Biodiversidade de moluscos terrestres nos Açores comprometida por alterações climáticas

A 20 de Agosto, na ilha de Santa Maria, no Centro de Interpretação Ambiental Dalberto Pombo, será lançado o guia de campo intitulado “Moluscos terrestres e de água-doce dos Açores”, elaborado pelo professor António Frias Martins e tendo como principal objectivo apresentar a mais recente listagem ilustrada destes moluscos nos Açores, dando a conhecer as espécies que existem, as que estão ameaçadas de extinção e, também, algumas das que se encontram já presumivelmente extintas.
De acordo com o autor deste desdobrável, indicado tanto para açorianos que queiram conhecer um pouco melhor a malacologia nos Açores, como para cientistas, esta iniciativa é também uma forma de “conhecer melhor Santa Maria, uma vez que há espécies que estão a desaparecer”, dando assim a conhecer um total de 122 espécies de moluscos, dos quais 53 são espécies endémicas.
No entender do investigador especialista em malacologia, a diminuição ou extinção das espécies em causa, estará relacionada, principalmente, com as alterações climáticas, adiantando que “é devido às alterações climáticas que alguma coisa está a acontecer que não está a ser favorável para as espécies pequenas e, sobretudo, para as espécies endémicas”.
Segundo António Frias Martins, “nota-se uma diminuição drástica sobretudo na abundância dos micro-moluscos em quase todas as ilhas e também em lugares que não foram praticamente tocados pelo homem”, salientando que as alterações do clima “vieram criar problemas acrescidos devido ao facto de os habitats não estarem preparados para aguentarem estas alterações devido à acção humana”.
No caso da ilha de Santa Maria, o que poderá condicionar o desaparecimento de certas espécies deverá estar também relacionado com “a introdução de espécies arbóreas, como o incenso e a criptoméria”, uma vez que “a fragmentação dos habitats enfraqueceu a resiliência das espécies, isto é, as capacidades que as espécies criam para sobreviver a algo mais grave e global”.
Apesar dos efeitos do aquecimento global e outras formas de poluição “não serem detectáveis à escala do ser humano”, a realidade é que, indica o autor deste documento, estes podem “de forma subestimada, comprometer as tentativas para uma recuperação oportuna, uma vez que o cronograma da natureza não se adequa no tempo de vida dos humanos”.
Um dos principais sinais de alerta, salienta António Frias Martins, está no facto de terem sido recolhidas espécies durante os anos 90 que há mais de dez anos não são encontradas nos Açores, levando a crer que “se terão, aparentemente, extinguido”, tendo também em conta que “a diversidade da malacofauna terrestre dos Açores, medida em números de espécies, ou o seu sucesso, avaliado pela saúde das suas populações, tem vindo a diminuir nas últimas quatro décadas.
Segundo o especialista em malacologia e investigador, a diminuição das populações de moluscos terrestres e de água-doce nos Açores “tem sido comummente atribuída ao desaparecimento de habitats adequados, transformados em terras agrícolas produtivas”, e “embora em alguns casos seja inegável que a actividade humana local é a influência directa nesta deterioração, outras situações imploram por uma causa mais profunda”, pode ler-se no documento que será apresentado na próxima semana.
Como exemplo destes casos onde não há influência directa de humanos, está a Caldeira de Santa Bárbara, na ilha Terceira, uma vez que este é um local “protegido de perturbações antrópicas directas significativas”, e que aí a diminuição de moluscos “só pode ser explicada por mudanças globais de nível superior que afectam térmica ou quimicamente os ecossistemas”.
No entanto, não é esse o caso de Santa Maria, considerada pelo antigo professor da Universidade dos Açores como “a jóia da malacologia açoriana” devido, principalmente, à sua idade, uma vez que, conforme foi referido no início desta reportagem, espécies novas que foram colectadas nos anos 90 entraram, entretanto, em extinção.
“A ilha de Santa Maria, a jóia da malacologia açoriana, foi gravemente atingida por este problema. A sua idade (~8 milhões de anos) torna-a única no arquipélago. Tem tantos endemismos insulares (17) como todas as ilhas restantes juntas. As colecções feitas na década de 1990 reuniram muitos novos táxons, alguns já descritos, incluindo um novo género para a espécie Lazarus Moreletina Obruta, relatado anteriormente como fóssil, mas agora encontrado vivo”, pode ler-se no desdobrável.
“A tragédia, no entanto”, prossegue o autor no documento, “é que pelo menos três dos endemismos insulares descritos, bem como algumas das espécies ainda não descritas, estão supostamente extintos, pois a investigação intensiva nessa pequena ilha nos últimos 20 anos não conseguiu captar nenhum animal ou mesmo conchas mortas”.
Por outro lado, também a raridade das espécies que foram encontradas nos últimos levantamentos realizados indica que muitas outras espécies endémicas estão actualmente seriamente ameaçadas de extinção.
Para além disso, há também que considerar “o tamanho da ilha, a fragmentação do habitat, a redução de áreas florestais endémicas e a ausência de zonas de protecção em torno das áreas protegidas”, uma vez que estes são factores que “contribuem para a deterioração das condições adequadas para o bem-estar da preciosa malacofauna desta área única”.
É por este motivo que António Frias Martins afirma que “o povo de Santa Maria deve ser o primeiro a valorizar este tesouro e a influenciar aqueles que estão no poder para implementar medidas eficazes para mitigar essa perda irreversível”, adiantando que os marienses devem “orgulhar-se do seu património natural único e usá-lo como uma bandeira para promover a ilha de forma sustentável e ecológica”.
A criação e divulgação deste desdobrável funciona assim como uma forma de “tentar dinamizar a população para que esta se interesse mais pela sua ilha, uma vez que mais do que os cientistas é primeiro a população que tem que se interessar pela sua ilha, para depois disso poder apresentar uma proposta aos governos para olharem de maneira diferente para esta ilha, não para que se façam lançamentos para o espaço mas para olharem para onde põem os pés”, explica António Frias Martins.

O “tesouro” da malacologia nos Açores

No desdobrável elaborado pelo investigador, adianta-se ainda um pouco da história da malacologia nos Açores, adiantando-se que o primeiro molusco terrestre foi descrito em 1848 por Augustos A. Gould, graças ao material que teria sido recolhido dez anos antes durante numa expedição não planeada em São Miguel, feita pelo capitão americano Charles Wilkes. Quanto ao primeiro estudo sobre moluscos terrestres realizado nos Açores, este ocorreu em 1857 e foi o resultado de uma expedição com seis meses de duração comandada por dois naturalistas franceses, Arthur Morelet e Henri Drouët.
No Departamento de Biologia da Universidade dos Açores – Moluscos Terrestres, adianta o documento, algumas das espécies descobertas desde 2011 foram já descritas, mas actualmente, o material depositado no departamento tem ainda 40 espécies que ainda aguardam uma descrição adequada.
Assim sendo, afirma António Frias Martins, “a riqueza do material não publicado revela a importância científica da colecção do Departamento de Biologia da Universidade dos Açores, e por isso necessita de atenção para a sua urgente necessidade curatorial”, uma vez que falamos de um “tesouro que está a desaparecer” devido àquela que é chamada de “sexta crise de biodiversidade, amplamente anunciada como aquela que tem ocorrido com o rápido desaparecimento de espécies vertebradas”.
Assim, estarão em perigo os “pequenos animais e plantas, principalmente as endémicas, que muitas vezes são estreitamente adaptadas a um nicho e, portanto, restritas na sua capacidade de resposta a perturbações repentinas”. 

Joana Medeiros/João Paz
 

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Autor: CA

Categorias: Regional

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