Luís Franco lançou o livro ‘O ESCUSADO De menino a ancião’

“Afinal a reacção passara ou não?”

 Luís de Vasconcelos Franco escreve no livro que lançou ontem em Ponta Delgada, que a FLA “nunca teve um chefe, mas muita gente gostaria de o ter sido” e no seu entender, “isso dificultou sempre um procedimento coerente entre os independentistas açorianos”. Uma revelação que não é pacífica num livro intitulado ‘O ESCUSADO De menino a ancião’, que é uma autêntica ‘pedrada no charco’ sobre a manifestação do 6 de Junho, as prisões de 9 de Junho e os acontecimentos que se sucederam e levaram à Autonomia Política Administrativa dos Açores.
No prefácio, Américo Natalino de Viveiros define o “O Escusado”, como a história de vida Luís Vasconcelos Franco que escreveu em mais de 350 páginas, compondo um livro que bem podia chamar-se “A Odisseia de um Aventureiro”.
“Luís Franco é um fazedor de coisas e, como tal, procura sempre transformar os sonhos em realidade. O seu ímpeto empreendedor fez com que a vida se tornasse numa aventura constante, e chegado a este ponto, o menino que agora se sente ancião, apresenta-se como memória viva do caminho até agora percorrido”, escreve Américo Natalino de Viveiros. 
“De forma eloquente, salpicada de humor, narra, ao longo do livro, o seu “escusado” nascimento, a vivência familiar, a infância que teve, as irreverências próprias da juventude, a partida das ilhas, o tempo de estudante, a diversão e a vida boémia com os amigos, o primeiro trabalho que abraçou e os negócios que desde cedo empreendeu”. 
 Dá-se, entretanto, o 25 de Abril, e nesse contexto revela a sua queda para a política, embora não se tenha envolvido na via partidária.
“A sua participação política activa ficou circunscrita à participação que teve na Frente de Libertação dos Açores (FLA), e é pena que tenha ficado por aí…”, realça Américo Viveiros.
“Luís Franco foi um dos presos do chamado “6 de Junho” e, por via disso e pela militância que teve na organização, conta de forma detalhada a sua envolvência no processo independentista e na FLA, realçando o papel por ele desempenhado na organização. Recorda momentos arrebatadores de um período que foi um sonho vivido por inúmeros Açoreanos”, comenta..
 Como refere no prefácio de “O Escusado”, “é mais do que uma história de vida, porque ao descrever retalhos da sua vida de menino, moço e agora ancião, Luís Franco inclui vivências e factos em que intervieram muitos amigos e outros conhecidos”. 
“Luís Franco sabe conservar a amizade, e este é um dom que permite fazer e manter pontes que ajudam a ultrapassar as tempestades da vida. Assim se revelam os homens bons!”, completa.

A FLA “nunca teve líder”

Luís Franco, antes de mais, está convencido que ainda não se contou a verdadeira história sobre o 25 de Abril. Escreve no livro que “talvez um dia, quando desaparecerem os historiadores contemporâneos, que se limitam a narrar casos circunstanciais, curiosamente tão convenientes às suas ideologias, a História esclareça, com um pouco de lógica, o ambiente de saturação envolvente e que, provavelmente, levou o Professor Marcelo Caetano a concordar com o Golpe de Estado. A Revolução, essa só depois do 28 de Setembro começaria a impor-se”.
 Diz que não sabe de quem partiu a ideia da manifestação do 6 de Junho. “Julgo que foi assinada por Luís dos Reis Índio, Armando Goyanes e Gil Massa Cordeiro, todos membros da Associação”.
Revela que, no dia 28 de Maio de 1975, “depois de um óptimo jantar de amigos em casa do Eugénio António Câmara, o Hermano Mota, o Luís Fernando Cymbron, que entretanto trabalhava comigo na Viçor, e eu próprio, saímos convictos de que a melhor maneira de despertar os lavradores para a manifestação pedida para o próximo dia 6 de Junho, era causar um acontecimento que lhes provocasse a curiosidade e os fizesse vir à Associação (Agrícola) esclarecer o assunto. (…)
“E se nós enforcássemos um vitelo em plena Feira de Gado? Seriam talvez duas horas da manhã. O mercado de gado começava às oito horas. Não tínhamos muito tempo. Metemo-nos no Land Rover e rumámos aos viteleiros da Viçor”(…).
 “Agarrámos numa corda, no papelão com a mensagem, carregámos o pobre animal já sem vida e voltámos para Ponta Delgada.
“A Feira de Gado, o «Campo das Reses» como era conhecido, ficava em São Gonçalo onde é hoje o parque de estacionamento da Universidade (antes de escrever estas linhas estive lá parado a olhar para o portão de acesso e para os muros circundantes). Por acaso, naquela noite, o portão estava aberto. Com alguma dificuldade dependurámos o bezerro, que teria uns setenta quilos, numa das árvores mais centrais, a parecer que fora enforcado. A encimar o cadáver, uma inscrição vaticinava: «O Fim da Lavoura Açoriana»”.
A manifestação, que não foi autorizada, acabou por se realizar. “No dia 6 de Junho, na data prevista para a manifestação, a cidade estava diferente. Na Associação (Agrícola) juntavam-se centenas de pessoas. Começou a manifestação, surgiram cartazes. Um deles tinha graça e era verídico: «O Povo é quem mais ordenha».”

