FACE A FACE!.... com Paulo Moniz

“Este ciclo socialista trouxe-nos a esta situação vexatória em que temos o povo de mão estendida e a Autonomia dos Açores de joelhos”

 Correio dos Açores - Descreva os dados que o identificam perante os leitores!
Paulo Moniz, 50 anos, engenheiro eletrotécnico.

Fale-nos do seu percurso de vida no campo académico, profissional e social?
Após a conclusão da formação de 5 anos em engenharia eletrotécnica na área de telecomunicações, seguiu-se o reforço da formação académica, com o regresso ao IST para concluir o mestrado em eletrónica de potência e automação industrial.
Pela convicção da importância das novas tecnologias, estive no seio do Grupo EDA na génese da criação da Globaleda e mais tarde da Oniaçores, a par da lecionação como docente convidado na Universidade dos Açores dos cursos de engenharia e da Presidência da ACIST, Associação Empresarial de Comunicações de Portugal.
A ligação à Ordem dos Engenheiros já vem de há alguns anos, e como presidente do Conselho Directivo da Região Açores onde acompanho com bastante proximidade todas as atividades de engenharia nos Açores e mais recentemente, por responsabilidades nos órgãos nacionais, também na visão nacional.

Como se define a nível profissional?
Exigente e rigoroso nas tarefas e nos prazos por formação profissional. Admiro, acima de tudo, a competência profissional no desempenho das tarefas de cada um.

Quais as suas responsabilidades?
Como administrador com o pelouro das telecomunicações na Globaleda SA, coordeno uma vasta equipa técnica e de engenharia com responsabilidade na operação e manutenção da maioria dos sistemas e infraestruturas de telecomunicações nos Açores e na execução de projetos de grande dimensão nestas áreas.
Na ordem dos engenheiros, acompanho transversalmente todas as áreas da engenharia, toda a dinâmica legislativa, de formação, do exercício e práticas dos actos de engenharia, com particular proximidade nos Açores.

Como descreve a família de hoje e que espaço lhe reserva?
A família é sempre o nosso último reduto e porto de abrigo. É onde repousa o mais íntimo de nós e da nossa identidade.

Quais os impactos mais visíveis do desaparecimento da família tradicional?
O próprio conceito de família tradicional altera-se com o tempo. Importa que não faltem pilares na formação humana, na transmissão de valores e amor. Por exemplo, e ao que é por nós entendido ainda hoje como família tradicional, os avós são também um desses pilares com o seu ensinamento, com a sua paciência amaciada pela experiência de vida feita e pela capacidade de despenderem uma atenção e acompanhamento que os pais na vida agitada de hoje, não conseguem. Para além de uma candura ternurenta que só os avós sabem dar. Esta componente da dimensão familiar tem determinado um conjunto de carências afectivas, de conhecimento e de formação da personalidade e desenvolvimento, que fazem muita falta à sociedade como a conhecemos e experienciamos no nosso dia-a-dia.

Qual a sua opinião sobre a forma como a sociedade está a evoluir?
A sociedade actual tem uma dinâmica evolutiva em várias áreas, sem precedentes e fruto do estágio de desenvolvimento civilizacional e humano que atingimos. Colocam-se desafios muito importantes já hoje determinantes no nosso futuro muito próximo. A quantidade infinita de dados ao nosso dispor, a quantidade de informação com a dificuldade crescente em saber separar o trigo do joio e conseguir converter a informação em conhecimento útil. O enorme desafio que constitui a inteligência artificial e a oportunidade de nós podermos pensar e conviver com todos os desafios e mudanças paradigmáticas que estas alterações estruturais implicam.

Que importância têm os amigos na sua vida?
Os verdadeiros amigos são uma peça central da nossa existência e a par da família, concorrem para a nossa estabilidade, bem-estar e afecto, em particular nos momentos menos fáceis com que a vida nos surpreende.

Para além da profissão que actividades gosta de desenvolver no seu dia-a-dia?
Sou curioso por natureza. Ocupo o tempo que tenho livre à procura de informação das minhas áreas de eleição e dedico-me, no meu espaço mais íntimo, ao arranjo e coleccionismo de rádios antigos.

