Casal de emigrantes gere snack-bar com o único propósito de ajudar a família e amigos

Natural da Guiné-Bissau, Pinto Djassi acabaria por visitar os Açores pela primeira vez aos 25 anos de idade, acabando entretanto por se apaixonar, tanto pela terra que tanto lhe teria para oferecer, como pela futura esposa, Celestina Corona Alice, natural de Cuba, com quem gere hoje o M Caffé com o principal objectivo de ajudar a família que continua a viver tanto na Guiné como em Cuba.
“Temos o café já há três anos com o intuito apenas de ajudar a família, porque quando eu saí da Guiné saí como emigrante e na condição de arranjar melhores condições de vida para mim, para a minha família e para os amigos que deixei lá, por isso vamos fazendo o que podemos”, explica.
No entanto, e apesar das boas intenções que partem do casal, nem sempre é fácil responder a todos os apelos que surgem muito frequentemente, uma vez que para além das receitas geradas pelo snack-bar localizado na Rua do Brum, há também despesas que têm que ser tidas em causa e que fazem com que esta seja “uma luta diária” do casal que acaba por exigir muito do tempo que têm disponível, considerando que cada um tem também o seu emprego fixo.
“Para além de pagarmos renda, de termos despesas com fornecedores, finanças e segurança social ainda tentamos ajudar a nossa família, e por isso temos que estar aqui todos os dias. É uma vida de muito sacrifício em prol da nossa família”, diz Pinto Djassi.
Os sucessivos pedidos de ajuda existem pelo facto de estarmos a falar de um país que “politicamente falando é desastroso”, conforme classifica Pinto Djassi, uma vez que apesar de não existirem ou criminalidade “a Guiné é um país onde falta tudo e mais alguma coisa, é um país onde quem tem, tem e quem não tem, não tem. Os que têm dinheiro são os políticos, os que entram no governo com o objectivo de roubarem tudo o que podem roubar e quando saem ficam ricos”, diz.
Por outro lado, há também enormes dificuldades no que diz respeito ao abastecimento de luz e água, uma vez que há dias inteiros em que não há electricidade, o que acaba também por condicionar o abastecimento de água, tendo em conta que este também é controlado através da energia eléctrica que coloca as centrais a trabalhar.
Por todos estes motivos “não há uma semana que passe em que não receba pedidos de ajuda de amigos ou de familiares, seja das minhas irmãs ou dos meus irmãos”, afirma o empresário e funcionário da autarquia, adiantando que se prepara inclusive para enviar à família uma série de medicamentos que, apesar de básicos, são essenciais e que lá se encontram à venda no mercado negro, a preços elevados e fora da validade.
“Quando posso ajudo essas pessoas. Tenho agora um colega que vai para a Guiné e vou comprar medicamentos para que ele os possa levar, e estamos a falar de Brufen, Aspirina e Panasorbe. O próprio Estado português, mesmo na fronteira, sabe que aqueles são medicamentos que as pessoas necessitam e não encaram como um produto que será vendido no mercado negro, por exemplo”, refere.

Em Cuba também escasseiam bens essenciais

No entanto, e como já foi referido, não é apenas a família de Pinto Djassi a pedir auxílio ao casal, uma vez que também a família de Celestina Corona Alice necessita de apoio em Cuba, uma vez que ali até os bens mais essenciais são racionados por família e que apenas “quem tem dinheiro é que tem a possibilidade de ir ao mercado negro fazer a compra de bens essenciais e ter mais comida em casa”.
“Conheci aqui a minha esposa, cubana, e que também tem que ajudar a sua família. Embora Cuba seja mais desenvolvida do que a Guiné, há sempre dificuldades por causa do embargo que os Estados Unidos colocou em Cuba, por isso é frequente que a família da minha mulher peça dinheiro para comprar coisas básicas, como por exemplo arroz ou leite”, explica.