Luís, um observador atento…

“Passámos pela escola abaixo da Associação Agrícola, as crianças e as professoras juntaram-se, na Rua da Misericórdia o número de pessoas engrossou e um rapaz, montado num burro, pôs-se à frente. Que ideia engraçada”, descreve Luís Franco.
“O burro e o seu burriqueiro, (Víctor Almeida, hoje Presidente da Junta de Freguesia dos Fenais da Luz), de chapéu de abas largas, continuavam à frente. Pela Avenida juntavam-se em fila camiões carregados de madeira, alguns tractores e mais gente”. 
“Ao passar junto ao Tribunal, surgiram de um depósito de ferro velho, ali existente na data, imensos cartazes. O Gualberto Cabral integrava-os na manifestação”. 
“Já não eram só os lavradores a reclamar, nem os comerciantes que se tinham associado, nem os mateiros com os seus camiões carregados, nem os estudantes sempre prontos a encarar generosa mente novas ideias e oportunidades: era a população em geral que se manifestava também”.
E recorda Luís Franco: “Lembro-me de ter hesitado quando os primeiros manifestantes, em que eu me incluía, passaram em frente à antiga «Rosa D’Ouro». Uma série de militares armados pretendiam evitar que a manifestação chegasse ao Governo Civil. A meu lado, o senhor Manuel da Silva Cordeiro gritou-me: - Deixe andar, as mães logo à noite tratam-lhes da saúde! Assim foi, ninguém se atreveria a dar um tiro contra milhares de pessoas. E se alguém se atrevesse?”
O autor do livro descreve, depois os momentos vividos em frente ao Governo Civil e a atitude do General Altino Pinto de Magalhães. O General, recorda o autor, “percebeu rapidamente a grande cartada que se estava a jogar para minar o governo comunista do louco Vasco Gonçalves. Além do mais, os manifestantes haviam apresentado uma lista de reclamações com as quais ele concordava. Como representante máximo das Forças Armadas, detentoras e garantes da Ordem Revolucionária, era a ele que cabia decidir os passos a seguir. Dirigiu-se à janela do Palácio do Governo. Em poucas palavras garantiu que iria imediatamente tratar do assunto, a contento dos manifestantes. Ignorou os gritos de Independência e fingiu não ouvir os pedidos para ele próprio tomar uma posição nesse sentido. O Governador Civil sentiu-se desautorizado”.
“O ambiente estava muito tenso”, recorda. (…) O Manuel Oliveira, na varanda, de megafone em punho, incitava cada vez mais o grupo independentista”.
“Fui à varanda, pedi silêncio e dirigi-me à multidão”, prossegue. “Tinha a ideia de que em política é necessário «jogo de cintura». Estávamos a pressionar um Governador Militar que tinha  um milhar de homens armados às suas ordens. Era imperioso afastar o cariz reaccionário e fascista que poderia ser aposto à nossa manifestação. Isso só dificultaria a legítima obtenção dos benefícios pretendidos.”
“Numa breve pausa da gritaria, elogiei o êxito da nossa manifestação…”, conta.
  O Governador Civil acabou por pedir a sua demissão: “Uma salva de palmas coroou as suas palavras. Era um utópico romântico... mas eu simpatizava bastante com ele”, refere Luís Franco.
Depois veio os acontecimentos no Emissor Regional, no aeroporto e pronto. “O «6 de Junho» foi numa quinta-feira. Passou-se a seguir uma sexta-feira normal, até porque havia imensa coisa a tratar”.
 