Que sonhos alimentou em criança?
De ‘construir e fazer coisas’, de concretizar projetos e arranjar soluções. Sempre foi esta a minha génese.

O que mais o incomoda nos outros?
Cinismo e deslealdade.

Que características mais admira no sexo oposto?
A inteligência e a bondade.


Gosta de ler? Diga o nome de um livro de eleição?
Gosto muito. As Velas Ardem Até Ao Fim, Sándor Márai.

Como se relaciona com o manancial de informação que inunda as redes sociais?
Procuro a que é fidedigna e a informação que processada, pode traduzir-se em conhecimento, que acrescenta valor e saber.


Conseguia viver hoje sem telemóvel e internet? Quer explicar?
Dificilmente. O seu uso vai muito mais além do que a sua utilização como telefone ou meio somente de estabelecimento de comunicação nos moldes tradicionais.

Costuma ler jornais?
Todos os dias a primeira coisa da manhã, com o pequeno-almoço. Também gosto de acompanhar os artigos de opinião e reflexão.

O que pensa da política? Gostava de ser um participante activo?
Entendo a actividade política como uma das mais nobres missões ao serviço do bem comum. Exercida na plenitude é um serviço exigente e de causas em prol da nossa comunidade. Neste enquadramento, entendo que não se deve rejeitar a possibilidade de participação activa, uma vez que sintamos e reconheçamos, nós e os outros, que o nosso contributo pode ser uma mais-valia.

Gosta de viajar? Que viagem mais gostou de fazer?
Gosto pela aprendizagem e enriquecimento únicos que cada viagem proporciona. Sem dúvida Buenos Aires.

Quais são os seus gostos gastronómicos?
Gosto da comida tradicional portuguesa. Cozido à Portuguesa.

Que noticia gostaria de encontrar amanhã no jornal?
Conseguiu-se erradicar a pobreza, sustentadamente e preservando a dignidade humana.

Se desempenhasse um cargo governativo descreva uma das medidas que tomaria?
Pergunta difícil. Depende muito da área desse cargo, mas os sectores âncora da sociedade que tendem a modernizar-se e a atropelar, a uma velocidade cada vez maior, a essência da preparação das gerações do futuro, como a educação, o que garante o bem estar das actuais, a saúde, e todas as matérias que implicam medidas que conferem o desenvolvimento de cada comunidade, com  políticas públicas sociais além de concertadas, eficazes e duradouras na sua sustentabilidade, seriam com toda a certeza pontos chave na minha agenda.

Qual a máxima que o/a inspira?
Antes Morrer Livres que em Paz Sujeitos! Sempre foi.

Em que Época histórica gostaria de ter vivido?
Nesta. Onde estamos. Onde temos todos os dias a oportunidade de fazer e de mudar a história.

Estão criadas condições para o PSD/Açores vencer as próximas eleições legislativas nacionais no arquipélago? Pode explicar?
Sem dúvida que estão. O PSD/Açores apresenta uma grande e sólida lista de candidatos para defender os interesses dos Açores na República. Na nossa história democrática, os Açores nunca se encontraram numa encruzilhada tão complexa e difícil do ponto de vista financeiro, económico e social e pior, se nada se alterar, sem qualquer esperança realista de melhoria, bem antes pelo contrário.

Como pretende mobilizar o eleitorado abstencionista?
Olhos nos olhos, sem filtros e falando verdade. Apontando as soluções e dizendo ao que vimos com clareza. Fechando o compromisso com os Açorianos de, acima de qualquer interesse, e em qualquer momento, primeiro estão os Açores e utilizaremos todos os instrumentos ao nosso alcance, sem excepção, para o cumprir.

Quais são as suas grandes bandeiras para as próximas eleições legislativas nacionais?
Apresentaremos aos Açorianos todas as nossas medidas e a forma como defenderemos intransigentemente os diversos compromissos assumidos e nunca cumpridos por parte da República no que diz respeito aos Açores, além de todos a que nos propomos agora que têm sido detalhadamente preparados por nós com contributos de vários quadrantes e sectores da nossa sociedade.

