Cerrado do Mar conta a história de duas gerações

Produção de vinho no concelho de Vila Franca do Campo rende anualmente 11 mil garrafas e produtor defende mais investimento nas vinhas

Inspirado por toda uma vida de trabalho, Mário Jorge Araújo colocou no mercado a marca de vinhos Cerrado do Mar em homenagem ao seu avô, de quem viria a herdar um dos poucos terrenos em Água d’Alto que ainda hoje permitem o crescimento de várias castas de vinhas.
Era também no Cerrado do Mar, nome que é também dado a alguns dos terrenos mais altos de Água d’Alto, que o seu avô produzia o seu próprio vinho, vendido posteriormente na sua loja e taberna, sendo esta uma forma de contribuir para a subsistência de toda a família.
Em tempos, e tendo em conta a grande propensão da maior parte dos terrenos de Vila Franca do Campo para o crescimento saudável das vinhas, principalmente aqueles que se encontram em maior altitude por conta do subsolo constituído essencialmente por pedra-pomes, o concelho foi, inclusive, o que mais uvas tinha nos Açores, ultrapassando a ilha do Pico, hoje conhecida pela sua produção de vinicultura, adianta o produtor de vinho.
Foi também pela influência do avô que Mário Jorge Araújo começou por tomar conhecimento dos aspectos básicos que estão envolvidos na arte de fazer vinho, uma vez que apenas com oito anos de idade, como era comum naquela altura, começou por apanhar uvas quando chegava a época das vindimas.
“Fui criado pelos meus avós e desde os meus oito anos que tive conhecimentos relacionados com a uva de cheiro porque o meu avô me pedia para o ajudar a apanhar uvas. Era menos uma pessoa que ele pagava e eu desde cedo que aprendi a fazer isso”, salienta o empresário, adiantando que este foi um trabalho que sempre fez enquanto o avô foi vivo.
Anos mais tarde, em conjunto com os Serviços de Desenvolvimento Agrário, procurou introduzir castas diferentes nas suas vinhas, uma vez que “havia muita uva de cheiro”, dando assim origem, há 32 anos, ao primeiro campo experimental de uvas tintas num terreno cedido por si durante 12 anos “para que os serviços fizessem esta experiência conjuntamente comigo”.
Foi através desta experiência que se tornou visível, adianta o empresário, que castas se adaptavam melhor às condições climatéricas da ilha de São Miguel, percebendo-se que são as castas brancas que têm mais sucesso em São Miguel quando em comparação com as castas de uva tinta, que necessitam de mais sol para resultar num vinho com qualidade e teor alcoólico.
Entretanto, no decorrer destes trabalhos, um inventário realizado nos Açores permitiu concluir que existiam “apenas 78 cepas da mesma casta que eram completamente diferentes das outras”, diz Mário Jorge Araújo, referindo-se ao terrantez do Pico, uma casta que existe apenas nos Açores e que é hoje uma das suas principais produções.
“Há sete ou oito anos uma engenheira detectou num inventário feito nos Açores, nomeadamente no Pico, que havia 78 cepas que eram completamente diferentes das outras. Fez-se um estudo sobre isso, e chegou-se à conclusão de que o Terrantez do Pico é uma casta que só existe cá. Lançaram-me o desafio e plantei 2 mil cepas e para mim é das melhores castas que se dão cá”, explica, salientando que esta é uma casta branca tal como o verdelho ou o arinto, castas estas que são autóctones do arquipélago.
Depois de se reformar, aos 55 anos, Mário Jorge Araújo dedicou-se a 100% às vinhas, passando inclusive pela experiência de conviver com um enólogo com quem criou um “licoroso feito exclusivamente com terrantez do Pico”, bebida esta que pondera colocar no mercado brevemente, tendo em conta a sua qualidade.
“Este licoroso já foi para o laboratório de enologia no Pico e está em todas as condições para vir para o mercado dentro dos parâmetros legais. Estou à espera ou pelo final deste ano ou para o próximo, porque ele precisa de um pouco mais de oxidação, quanto mais oxidar mais acastanhado fica”, explica o produtor que actualmente conta com dois vinhos no mercado, o Cerrado do Mar tinto e o Cerrado do Mar branco.
De momento, adianta Mário Jorge Araújo, conta com uma produção de cerca de 9 mil litros, o que se traduz em cerca de 11 mil ou 12 mil garrafas. No entanto, e como é de esperar, este é um número que terá tendência para aumentar, uma vez que “as cepas com mais idade e a partir dos sete anos produzem muito melhor”, adiantando ainda que em Fevereiro passado plantou um hectar de bacelos.
No que diz respeito à saúde das castas, o empresário ligado à vinicultura, salienta que quanto mais seco for o Verão melhor para as uvas, uma vez que com a chuva e com a humidade surgem as doenças associadas, nomeadamente “duas pragas de fundos que são muito chatas e que têm que ser combatidas semanalmente” e que afectam, sobretudo, o terrantez do Pico.
Esta casta, conhecida por ser das melhores castas de uvas que existem exclusivamente nos Açores, são também das mais sensíveis a este tipo de pragas, diz o empresário, salientando que “se não forem feitos alguns ajustes na vinha, e não vou dizer quais, o terrantez do Pico apodrece, uma vez que esta é uma casta que tem cinco problemas graves e os Serviços de Desenvolvimento Agrário conhecem alguns mas não conhecem outros”.
Neste momento, diz, produz terrantez do Pico sem que haja podridão nas suas uvas, algo que atinge através da sua capacidade para comunicar com a vinha e que aconselha a todos os outros produtores.
“Comunicar com a vinha é saber podá-la, saber orientá-la, saber qual o porta-enchertos a usar, saber o que se deve fazer quando ela está a rebentar, saber o que fazer quando ela atinge meio metro ou quando já tem os cachos de fora. Por isso costumo dizer que consigo falar com a vinha”, diz, concluindo que “é preciso lidar com a vinha como quem lida com algo de que gosta”.