A prisão, segundo Luís Franco

“Pela madrugada de 9 de Junho um grupo de marinheiros armados irrompeu pelo jardim da casa da Atalhada, onde eu morava com a minha família. Bateram com violência à porta. Nem sei se a arrombaram, se alguém a abriu, ou se simplesmente estava no trinco. Lembro-me que o jardim estava cercado. Era um «golpe de mão», como eu tantas vezes ensinara os meus soldados a fazer”, recorda Luís Franco.
 “De armas aperradas revistaram a casa. Felizmente a minha filhinha continuou a dormir. Com voz de comando mandaram-me vestir. Os meus cães, o casal de magníficos setters ingleses que o António José Amaral mandara vir de Espanha, ladravam assustados. Os garbosos militares, com medo dos pobres bichos, apontavam-lhes as armas. A Graça, em camisa de noite, assustadíssima, tapava o peito com os braços em X”.
“Vesti-me à pressa. Um homem descalço e nu é só meio homem!”
“Era suposto ir prestar declarações ao Quartel-General. Meteram-me num carro militar e seguimos para Ponta Delgada. O carro celular passou junto do Quartel-General e seguiu para a doca. Parou junto ao navio Schultz Xavier.”
“Era um navio da Armada que dava assistência aos faróis. Empurraram-me para o portaló. Não se viam os tradicionais marinheiros impecavelmente fardados a receber os convidados.”
“Não havia navio de guerra que passasse em Ponta Delgada para o qual eu não fosse convidado. Mas, desta vez, não era um jantar nem um cocktail. Hoje pensaria num brunch... Entrei a bordo e encaminharam-me para a sala principal do navio. Já lá estavam os outros vinte e seis conhecidos e amigos que iriam navegar, a convite das «gloriosas Forças Armadas», as tais que se preparavam para fugir de África de rabo alçado, abandonando populações indefesas que lhes tinham sido fiéis e até camaradas de armas”.
“Não vou falar, pelo menos por agora, dessa tristíssima página da História de Portugal”. 
“Não teriam os Açorianos também direito a ser livres para escolher o seu destino? Não tinham, ao longo dos séculos, manifestado sempre esse desejo?”
“Não constituíam um povo com características bem definidas, moldadas pela diversidade de culturas dos seus colonizadores e pela terrível insularidade que, para bem e por vezes para mal, lhes marcara indelevelmente o carácter e o seu modus vivendi?”
“Enquanto me empurravam para o chão para junto dos outros, alguns já meio adormecidos por horas de espera, eu era assaltado por pensamentos contraditórios. E a nossa História?”, questiona no livro.
“O navio zarpara. Notei que o comandante nem nos veio dar uma satisfação. Quem seria ele? Um velho amigo agora apanhado nas teias da Revolução? Ou um fanático comunista, feliz por estar a transportar para o degredo este grupo de fascistas e reaccionários?”
“Hoje, tantos anos volvidos, depois de uma longa experiência de vida, concordaria com ele: naquele navio ia uma bela colecção de reaccionários”, conclui no livro.
 