Os Açores vistos como “o sonho americano”

Questionado sobre o valor que estes gestos de auxílio têm nas comunidades de onde são naturais, Pinto Djassi salienta que a compreensão em relação aos esforços que são feitos diariamente pelo casal é mais forte no lado da família da sua esposa, em Cuba, enquanto a sua família na Guiné compara Portugal e os Açores ao “sonho americano”.
“Em Cuba eles ainda compreendem mais ou menos, mas na Guiné não. Na Guiné eles pensam que Portugal é igual a Nova Iorque, até porque a televisão portuguesa mostra sempre imagens de sítios desenvolvidos e bonitos, por isso mesmo que nós digamos que não temos dinheiro eles pensam que nós é que não os queremos ajudar”, conta.
A culpa desta ideia preconcebida, adianta, está nas imagens e na informação que chega até à Guiné através dos canais televisivos portugueses, por exemplo, onde “não são mostradas as imagens dos bairros mais pobres”.
“Ao verem as imagens bonitas de Portugal e dos Açores as nossas famílias pensam que estamos num país lindo e muito rico, o problema está nesta ilusão que têm em relação a Portugal e por não saberem qual é a realidade que aqui se vive. Por isso, para eles, quando nos é difícil ajudar, pensam que nós é que não os queremos ajudar. Para eles nós temos a obrigação de os auxiliar, porque foi para isso que saímos do país em primeiro lugar”, conta.
Para além dos produtos essenciais à sobrevivência destas famílias, como medicamentos ou dinheiro extra para comprar comida e outros mantimentos, há também uma série de outros pedidos que chegam a partir dos sobrinhos, os mais novos da família, que “ao perceberem que têm um tio na Europa”, começam a pedir tablets ou computadores, “mas se digo que não posso eles pensam que eu é que não os quero ajudar”, diz.
No entanto, há também dificuldades em fazer chegar alguns destes pedidos ao seu destino, uma vez que são extraviados pelos próprios funcionários dos correios devido às dificuldades que eles próprios passam devido, em parte, aos sucessivos salários em atraso.
“Por isso é mais fácil esperar que alguém de confiança vá lá para mandar coisas, porque se enviar pelos correios não chega ao destinatário, roubam logo. Isso acontece porque a necessidade é tanta que os próprios funcionários acabam por ficar com as coisas… Já houve quem experimentasse mandar um sapato de cada vez, primeiro o sapato de um pé e depois um sapato de outro pé, e mesmo assim nenhum dos sapatos chegou ao destinatário”, exemplifica.
Assim, nos Açores diz ter sentido “segurança e estabilidade”, dois aspectos que lhe permitiram também conseguir “um bom emprego” na Câmara Municipal de Ponta Delgada, uma altura da sua vida que relembra com especial apreço, uma vez que “houve muita gente que não era nem meu familiar nem meu amigo e que me estendeu a mão e me ajudou muito”, permitindo-lhe de certa forma cumprir o pacto que fez ao sair da sua terra natal.
“Nos Açores senti segurança, estabilidade e tenho um bom emprego. Na Guiné-Bissau até poderia ter segurança porque a criminalidade é baixa, mas estabilidade financeira acho que não. Não morreria de fome lá porque ninguém morre de fome, mas não teria as mesmas condições que os açorianos têm aqui”, diz o proprietário do M Caffé.
Ainda no que diz respeito à sua segurança, Pinto Djassi conta que nunca sentiu qualquer tipo de racismo ou injustiça, quer na sua profissão ou pela comunidade em geral, factor que o ajuda também a sentir que pertence aos Açores.