O selo Marca Açores visto como
uma mais-valia

Sob a alçada do selo Marca Açores, Mário Jorge Araújo tem os seus dois vinhos Cerrado do Mar, nomeadamente o tinto e o branco, representando para si “uma mais-valia e a fidelidade do produto açoriano”, afirmando que só assim poderá ser, uma vez que nos Açores não é possível produzir em quantidade mas sim em qualidade.
De momento conta com um distribuidor, responsável pela venda das suas cerca de 11 mil garrafas, que estão disponíveis em restaurantes e hotéis de todas as ilhas dos Açores, afirmando que quem o bebe são, na maior parte, turistas que apreciam a existência dos selos de certificação de qualidade e que acabam por frequentar estes serviços nas ilhas do arquipélago.
No que diz respeito à exportação, Mário Jorge Araújo adianta que lhe foram feitas algumas propostas mas que estas nunca se concretizaram, como por exemplo o convite que lhe foi feito a partir do Porto, mas que não conseguiu levar avante “por não ter a quantidade de produto para satisfazer o pedido”.
Em Lisboa tentou colocar os seus vinhos à venda nas duas lojas da “Casa dos Açores”, mas a sua proposta acabou por não ser aceite pelos seus proprietários, algo que considera “muito ofensivo para uma pessoa que vive há 61 anos nos Açores e que produz vinhos, sendo que o meu vinho não deixa de ser um vinho feito em Água d’Alto, no concelho de Vila Franca do Campo, na ilha de São Miguel e no arquipélago dos Açores”.
No entanto, mesmo com estes contratempos, Mário Jorge Araújo sente-se tranquilo porque tem um produto IGP já certificado por uma entidade pública, reforçando assim a qualidade do vinho que produz através do selo açoriano, “o que acaba por definir muito melhor a qualidade do vinho para a pessoa que o vai beber ou utilizar, porque são duas entidades que estão a controlar e a dizer que o produto é genuíno nos Açores”.
A par disso, e por reconhecer o potencial de uma vinha em crescimento em Vila Franca do Campo, Mário Jorge Araújo afirma que deveria ser feito um maior investimento na área da vinicultura no concelho, uma vez que esta seria uma forma de recuperar um dos grandes legados que ali existiram um dia, salientando que não coloca herbicidas de qualquer tipo nos seus terrenos.
Por outro lado, e no campo das novidades, o produtor adianta que tem um terreno em Água d’Alto com 28 alqueiros e cerca de 1600 plantas em produção, onde tem várias árvores de maçã das Furnas que se encontra num processo de certificação para agricultura biológica.
Neste sentido, adianta que tem também em mente colocar no mercado uma marca de cidra de maçã feita com maçãs das Furnas da sua quinta em Água d’Alto, tendo em conta a qualidade destas frutas que ali crescem sem recurso a quaisquer pesticidas ou acaricidas.

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