“A Ribeira Quente nunca se rendeu ao esquecimento mesmo perante as maiores dificuldades”

A sua ordenação ocorreu no dia 22 de Junho de 2003 e, curiosamente, começou a trabalhar na ilha Terceira, nas paróquias da costa Norte, nomeadamente nas freguesias dos Biscoitos, Quatro Ribeiras, Alteres e Raminho. Aí permaneceu seis anos e depois, em 2009 veio para a Ribeira Quente e Furnas, o que quer dizer que já está há 10 anos na Ribeira Quente.
Para quem não sabe, o padre Ricardo é natural de Rabo de Peixe.
Sobre a população da Ribeira Quente diz que “a Paróquia da Ribeira Quente ainda hoje é marcada pelo calendário religioso. As pessoas estão ainda muito marcadas pela religiosidade popular, o que quer dizer que o ritmo da vida é marcada, de certa maneira, por esta religiosidade popular, como acontecem em todas as outras paróquias dos Açores, pela experiência que vamos tendo, embora com muita resistência da parte das pessoas, inclusivamente das gerações mais adultas que vão mantendo um cunho comunitário, mas isto também tem consequências a nível da sociedade civil, porque vão perdendo o sentido de grupo e de viver em sociedade, devido às novas tecnologias e das novas maneiras das pessoas comunicar umas com as outras, da forma mais artificial e cada vez mais virtual. Digo que a Paróquia da Ribeira Quente vai resistindo porque ainda estão em alerta para isso e vão tentando travar esse caminho para o individualismo, mas sente-se isso, na prática dominical, que já não é a prática de outrora, embora talvez no panorama da Povoação, seja a Paróquia com índices altos de prática dominical, mas já não é a prática dominical do antigamente. E depois, como estamos numa sociedade sempre em mudança e temos medo de compromissos a longo prazo, vão aparecendo naquilo que é a curto prazo, ou seja, festas do Espírito Santo ou do Padroeiro, que são festas pontuais e aí aparecem em massa, mas tudo o que implica depois, uma certa perseverança já não é tanto, porque há um núcleo duro que vai mantendo a Paróquia e Graças a Deus que vão mantendo, mas já não é toda a Paróquia”.  

Os jovens são extrovertidos

Ao nível da juventude, o padre Ricardo diz que “a Ouvidoria da Povoação vai vendo alguns pontos positivos e algumas preocupações. Os jovens da Ribeira Quente são dóceis e de fácil relacionamento, mesmo para com a Igreja e a nível pessoal, são de complementar vivência, de se chegar, de rir, de brincar connosco e com os mais velhos, ou seja, são extrovertidos por natureza e isso facilita o relacionamento. Agora, noto que, como são muito extrovertidos têm muitas dificuldades depois nos estudos, porque desde muito novos acostumam-se a serem muito livres, vivem muito na rua, as casas não têm grandes quintais e vivem muito na rua. Depois nos estudos têm problemas, porque estudar, permanecer sentado e estar com atenção torna-se complicado. Noto muita dificuldade, principalmente nas raparigas, porque o sonho delas, às vezes parece que é só o casamento e não pensam muito na vida profissional e abandonam muito cedo a escola, e isto para nós é uma preocupação. Depois temos, um crescente número de casos de toxicodependência e muito cedo”. 

Mais formação ajudava

“O que gostaria, era que, e temos tentado isso, em conversa com as assistentes sociais, que houvesse um reforço ao nível da formação, quer a formação religiosa quer a formação académica e julgo que seriam as grandes apostas para a Ribeira Quente. A formação religiosa, para que os valores humanos voltassem a surgir, ou seja, os valores da sociedade e da comunidade, sejam eles gratuitamente ou civis, como as filarmónicas, grupos corais ou intervenção cívica, mas também a formação académica que ajuda a resolver problemas de pobreza e a dependência dos rendimentos sociais de reinserção”.

Combater a solidão dos idosos

Para ajudar as pessoas mais necessitadas, a Ribeira Quente tem a Centro Social e Paroquial que tenta intervir na questão da ocupação dos tempos livres e depois tem a acção católica que “procura estar atenta à tal pobreza de carência social”. Por outro lado, também surge uma nova pobreza, que é a solidão. “Esta é a pobreza dos idosos, que vivem muito sozinhos e tentamos que eles sejam visitados e acompanhados em consultas, mas não só. Surge ainda os vizinhos solidários, que ajudam, mas principalmente, temos esta vertente dos idosos, porque a carência material é absorvida pelo Estado e acção social”.
A terminar, o padre Ricardo deixou bem vincado que “a Ribeira Quente sempre foi um local especial e as suas gentes são especiais porque têm uma história de grandes dificuldades. Durante muitos anos, a Ribeira Quente foi um local esquecido por todos, e talvez por isso, porque nunca se renderam a esse esquecimento, mesmo perante as maiores dificuldades foi um povo que nunca perdeu a alegria de viver. Tivemos a última catástrofe de 1997, que julgo que noutro local qualquer nos Açores teria marcado, de tal maneira, as pessoas que mudariam a sua personalidade, mas eles conseguiram ultrapassar essas dificuldades com lágrimas nos olhos, mas com sorrisos no rosto e ainda hoje manifestam esse sorriso. Não há ninguém que venha à Ribeira Quente que não sinta o acolhimento e esse sorriso que eles têm para nos oferecer, e gostaria que a Ribeira Quente não perdesse isso”.
 
 

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