13 de agosto de 2019

Jornalistas e os dramas esquecidos (Iémen, Timor)

O Jornalista da RTP José Manuel Rosendo relata numa impressionante reportagem, o sofrimento do povo iemenita, apanhado no fogo cruzado da avidez gananciosa, hipócrita e desumana, das grandes potências que não recuam perante o dilema de salvar vidas inocentes, optarem por políticas claramente favoráveis aos lobbies das grandes empresas do armamento, quer sejam americanas ou europeias.
Rosendo e o seu repórter de imagem, elaboraram um trabalho muito real e dramático da situação em que vivem milhões de seres humanos, que apenas têm a pretensão que os deixem viver. É uma autêntica “descida aos infernos”.
Na reportagem o jornalista faz-nos um breve enquadramento histórico do Iémen.
No inicio do século XX o país é dividido entre os impérios otomano e britânico. E aqui começam os dramas deste povo. Ao contrário do que se possa pensar, a guerra civil actual de que o povo do Iémen é a primeira vítima, não é causada pela cisão do Islão entre sunitas e xiitas, mas sim pelos jogos geoestratégicos das grandes potências dominantes.
Ao contrário dos países vizinhos, ricos em jazidas de petróleo, apenas 25% da riqueza gerada no Iémen vem da exportação do “ouro negro”, e esta encontra-se na posse duma oligarquia corrupta, apoiada pelo vizinho Reino da Arábia Saudita, com todo o apoio dos Estados Unidos e de alguns países europeus, onde encontram mercado para escoar os “excedentes” das indústrias de armamento dos respectivos países.
O Iémen apesar ser o país mais pobre da região, onde 95 % dos produtos consumidos têm de ser importados, tem uma posição geoestratégica invejável no golfo de Áden.
As revoltas por melhores condições de vida sucedem-se, o que torna insustentável qualquer solução governativa, com tribos armadas e até grupos terroristas como a Al Qaeda, que chegam a constituírem-se como governo.
Calcula-se que nos últimos cinco anos tenham morrido para cima de 100.000 pessoas, das quais metade foram crianças. Os refugiados já ultrapassam os dois milhões. A ACNUR, organização das Nações Unidas para os refugiados, procura montar campos para os acolher e distribuir alimentos, os quais muitas vezes não chegam aos verdadeiros destinatários, perdendo-se nas “mãos “ dos grupos armados.
O Secretário - Geral da ONU António Guterres, tem procurado fazer ouvir a sua voz, mas os sucessos têm sido reduzidos. 
Cabe aqui uma palavra de enorme admiração pelo repórter de guerra, José Manuel Rosendo, que com risco de vida, ele e os companheiros, fazem por manter informados aqueles que na paz das suas casas, não podem deixar de ficar indiferentes, ao que por este mundo fora, continua a passar-se.
De relevar que o seu trabalho no Iémen, se processa num contexto muita perigoso, uma vez que o país com mais responsabilidades no drama por que passa o Iémen, é o Reino da Arábia Saudita, cujo príncipe herdeiro Bin Salman, está acusado de ter ordenado o brutal assassinato do jornalista saudita Jamal Khashoggi nas instalações do consulado saudita em Istambul, com requintes duma crueldade inaudita, sendo torturado e esquartejado ainda vivo.
O jornalista Jamal, entre outras acusações, também se terá oposto à intervenção dos sauditas no Iémen. 
Através da reportagem do Rosendo, também ficamos a saber que para além da guerra civil, com os seus milhares de vítimas, o país debate-se com a escassez de alimentos e medicamentos, assim como, com a crónica falta de água, o que  agrava ainda mais, duma forma dramática, a vida deste povo esquecido.
Será que por uns biliões de “petrodolares” em negócios de venda de armas, vale tudo? Até vender a alma ao diabo?
Não gostaria de terminar sem recordar outro drama esquecido por muitos e longos anos. Em Dezembro de 1975 inicia-se a invasão assassina da Pátria Irmã de Timor, pelas poderosas forças armadas indonésias, com a cumplicidade dos Estados Unidos, através da decisão do então Presidente Gerald Ford, que na véspera da invasão terminava uma visita de Estado a JaKarta, dispensando todo o apoio em armamento ao ditador indonésio Suharto.
Até que um corajoso jornalista inglês Max Stahl, filmou em Novembro de 1991 o massacre no cemitério de Santa Cruz, onde foram assassinados pelas tropas ocupantes algumas centenas de jovens timorenses. Max conseguiu sair de Timor, colocando as imagens nas televisões de todo o mundo, recolocando o drama de Timor na agenda internacional, desencadeando a realização de um referendo no qual a população optou pela independência do país face à Indonésia.
 A minha sincera e modesta homenagem, não só ao Rosendo, ao Jamal e ao Max, aqui referidos, como a todos os jornalistas, que correndo riscos de vida, tendo alguns deles perecido, nos têm possibilitado ter conhecimento de todos estes dramas esquecidos, apesar de muitos jornalistas, eles próprios, serem votados ao esquecimento, por poderosas forças obscuras, corruptas e desumanas, que na sombra tudo comandam e tudo controlam, enquanto comentadores e jornalistas mercenários, avençados e a soldo, procuram anestesiar-nos, oferecendo-nos “um admirável mundo novo”, ancorados, falsamente, nas novas tecnologias e nas benfeitorias da globalização. Até quando?
 

Print

Categorias: Opinião

Tags:

x
Revista Pub açorianissima