Padre Silvino Amaral: “A história da Ribeira Quente é a minha”

Ordenado sacerdote em Junho de 1958, Silvino Amaral exerceu a sua actividade na Ribeira Quente, freguesia marcada por uma tragédia em 1997, uma enxurrada que causou mortos e destruiu casas e propriedades.
“É uma comunidade que eu acompanhei no seu percurso e, como eu disse e continuo a dizer, a história deles é a minha”, afirma.
Silvino Amaral, que nasceu na Povoação revela à nossa reportagem como tem ocupado o tempo. “Ajudo o pároco, assim como ajudei outros sacerdotes no início das suas caminhadas. Acompanhei o padre Octávio, a celebrar missas em vários lugares, quando foi para a Povoação, de maneira que ajudei os colegas, mas ainda hoje ajudo a celebrar as várias missas aqui na Paróquia. O padre Ricardo de Amaral vem cá três vezes por semana, à Terça, Sexta e ao Domingo, mas nos outros dias celebro cá e concelebro com ele, ficando depois livre para ajudar colegas, que estão de férias, mas quando é necessário faço o lugar dele aqui”.

“Ribeira Quente era um submundo”

Relembrando outros tempos, recorda que “a Ribeira Quente era um submundo, o protótipo do subdesenvolvimento. Aqui não havia um palmo de caminho asfaltado, as casas eram muito antigas, as bermas dos caminhos eram canaviais e pedras montadas, umas sobre as outras sem serem guarnecidas, muita poeira de Verão e muita lama de Inverno, num cenário diferente, onde a mar galgava a terra e destruía casas, terras e vinhas. Não raras vezes reportávamos ao Governo que era dramático o problema da Ribeira Quente, que teimosamente recusava-se a olhar para a Freguesia. Depois mandou fazer um estudo do local, concluindo que não comportava a obra. Insistíamos, porque era dramático ver as pessoas perderem os bens dos seus pais e avós, as suas casas e quintas de estimação e muitas heranças, mas a certa altura e tendo em atenção ao drama acabaram por defender a Freguesia, com um muro de protecção, que mais não eram do que pedras alinhadas à beira-mar para enfrentar as intempéries. Assim fizeram e assim foi acontecendo, mas depois houve uma obra enorme no porto e na orla marítima envolvente, de modo que tudo foi melhorado”.
Freguesia mais protegida do mar

Na presente, valida que “a Freguesia está mais protegida do mar, mas algumas marés fortes continuam a respingar e, por vezes, invadem a terra, sem no entanto causarem prejuízos”. Já em relação ao porto, que “foi sendo construído na maré vazia continua a ser agredido pelos ventos Oeste. Assim de, tempos a tempos com temporais predominantes Oeste há a necessidade de se retirar as embarcações todas do porto, de modo que continua a ser dramático para a Freguesia ter um porto com esta necessidade. Importava agora ter um braço de mar, a proteger a força Oeste do mar. Isso ainda não foi conseguido, mas está a ser pensado”.
Na freguesia, os caminhos estão todos asfaltados ou cimentados, a protecção dos caminhos também está boa, o saneamento básico é novo, as águas que eram paupérrimas, agora são límpidas, coisa que no passado não era assim porque eram sulfúricas e com muito azoto.
Os terrenos eram quase baldios e cultivados à mão, ou seja, não rendiam e foram paulatinamente abandonados. A classe predominante é piscatória, todavia, no passado, todo o pescador ia para o mar, mas também tinha a sua terra. Tinham essa mais-valia da agricultura familiar, mas agora muito menos. As derrocadas estragaram terrenos de boa qualidade, mas ainda há alguma agricultura de subsistência ou familiar, mas relativamente pouca”.
Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades, surgindo agora também uma nova realidade, que é o turismo que também tem levado milhares de pessoas à freguesia. “O turismo beneficia alguns, se bem que por tabela, o povo também vai beneficiando com isso. Mas, tem dado uma movimentação diferente à freguesia e um outro colorido”.
Uma nota ainda para referir que no passado, a Ribeira Quente era o local onde a sementeira do cebolinho se fazia mais cedo e era onde os comerciantes iam comprar ali o cebolinho para o resto da ilha. Havia também o castanheiro, mas uma epidemia levou-os todos. Havia muita cebola, mas agora é o turismo e o peixe de várias espécies de elevado interesse para a restauração.

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