13 de agosto de 2019

Crise a sério ou artificial?

Está Portugal mergulhado em plena crise dos transportes de matérias perigosas, nomeadamente combustíveis. Por sinal, nos Açores e na Madeira não há sinais de tal crise, o que evidencia as vantagens da Autonomia Constitucional, assente na clara diferenciação territorial.
Nas últimas semanas parece que não havia outro qualquer tema de interesse para o debate público, a deduzir do conteúdo dos telejornais nacionais, excepto talvez as transferências milionárias de futebolistas… Ainda assim, é de questionar se não há uma certa dose de artificialismo na suposta crise.
O Governo dramatizou o assunto até à exaustão, envolvendo-se nas negociações entre o Sindicato dos Motoristas e a associação patronal, decretando serviços mínimos, preparando a requisição civil, ameaçando os relapsos com a Polícia e os Tribunais e até com penas de prisão. Com isso ganhou uma imagem de força, que não evidenciou noutras circunstâncias, antes pelo contrário, manteve em silêncio os parceiros da atípica coligação existente e até a própria Oposição, tudo tendo em vista a tão almejada maioria absoluta nas próximas eleições legislativas de 6 de Outubro.
Por seu turno, o Sindicato em causa parece estar abusando de um direito que lhe assiste, que é de declarar greve, pois havia negociações em curso e até propostas razoáveis em apreciação. Que o Presidente do Sindicato não seja ele próprio um membro da classe, mas sim um causídico em pleno processo de ascensão social, já até indigitado como candidato a Deputado por um partido político de tradição oportunística, é factor de grande confusão perante a opinião pública.
 Os cidadãos ficam a saber que estão nas mãos de um qualquer sindicato e seus inesperados líderes, que a todo o momento podem parar o País. Isso cria um certo sentimento de indignação e até de revolta, que inquina a luta laboral, tornando-a, como muito bem disse o Presidente Marcelo, numa luta contra o Povo ou pelo menos fazendo dele refém.
Em todo o caso, só agora se vai conseguir fazer a medição dos efeitos da greve. Ora, ao longo das últimas semanas, os órgãos de comunicação social esfalfaram-se em pesquisar toda e qualquer área que pudesse vir a ser afectada pela prometida paralisação, desde os horários dos aviões até ao abastecimento em frescos dos supermercados, desde o escoamento do leite produzido pelas empresas dos lavradores até às redes de transportes urbanos e ao funcionamento das bombas de gasolina… Com isso geraram um generalizado alarme, causando angústia, em especial nas faixas sociais mais vulneráveis, nomeadamente as pessoas idosas, que afinal pode verificar-se não ter tido a mínima sustentação. Até preces houve em igrejas pela superação da crise, e isso nas nossas ilhas, em sinal de solidariedade, sendo sabido desde o início que cá não iria haver greve!
Todos sabemos que neste período as notícias são poucas e até uma vaga de arrefecimento do ar, que essa sim também se sentiu nos Açores, fez desaparecer o outro tema quente do Verão, que são os incêndios florestais. Bem feliz se sentiu com tão inesperada conjuntura o Governo, que estava a ficar apertado com os casos sucessivos de negócios mal explicados, senão mesmo claramente duvidosos, relacionados com o combate aos fogos, envoltos em fumos de corrupção e tortuosas interpretações das leis em vigor.
Na altura em que escrevo, manhã radiosa de segunda-feira, estão ainda em aberto todas as hipóteses. Se se fizessem apostas, a minha escolha iria para a solução rápida da crise, pois não se ganha nada em prolongar a greve, em termos de opinião pública, e esta vertente é muito importante.
A acontecer assim, ficará denunciado o alarmismo irresponsável que rodeou a evolução do conflito. Afinal, não era preciso gastar tanto tempo com fantasias, que só redundaram em benefício do Governo, já em clima de preparação de eleições gerais.


(Por convicção pessoal, o Autor 
não respeita o assim chamado 
Acordo Ortográfico.)  

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Categorias: Opinião

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