais, estuda-se o equilíbrio e disciplina pessoal dos jovens. O que se constrói num praticante de artes marciais é a pessoa ultrapassar com mais facilidade as dificuldades da vida, porque se através dos treinos fizer o que nunca pensei, quando tiver uma dificuldade na vida sei que vou conseguir ultrapassar.
Actualmente penso que esse espírito não está a ser muito bem passado pelos seus mestres aos mais jovens. Acredito que muitos conseguem receber esse espírito na origem, mas outro não. Se for a uma aula de karaté dos dias de hoje, está tudo aos gritos, às cambalhotas. Mas no meu tempo, entrar na zona delimitada falava-se baixinho, cochichava-se. É um sinal de respeito por todos os que passaram desde há milhares de anos o conhecimento que estou a receber e estão representados naquele espaço. E poucos conseguem assimilar esse conceito.

Também pertence à Casa dos Açores de Lisboa...
Durante 15 anos fui membro da Direcção. Desde há cerca de 10 anos para cá fiquei como Vice-Presidente, eu era mais na área cultural naquela que é a mais antiga Casa dos Açores da diáspora. É uma Casa que tem 92 anos, que nasceu por uma ideia dos açorianos fazerem lobby no continente e têm tido, no continente, um posicionamento diferente das restantes Casas dos Açores espalhadas pela diáspora, nomeadamente divulgar a cultura açoriana no continente.
Agora temos de ver como nos posicionamos face às notícias do Conselho da Diáspora. As Casas dos Açores têm autonomia, mas o Conselho da Diáspora não sei se será assim. Temos de ver como vai correr.

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Autor: Carla Dias

Categorias: Regional

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