Rotas gastronómicas (13)

“A realidade é que é sempre difícil a restauração, porque há muitos altos e baixos”

Ao passar pela Rua dos Mercadores, numa das principais artérias do centro histórico de Ponta Delgada, é fácil perceber que esta é uma das ruas mais movimentadas da cidade devido, acima de tudo, aos vários serviços que ali existem e que estão, em grande parte, ligados à restauração ou ao comércio.
Para além disso, esta é também uma das ruas que beneficia dos cortes ocasionais de trânsito, beneficiando assim a movimentação de pessoas durante as Noites de Verão que, para além de fazerem com que haja uma maior concentração de pessoas no centro histórico, fazem com que os comerciantes, em especial os da restauração, possam criar espaços de esplanada uma vez que estes são muito procurados nos dias e noites quentes.
Apesar de não se qualificar como um restaurante, tendo em conta que são ali servidas bifanas, asas de frango e outras refeições ligeiras, o bar do Clube União Micaelense é um dos espaços mais movimentados naquela rua, até porque todos os dias tem um horário de funcionamento prolongado, uma vez que mantém portas abertas até às 02h00.
De acordo com o responsável pelo bar, e simultaneamente Director Geral do Clube União Micaelense, apesar de este ser um local muito frequentado e procurado pelos locais que ali encontram tanto um local para “iniciar a noite”, para assistir a jogos de futebol ou uma forma de passar tempo entre atletas e dirigentes do clube em questão, há cada vez mais turistas que ali passam de igual modo.
“Aqui temos uma abrangência chapéu para várias idades, temos um público jovem que aqui inicia a noite mas temos também o turista que procura conhecer a nossa cerveja local, que é servida em canecos de alumínio, uma singularidade nossa. Temos também o turista continental que gosta imenso do aspecto acolhedor do bar e da sua tradição e recebemos também amantes do futebol e do clube”, indica Arsénio Furtado.
A presença do turista, diz o director geral do clube, tem sido cada vez mais evidente nos últimos tempos, algo que poderá também dever-se ao facto de no Verão o cliente local se encontrar mais ausente do centro histórico de Ponta Delgada devido ao período de férias, o que, no entanto, não prejudica o negócio, afirma.
Durante o fim-de-semana, conta Arsénio Furtado, há um número maior de clientes, independentemente de serem turistas ou locais, movimento este que, principalmente no Verão, o responsável do bar encara como “normal” uma vez que esta é a altura da semana em que as pessoas têm mais disponibilidade. Contudo, salienta que também durante a semana o movimento de clientes é muito satisfatório.
“Durante o fim-de-semana temos um maior número de clientes, como é normal e como penso que acontece em todos os espaços que existem na cidade porque as pessoas têm mais disponibilidade, mas mesmo à noite, durante o mês de Agosto e mesmo durante a semana não nos temos ressentido com falta de clientes”, explica.
No que diz respeito à presença nas plataformas digitais de divulgação, Arsénio Furtado adianta que o Bar do Clube União Micaelense pode ser encontrado pelos turistas através do TripAdvisor, com uma classificação de 4,6, e também através “de uma página no Facebook que é bastante dinâmica”, diz.
Contudo, o foco principal da organização deste bar está na localização do mesmo, sendo este considerado pelo seu responsável como a sua maior qualidade: “A nossa localização é extremamente importante, há muita gente que passa nesta rua e como este é um bar simpático e apelativo acaba por ter bastante movimento em qualquer altura do ano”.
Em 2013, relembra, ano em que se tornou Director-geral do clube, decidiu que seria também altura de renovar o bar que há mais de 60 anos está localizado na Rua dos Mercadores, sendo esta uma forma de aproveitar a dinâmica criada pelas Noites de Verão e também uma forma de tirar partido da sua localização.
“Historicamente, o bar está aqui há 60 anos. Teve muitos altos e muitos baixos, algumas vezes acompanhou a evolução e outras não e antes de 2013 não estava tão modernizado para as exigências que existiam”, permitindo assim continuar um dos principais objectivos que tinha o bar aquando da sua abertura, o de ser “uma fonte de financiamento extra para fomentar e dinamizar a prática desportiva dos seus atletas nas mais diversas modalidade”, ressalva Arsénio Furtado.
No que diz respeito à animação do centro histórico, principalmente na que existe na Rua dos Mercadores, o responsável pelo bar salienta que estamos perante “um pau de dois bicos”, uma vez que apesar de positiva, a animação não deveria existir apenas nos dias de Verão.
“A animação é um pau de dois bicos. Penso que se consegue fazer cada vez mais e tem que haver uma dinamização maior uma vez que o turista procura este tipo de animação no centro histórico. Mas acho que se tem que fazer mais nos períodos fora das férias porque o turista visita os Açores durante o ano todo”, conclui.

