15 de agosto de 2019

Arqueologia em Vila Franca do Campo III

O prato heráldico

Numa das campanhas de Sousa de Oliveira, nos anos 70, em Vila Franca do Campo, foi encontrado um fragmento de faiança do séc. XVII, onde constam umas armas de família. 
Ora o prato integral é absolutamente comum e representa uma tendência, iniciada nos finais da primeira metade do séc. XVII, numa altura de revolução – a Restauração. 
É por isso relevante em arqueologia o estudo das cerâmicas. Não pelo valor material ou comercial, mas pelo valor científico: o que é, de quando ou de onde é e o porquê de assim ser.
Por ser frequente o seu aparecimento em trabalhos arqueológicos, a cerâmica, as suas formas, as suas decorações, e outros elementos, são a fonte mais recorrente. 
As louças representam tendências. “Modas”, digamos assim. E essas modas são voláteis, dado que se vão alterando com os tempos. Tal como hoje. 
Ora se as modas nos dão dados de tempo, permitem aferir cronologias genéricas. Por conseguinte, permitem datar: o objeto e o contexto onde foi encontrado.
Sempre houve a louça dos ricos e a dos pobres. Sempre houve a louça de cozinha e a louça de servir. E a de decorar. Sempre houve a louça individual (ex. tigelas) e a louça coletiva (ex. terrinas).
E quando isso é transposto para uma análise arqueológica fornece informação de dinâmicas e dimensões económicas, sociais, domésticas, comerciais. E, em geral, quanto mais próxima a época dos nossos dias, maior o registo escrito disponível e melhor calibradas serão as conclusões. Quando a História é ciência auxiliar da Arqueologia, portanto. 
A tendênciaaludida é que este estilo de prato decorativo foi uma moda a partir da altura, que corresponde a uma generalização do consumo de faiança, do aumentoda sua procura e, por conseguinte, a sua produção. Da mesma forma, a qualidade da sua execução foi decrescendo.Passou a haver pratos heráldicos em casa de (quase) toda a gente, quando a ostentação pública de brasões era ainda restrita e um privilégio. Adulterou-se o contexto e, por inerência, o conceito. Algo que tende a ocorrer em períodos de revoluções.
Aliás, bem visto, o prato tanto pode ser dos “Silvas” como dos “Bettencourts”, como dos “Castel Branco”. Expliquemos.
No campo do escudo apresenta-se um leão, rampante, azul, sob fundo branco (“prata”, em heráldica). No entanto, na execução da faiança da época, só se recorre pictoricamente a essas duas cores (azul e branco). O leão dos “Silvas” é púrpura. O dos “Bettencourts” é preto. O dos “Castel Branco” é amarelo (“ouro”, em heráldica). Mas como a faiança só usa azul e branco, é como se fosse uma fotocópia a preto e branco de uma fotografia a cores. Não se permite identificar, com rigor, qual a família a que corresponde o brasão devido à indefinição cromática.
Na mesma altura em que se estreitam as relações entre Portugal e Inglaterra, no dito período da Restauração, estes pratos surgem nas ilhas britânicas e influenciam as produções locais. Em Lisboa, elevam-se várias reclamações, perante os fabricantes de faiança, e mesmo perante as tabernas onde se usavam as louças, “que já não havia decoro nem decência”, visto que qualquer um já usava pratos heráldicos. Acontece também por cá e em todo o Império Português.
Enfim, a usurpação da identidade. O ensaio popular de grandeza. A moda, sempre na moda, de se tentar, por imitação ou extrapolação, ser o que não se é. Tudo num (fragmento de) prato.
 

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Categorias: Opinião

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