15 de agosto de 2019

Qual a porta que Pacheco saiu do Santa Clara?

A DECISÃO MAIS DIFÍCIL - Calculo que o pedido apresentado por Pedro Pacheco para sair do Santa Clara tenha sido a decisão mais difícil que tomou em 24 anos de carreira desportiva. 
O Clube Desportivo Santa Clara foi a sua casa desde que nasceu, fruto da família a que pertence. O avô, o pai António, ex-atleta do clube, o tio João, ex-dirigente, tiveram e têm uma forte ligação ao clube.
Como atleta foi por lá que Pedro começou. São 19 anos, 12 no escalão sénior. Houve quatro interrupções quando representou o Vitória do Pico da Pedra, o Lusitânia, o Nacional da Madeira e o Operário, o único clube onde esteve mais do que um ano.
Desde que a 11 de Janeiro foi substituído no jogo com o Benfica no estádio de São Miguel, nunca mais voltou a jogar e a ser convocado pelo treinador João Henriques.
As razões só o treinador sabe. Não estão em causa a idade, a dedicação nos treinos ou o comportamento no seio do grupo.
Comenta-se muito sobre a forma como o treinador riscou dos eleitos os atletas açorianos. Realmente constatou-se que deixaram de contar na segunda volta do campeonato. Admito que as opções tácticas tenham sido a razão prioritária. Mal está um treinador que coloca factores extra futebol à frente dos factores que possam representar o melhor para o desempenho da equipa que orienta. 

FICAR PELA MANUTENÇÃO DA IDENTIDADE - A SAD do Santa Clara ao convidar Pacheco a renovar contrato sabia que muito dificilmente voltaria a aparecer quer no “onze” inicial, quer nos dezoito convocados. Fê-lo por um acto de justiça, por um acto de ter no grupo a identidade, a resiliência que cada vez mais os clubes não têm e que tanta falta fazem.
Pedro Pacheco também sabia que não seria opção do treinador João Henriques. Sabia que nem mesmo numa situação de grande aperto seria a solução momentânea. 
São opções que se respeitam, partindo eu do pressuposto que o respeito foi mútuo. 
Aceitou renovar por mais um ano porque pretendia terminar a carreira no clube que sente, que pugna, que chora, que vibra, que o entristece e que o alegra. 
Aceitou renovar o contrato porque seria uma peça importante para transmitir aos forasteiros toda a envolvência de um clube que representa toda uma Região com especificidades muito próprias. 
Era, também, a oportunidade de ter uma despedida como tiveram-na os companheiros Paulo Clemente e Danilo Accioly, com os adeptos a tributarem a ovação mais do que merecida ao eterno “capitão” da equipa.
Ao não ser inscrito, por determinação do treinador que elegeu os 27 que pretende estejam ao dispor, Pacheco percebeu que tinha chegado ao fim a ligação ao clube. 
Estar a treinar e a receber o ordenado não vão ao encontro de pessoas com a espinha dorsal vertical. Fazer número não lhe agrada. Nem esperou pelo final do mês para ver se havia alguma lacuna no grupo que o promovesse ao grupo dos inscritos. 
Fartou-se. Pediu para sair. Um dia, mais tarde, se houver alguém que o entreviste, poder-se-á ter conhecimento das verdadeiras razões deste abandono. Agora, o que disser entra no politicamente correcto. 

“O ÚLTIMO MOICANO” - Pedro Pacheco é o último moicano do Santa Clara. Era, no grupo de atletas, aquele que lutava a favor do seu povo (leia-se clube), era a última esperança da tribo.
Por isso, a saída quebra mais uma identidade açoriana no clube, agora cingida no lote dos jogadores ao graciosense Nené. 
Compreendo que neste nível de competição não há lugar aos jogadores dos locais A, B ou C, mas sim aqueles que, dentro das capacidades dos clubes e das capacidades como homens e como atletas servem para as metas desejadas.
Porém, sendo um clube de uma Região com especificidades muito próprias, a identidade é importante. O povo sente-a, como sentia quando, recentemente, Pacheco, Clemente ou Minhoca substituíam ou quando eram substituídos.
A identidade açoriana até na estrutura profissional está reduzida. Ainda no jogo que assisti, no Jamor, com o Belenenses SAD, Paulo Clemente representava-a como director. De resto, era o Nené, ainda pouco conhecido do público, o Emanuel Melo, assessor da comunicação, e o técnico de equipamentos. Desconheço se o corpo médico tem gente de cá.

PORTA GRANDE - Já se questiona se Pedro Pacheco saiu pela porta grande ou pela porta pequena. Afirmo, sem rodeios, ter saído pela porta grande do Santa Clara. A postura como atleta e como homem e o que conquistou, superam tudo o que envolveu este pedido de partida 
Aos 35 anos de idade, com a qualidade e com a experiência acumulada de tantos e tantos anos nos principais campeonatos, o Sporting Ideal ganhou, quer dentro quer fora do campo, um reforço de elevada dimensão. Ser-lhe-á  muito útil para a prova que pretende cumprir.
Espero que a mais do que merecida homenagem e despedida a Pacheco não fique esquecida, como ficaram a de outros jogadores que tiveram uma forte e longa ligação ao Santa Clara.

 

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Categorias: Opinião

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