Quando o turista vem colmatar 
a ausência do cliente local

Também na Rua dos Mercadores, desde Dezembro de 2018, é possível usufruir das sandes mais famosas do mundo, nomeadamente as sandes da Subway, através da franquia que é gerida por Vera Amaro e pelo marido, uma ideia que surgiu a partir do gosto por viajar que têm em comum e pelas experiências vividas em países como os Estados Unidos e o Canadá.
Apesar de manterem as suas profissões, Vera Amaro e o marido decidiram entrar em contacto com o representante desta marca em Portugal e, “depois de uma série de entrevistas e de mais um processo de selecção fomos os escolhidos”, seguindo-se, porém, “vários atrasos burocráticos” que os impediram de abrir portas no Verão do ano passado, como teriam previsto.
Este é, por isso, o primeiro Verão da Subway em Ponta Delgada, e de acordo com a empresária esta é a altura do ano em que surgem mais turistas do que propriamente locais, uma vez que, tendo um público-alvo muito jovem, com as férias escolares deixam de ali aparecer os residentes com a mesma frequência. 
“Nós temos detectado que, enquanto no Inverno os nossos clientes são maioritariamente locais, na época de férias nota-se um decréscimo nas pessoas que trabalham no centro da cidade, algo que é influenciado também pelo facto de as escolas estarem de férias, e uma vez que o nosso público-alvo é muito jovem, acabamos por ficar um pouco afectados por isso”, diz Vera Amaro.
No entanto, esta é “uma falha que é compensada pelos clientes turistas”, adianta, até porque estes já estão amplamente familiarizados com o conceito da marca e com os produtos que esta tem a oferecer, uma vez que se estende por diversos países a nível mundial.
Há também uma diferença entre o período de jantar e o período da hora de almoço: “Ao jantar já notamos uma quebra, por isso sabemos que o nosso forte é o almoço. A quebra aos jantares dá-se de forma mais acentuada no Inverno porque na cidade de uma forma geral estão a circular menos pessoas na cidade”, o que se torna ainda mais notório tendo em conta que o espaço encerra entre as 22h00 e a 00h00, aos fins-de-semana.
“O nosso horário é o mesmo, estamos abertos até às 22h00 durante a semana e à Sexta e Sábado abrimos até à meia-noite, independentemente de ser Verão ou Inverno, é a política de horário que temos sempre mantido. Ao fim-de-semana, pelo menos à noite, nota-se que há mais pessoas que aqui passam e que cá vêm também depois das 22h00, por isso ainda acaba por compensar”, adianta.
Ao longo dos últimos oito meses, salienta a empresária responsável por esta franquia em conjunto com o marido, o negócio tem correspondido às expectativas do casal, no entanto é lançado o apelo para que sejam trazidos mais eventos ao centro histórico de Ponta Delgada para que ali circulem mais pessoas.
“Claro que não podemos ter festas brancas todos os dias mas precisávamos de eventos que pudessem trazer mais pessoas à cidade porque é a maior falha que, aos nossos olhos, parece haver no centro histórico”, diz Vera Amaro, explicando que, na sua perspectiva, as pessoas optam cada vez mais por ir ao Parque Atlântico, contribuindo assim para a desertificação do centro histórico.
Também a dispersão na animação é algo que preocupa o casal, apesar dos benefícios de que usufruem por terem um restaurante numa das principais artérias da baixa, uma vez que sempre que esta animação é mais distante “as pessoas acabam por ficar lá e por não virem cá”.

“Amealhar no Verão para resistir 
ao Inverno”, tal como as formigas

Para quem prefere comida mais tradicional pode, na mesma rua, dirigir-se ao Arco da Velha, restaurante que desde há oito anos é gerido por Rosa Melo, uma faialense que agarrou as oportunidades existentes em São Miguel, e que optou por manter todo o visual que foi deixado no espaço.
No início, recuando oito anos, a empresária conta que foi difícil criar alguma estabilidade no negócio e na oportunidade que decidiu abraçar, abrindo assim portas diariamente para que quem ali passe possa conhecer um pouco melhor a comida que se faz em Portugal.
Porém, salienta que na restauração há muitas variações, uma vez que “a realidade é que é sempre difícil neste meio, há muitos altos e baixos mas acredito que não sejam só para mim, acredito que aconteça a todos, mas já se sabe também que no Inverno o ritmo baixa muito”.
Apesar disto, enquanto os clientes chegam, Rosa Melo adianta que a maior parte deles são turistas que enchem a ampla sala de refeições tanto ao almoço como ao jantar. Contudo, mesmo sendo difícil prever a adesão existente, a faialense revela que às Segundas-feiras o almoço “costuma ser relativamente bom”, havendo sempre a condicionante do tempo e das actividades que as pessoas optam por fazer para ocupar o seu dia.
 “Se está muito bom tempo as pessoas afastam-se todas do centro da cidade e o almoço fica para onde vão, mas tem outros dias em que penso que as coisas não estão a bater certo porque mesmo com bom tempo as pessoas vêm cá, varia muito e eu não sei explicar porquê”, diz.
Quanto ao cliente local, a empresária refere que este aparece com maior frequência na hora de almoço, tendo em conta os serviços que se desenvolvem ali perto, e que este é também presença assídua noutro tipo de ocasiões, como por exemplo nos jantares de grupo, sendo o mais marcante o dos Tunídeos, “que todos os anos fazem aqui o seu jantar de aniversário e nessa noite o espaço é todos para eles”.
Apesar da boa localização e da publicidade que faz do seu espaço, Rosa Melo salienta que no Verão se sente a desertificação do cliente local no centro da cidade, sendo por isso “fundamental a presença do cliente turista para manter as portas abertas, mas penso que todos acharão o mesmo que eu em relação a isso”, aponta a empresária.
Em suma, para além de considerar que “no Verão é preciso amealhar como a formiga para resistir ao Inverno”, Rosa Melo afirma também sentir “dificuldade em encontrar pessoas para trabalhar”, uma necessidade que tem neste momento e que está a ter dificuldades em colmatar.

 

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