Aparentemente, há uma boa relação entre o actual governo da República socialista e o Governo dos Açores socialista. Há muita aparência? Ou existe mesmo uma boa relação entre os dois governos?
Não costumo acreditar em tudo o que oiço e vejo. Por ver uma foto de todos juntos a sorrir, não me convenço que a relação seja a melhor. Constata-se que, na maioria dos casos, ser da mesma cor partidária não é uma garantia de que os compromissos serão cumpridos e muitas vezes constata-se exactamente o contrário. De pouco serviu aos Açores ter um Governo da mesma cor partidária porque, apesar disso, a maioria dos problemas dos Açores dependentes da vontade de Lisboa, não foram tratados, mesmo havendo açorianos lá fora, em posições privilegiadas no partido socialista.  
A gestão do mar dos Açores, ao longo da linha de água desde os fundos até à superfície deve ser feita pelos Açores? Deve ser feita de forma partilhada com o Governo da República e em que moldes?
Os Açores devem ter um papel preponderante e quanto à utilização dos seus recursos desde os fundos à superfície e à costa, sendo urgente definir na prática e preto no branco, nesta e noutras matérias, o conceito de gestão partilhada com o Estado. Os Açores nesta matéria, no mínimo devem ter moldura e cobertura legal, sobre iniciativas que ao mar dos Açores digam respeito. Esta é uma questão de princípio.

Há os defensores de que os Órgãos de Governo Próprio (Parlamento açoriano e Governo dos Açores) devem representar o Estado nos Açores em toda a sua dimensão, com excepção para áreas como a Defesa e Negócios Estrangeiros? Quer faz uma reflexão sobre este tema?
Está provado que a autonomia dos Açores conforme consagrada e do seu exercício já com 43 anos, é a melhor forma, no quadro político vigente, de desenvolver os Açores. A autonomia não é um dado adquirido e sempre foi e será ameaçada de fora e por dentro, por aqueles de colocam os Açores em situações de fragilidade, económica financeira e social. Qualquer aprofundamento das competências da autonomia será benéfico desde que a estas competências corresponda sempre a capacidade de as assumir em toda a sua plenitude e sem nunca delas abdicar.  Este processo de evolução progressiva da autonomia é inexorável, mesmo com os atrasos infligidos pelas fragilidades que exibimos hoje em demasiados sectores da nossa Região.

Concorda com a criação de um Conselho de Concertação das Autonomias nos moldes em que é proposto no programa eleitoral do PS? Porquê?
É prova cabal da falência deste ciclo governativo autonómico socialista. A autonomia tem que valer por si própria e pelo respeito reconhecido e interiorizado pela República em relação aos Açores e à sua Autonomia. Este ciclo socialista é que nos trouxe a esta situação vexatória em que temos o povo de mão estendida ao governo regional e a autonomia dos Açores de joelhos perante o Terreiro do Paço.

O cargo de Representante da República deixou de fazer sentido? Como deve ser substituído?
No contexto da autonomia progressiva é muito mais importante o aumento de competências efetivas dos Açores, nos Açores e para os Açores, do que a figura e a função do Representante da República.

Tem algo mais que queira acrescentar no âmbito desta entrevista?
Talvez pela primeira vez na história democrática dos Açores, da nossa autonomia, as próximas eleições legislativas, serão dos momentos mais importantes e decisivos para o futuro dos Açores. Tal como em 1976, em Outubro joga-se o início de uma mudança urgentemente necessária e reclamada pelo povo. Seremos em Outubro, todos chamados como povo, a pronunciarmo-nos. Cada um tem, no seu íntimo que reflectir e decidir, se quer lutar pela nossa causa como um todo, para ultrapassarmos mais este momento decisivo da nossa história ou assistir coniventemente ao nosso definhar.

Print
Autor: João Paz

Categorias: Regional

Tags:

x
Revista Pub açorianissima