Ainda a prisão

Como descreve Luís Franco no livro, “mesmo nos momentos mais sórdidos há situações engraçadas. Aqui não faltaram!”
 “O Carlos Melo Bento, agasalhado, deveras abalado e enjoado, enroscara-se a um canto. Outros dormitavam. O navio rolava ao sabor das ondas. Subitamente apareceu o Major Caçorino Dias, antigo herói da guerra do Ultramar, quase cego por uma mina anti-pessoal e spinolista assumido. Era o Chefe do Estado Maior em Ponta Delgada e certamente um patriota. Queria começar logo as averiguações sobre os acontecimentos do dia 6 de Junho. Não sei se ao acaso, chamou o Gualberto Cabral. Talvez pensasse que seria presa fácil. O Gualberto, infelizmente já falecido, dispôs-se a falar. A pergunta do Major foi parabólica: - Então senhor Gualberto Cabral, diga-me lá, onde estão as «lagostas» (armas)?”
“O Gualberto respondeu rápido, numa rajada, com aquela sua voz tão característica e a sua pronúncia, propositadamente carregada: - Eh senhô eu não sei... eu sou regente agrícola, não sou pescador! Quando ele nos contou o resultado do inquérito, explodimos em gargalhada”, escreve.
“A viagem continuou. O balanço, após a passagem da Ponta da Ferraria, acentuou-se, o navio deixara de estar abrigado pela costa de São Miguel. Horas depois, arribámos a Angra do Heroísmo. Uma coluna militar esperava-nos. Era suposto irmos para o Quartel General, no Monte Brasil, por não haver instalações para nós em Ponta Delgada. Fomos acomodados em viaturas militares fortemente escoltadas. Um grupo de esquerdistas «ladrava-nos» no cais: - Um dois três, fascistas pó xadrez!”
E Luís Franco continua: “A coluna onde nos transportavam afastou-se da doca e dirigiu-se precisamente na direcção contrária ao Monte Brasil. Dentro de poucos minutos estávamos às portas da cadeia de Angra. Ainda hoje não sei onde arrecadaram os presos que lá estariam. Foram enchendo as celas. Encaminharam-me para uma. Fiquei sozinho. Não era muito apertada. A um canto, logo à entrada da porta, um balde com água para servir de latrina. Ao fundo, por baixo da janela alta e com grades, uma pequena cómoda e uma cadeira, ambas em madeira. Na gaveta, restos de pão do preso acabado de sair. Uma cama de rede de arame, uma almofada sem fronha e uma manta, tipo acampamento da tropa, completavam o mobiliário. No tecto, uma lâmpada dependurada”. 

“Lá fora os guardas ladravam”

“Lá fora”, prosseguiu,  “os guardas «ladravam» algumas ordens. Eu, deitei-me. Que podia fazer? Para já, esperar pelo almoço. Estava cheio de fome... A seu tempo serviram-nos o almoço, que não era mau: rancho da tropa que havia sido muito melhorado após a Revolução. Não me lembro se comíamos juntos ou separados. Lembro-me de um oficial miliciano que comandava dia sim, dia não, os soldados de guarda, se referir a nós como «cães». O outro era bom rapaz e deixou-se ficar a viver no Pico após a tropa. (…)”
“Existiam dois grupos que estavam em celas comuns. Era uma paródia: jogavam às cartas, contavam anedotas e iam combinando as mentiras a dizer aos investigadores. A minha mulher visitou-me logo no segundo ou terceiro dia. Levou-me livros para ler e cheques para assinar”, lê-se no livro. (…)
“Os dias foram passando. As preocupações com os meus negócios sem o meu controlo eram terríveis. Tinha milhares de cabeças de gado para tratar, mais de cem vacas leiteiras, obras na casa do Agrião e muitos pedreiros a fazer e modificar os viteleiros. Na Cetalme, agência da Ford, havia sempre muitos contratos para assinar e sobretudo muitos ordenados para pagar”. (…)
 “Depois, os meus companheiros foram sendo libertados. Finalmente saí do meu isolamento. As duas celas colectivas já estavam vazias. Agora já se estava melhor. Ainda estava preso e todas as exigências feitas na manifestação já haviam sido concedidas. Só faltava a da Independência, mas essa seria uma arma de constante pressão até ao dia 25 de Novembro e, depois, na consolidação da Autonomia.
Afinal a reacção passara ou não?”.
 E no regresso a Ponta Delgada: “Não estávamos muito convencidos mas, pelo sim pelo não, combinámos com o Eduardo Pavão, que era piloto da SATA, que se o avião não se fizesse à pista em São Miguel, dominaríamos os guardas e rumaríamos às Canárias. Não foi necessário.
Aterrámos em São Miguel e fomos recebidos de mão estendida pelo General Altino de Magalhães. Fiquei com a residência fixa durante meses, mas isso não me impediu de continuar as minhas actividades empresariais e políticas”.

Excertos do livro ‘O ESCUSADO 
De menino a ancião”, de Luís 
Vasconcelos Franco


 

Print
Autor: CA

Categorias: Regional

Tags:

x
Revista Pub açorianissima