11 de agosto de 2019

Crónica da Madeira

Achadas da Cruz: sonhos e confidências guardados nas pedras

As noites dos sábados para os domingos trazem, em si, roupagens de saudades que me jogam para a escuridão que abraço até que o sono me domine e a claridade das madrugadas, dependuradas no hálito morno, me arranque para a realidade do novo dia. Esse viajará comigo na incógnita e no mistério dos acontecimentos, colocando-me no patamar da inquietação que me conduz à imaginável leveza de um sonho: mal a manhã começara a espreguiçar-se no sol, deixo o Funchal.
Era domingo e, pelos passos apressados das mulheres, apercebi-me que a missa da Catedral havia já começado. Combinei com o meu amigo Marcelino de Castro para irmos à freguesia dos Prazeres ver a exposição do jovem pintor Miguel Ângelo, justamente na galeria da Quinta Pedagógica, uma iniciativa do pároco da freguesia, Pe. Dr. Rui Sousa, que, para além da sua ação pastoral, dedica algum do seu tempo a um empreendimento que, cada vez mais, atrai gente à referida freguesia. Um espaço agrícola onde se reúnem todo o tipo de ervas para chás, frutos, bem como animais; um encontro com uma natureza fértil que encanta. Ali existem uma casa de chá, um bar com uma grande variedade de licores caseiros e doçaria especial, e o famoso licor de rosas que ganhou o primeiro prémio no Chile.
    Antes de chegarmos à Quinta Pedagógica, devo confessar que foi a minha primeira visita, almoçámos num restaurante acolhedor, cujos proprietários estiveram emigrados algum tempo na África do Sul. Uma receção calorosa e uma cozinha deliciosa: caseira e saborosíssima.
    Por umas horas disfrutámos dos encantos da Quinta Pedagógica, provando os vários licores e as diferentes marmeladas. Depois, aproveitando a excelência do tempo, vestido com um céu azul sem nuvens, partimos em direção às Achadas da Cruz. O Marcelino, para além de ser um intelectual a sério, com quem é sempre agradável conviver, pelo que se aprende, é um explorador da natureza, por isso, conhecendo muito bem a Madeira desde as suas entranhas, leva-me por caminhos que se metem por outros caminhos. Percursos com tetos verdes de ramos de árvores que se cruzam e se abraçam, como catedrais, com quilómetros de agapantos (coroas de Henrique) que matizam as bermas dos caminhos de branco e lilás. De quando em quando, havia raios de sol que, atrevidamente, rompiam o teto verde e, aí, a luz derramava-se sobre nós. Chegados às Achadas da Cruz, carregados de tanta emoção e beleza, fomos invadidos pela espetacularidade de um cenário único que subia do mar, ligeiramente revolto, até ao topo das rochas altíssimas onde os olhos se perdiam na distância. Rochas que o homem madeirense, durante séculos, com “raiva” e amor, cultivou, desafiando a morte e à beira dos abismos, construiu socalcos, deitou terra e plantou-os, com bananeiras e outros produtos para a sua sobrevivência. Hoje, alguns dos espaços foram invadidos pelas canas vieiras, cujas socas correm, como uma praga, pelas montanhas acima. Entrelaçam-se nas pedras, trepam os muros. Ali, a paisagem é indescritível. Dependurado nos abismos que não se medem com os olhos, existe um teleférico que nos conduz até junto do mar, onde algumas casas de pedra se dispersam por caminhos de terra batida rodeados de pedras negras, colocadas umas sobre as outras a enfrentar o vento e a proteger alguns pedaços de terra cultivados. Caminhando por atalhos, afastando ervas que selvaticamente crescem, consegue-se chegar ao mar, atravessando a praia de calhaus. É o mar de noroeste, nem sempre calmo. Ali vão sobretudo alguns estrangeiros mergulhar, pois, no início do século XX, um dos veleiros mais luxuosos do mundo, propriedade do mais rico americano solteiro, “Varuna” deu à costa, durante a madrugada de 16 de novembro de 1909. O veleiro, que tinha a bordo a maior biblioteca flutuante do mundo, era construído em aço, tinha duas hélices, deslocava-se a uma velocidade máxima de 17 nós.
    Eugene Higgins, o proprietário do “Varuna”, possuía uma residência em Nova Iorque, no cruzamento da famosa 5.ª Avenida. Mas vivia permanentemente a bordo do seu iate, sem preocupação e, como bon vivant, dedicava o seu tempo a viajar pelo mundo. Seu pai, um fabricante de carpetes, deixou-lhe uma fortuna fabulosa. O veleiro luxuosamente decorado, tinha estabilizadores especiais e das muitas inovações contavam-se compartimentos contra afundamento, que mantinham o iate a flutuar em caso de acidente. O seu comprimento era de 306 pés – 93 metros. Dada a sumptuosidade do “Varuna”, Higgins pagava anualmente 11.011 dólares de taxas.
    A 5 de novembro, depois de uma viagem tormentosa, o “Varuna” chegou às Bermudas. A bordo, com um grupo de amigos convidados, Eugene Higgins viajou das Bermudas para a Madeira, onde encalhou na costa noroeste. Apesar dos esforços para o desencalhamento, não foi possível. Dos oito membros da tripulação, um desapareceu. Salvaram-se todos os convidados, o comandante e o seu proprietário. Nada se salvou do iate que foi arrastado por ondas revoltosas para a costa caraterizada pelas suas altíssimas falésias.
    Este local tornou-se para os desportistas de mergulho quase obrigatório; sobretudo são os estrangeiros os que mais procuram a zona, agora mais facilitada nas visitas pela presença do teleférico.
    Evidentemente que a trágica história do “Varuna”, paradoxalmente é fascinante e desperta curiosidade pelo mistério que está envolvido, razão pelo que, para os que praticam mergulho, se metem no mar revolto à procura de encontrar o iate afundado há anos. A descida e a subida no teleférico é espetacular. É de uma beleza indescritível. É uma sensação única. É sentirmo-nos, por momentos, suspensos no abismo incomensurável que vai do alto da falésia até à praia. É experimentar a sensação que a natureza imensa vem de encontro a nós e abraça-nos, e o mar, lá em baixo, mete-se por entre as pedras até que os olhos açambarcam, por fim, o oceano que nos conduz ao mundo…
    Ponho-me a adivinhar como se vive aqui, nas casas de pedras, sem automóveis, motas ou bicicletas a perturbar, apenas o bater das ondas nos calhaus e o assobio do vento forte quando sopra. Toco nas pedras, subitamente sinto-as no seu respirar; subitamente sou transportado no tempo, ao passado, quando homens corajosos enfrentaram as falésias e dominaram-nas, cultivando-as. De tudo isto falo com o Dr. Marcelino e juntos vamos imaginando a vivência de gente simples que por aqui andou e anda; gente que pacientemente, sob sóis escaldantes e chuvas, foi construindo muros e recolhendo pedras para se protegerem dos ventos e das marés. Muros sem argamassa, em caminhos autenticamente medievais. Muros que guardam as confidências e os sonhos de tantas gerações.

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Categorias: Opinião

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