Pinto Djassi é o único irmão a viver fora 
da Guiné-Bissau

De todos os 12 irmãos, Pinto Djassi é o único que vive ainda hoje fora da Guiné, o que faz com que seja constantemente procurado por familiares e amigos que, face às adversidades que encontram no dia-a-dia, principalmente no que diz respeito à saúde, sentem a necessidade de fazer sucessivos apelos.
Na realidade, Pinto Djassi herdou o seu primeiro nome do piloto que comandava a avioneta em que nasceu, devido às dificuldades porque passou a mãe durante o parto, uma das quatro mulheres casadas com o seu pai, um Alferes que apesar de ser natural da Guiné defendia o Estado português.
No entanto, apesar da infância feliz, o chegar a Revolução dos Cravos não traria um “final feliz” para esta família, uma vez que o seu próprio pai viria a ser assassinado pelo Partido Africano para a Independência da Guiné e de Cabo Verde (PAIGC), quando este se recusou a ser preso. 
“Nessa altura sofremos bastante com isso enquanto crianças mas eles consideravam o meu pai um traidor e por isso foi assassinado em frente à família. O meu pai estava na Guiné mas depois foi transferido para uma ilha, e quando se deu o 25 de Abril foram lá buscá-lo para que ele fosse para a cadeia, como ele se recusou acabou por se gerar muita confusão e deram-lhe um tiro em frente às suas quatro mulheres”, conta.
Apesar de chocante e cruel, esta era uma realidade após a revolução, onde vários militares eram mortos, famílias eram espancadas em troca de informações e onde tantos outros se viram obrigados a fugir para escapar à morte.
No entanto, antes deste acontecimento trágico que viria a abalar uma família inteira, algo com que Pinto Djassi teve que lidar quando tinha cerca de cinco ou seis anos de idade, a vida da família era bem menos complicada.
“Antes de o meu pai morrer tínhamos quase tudo porque ele era oficial da tropa portuguesa e não nos faltava nada. Depois de ele falecer começámos a sentir dificuldades. Éramos 17, o meu pai tinha quatro mulheres e vivíamos todos na mesma casa, o que era natural para nós, porque crescíamos a ver aquilo e aceitávamos aquela mentalidade”, relembra.
Apesar de hoje já não ser tão comum existir este tipo de famílias alargadas, principalmente na cidade, Pinto Djassi explica que esta realidade era muito comum na Guiné “porque há mais mulheres do que homens, uma vez que depois da independência houve sempre a ideia de que os homens é que tinham que emigrar para arranjar melhores condições de vida e ajudar as famílias, porque as mulheres não podiam emigrar. Os homens foram saindo e as mulheres foram sempre ficando (…), mas hoje em dia já podem emigrar tanto homens como mulheres”.
Entretanto, mesmo vendo a mãe biológica diariamente, Pinto Djassi conta que foi criado pela madrasta, que acabou também por ser uma espécie de madrinha na sua vida, e que acabou também por ajudar, bem como às restantes mulheres do pai: “Se mandasse alguma coisa teria que mandar para as quatro, não podia apenas mandar para a minha mãe e não mandar para as outras, embora neste momento apenas a minha mãe esteja viva”, diz.
“Fui sempre criado tendo em conta esse ideal, pensando que todos eram família e tanto homens como mulheres sentem a obrigação de ajudar a família caso trabalhem. Tínhamos laços muito fortes com todos, até com a vizinhança acabámos por criar um laço muito familiar porque foi a cultura que herdámos”, adianta.
Por duas vezes teve a oportunidade de sair da Guiné-Bissau para estudar em Cuba através de uma bolsa de estudo oferecida pelo governo cubano, mas por duas vezes acabou por “estar no aeroporto e não ir a lado nenhum”. 
“Tive duas vezes bolsa de estudo para ir estudar para Cuba, mas das duas vezes acabei por não ir. (…) Ia sair da Guiné ainda criança, com cerca de 12 anos, e depois só voltaria a sair de Cuba quando tivesse um curso superior, porque o Estado cubano oferecia as bolsas de estudo com tudo pago e com todas as condições, oferecia a viagem de ida e volta mas não tinha possibilidades de pagar viagens para férias e muito menos as famílias teriam condições para isso”.
No entanto, mesmo reconhecendo que esta poderia ter sido uma boa oportunidade para ter uma vida melhor do que aquela que teria se continuasse sempre junto à sua família, é nos Açores que permanece, e é nos Açores que luta todos os dias, em conjunto com a esposa, para que mesmo à distância os seus familiares consigam ter uma vida um pouco melhor.
 

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