18 de agosto de 2019

Crónica da Madeira

O mundo imaginário dos políticos


    

Agora que as eleições da Madeira e do Continente estão à porta, mais vasto é o mundo imaginário dos políticos que, aos beijos, abraços e sorrisos, vão distribuindo benesses, graças a Deus, com descaramento e facilidades inacreditáveis. Transvestem-se de Madre Teresa de Calcutá. Eles deitam-se na véspera, sonham e, na manhã seguinte, estão prontos para prometer o que não se pode prometer; para dizer o que não se devia dizer; para fazer da mentira a verdade e da verdade a mentira. Entretanto, como grande parte dos portugueses são incultos e ingénuos, vão acreditando nas promessas irrealizáveis; promessas já antes prometidas… E, assim, caem do céu hospitais, escolas, estradas, mercados, etc. Meu Deus, que fartura!
Está claro que temos que viver em democracia, mas uma democracia onde impere a verdade, a justiça, a fraternidade, a liberdade. Isso nem sempre acontece no nosso país, infelizmente.
Tenho uma amiga que me diz sempre que vivemos sob a égide de uma praga que vem já do tempo da monarquia. Daí o espírito de vingança, de inveja e injustiça de que padecemos. Vejamos: vem o fiscal de uma autarquia a quem lhe deram, desculpem-me, as chaves da “retrete”, e implica com a obra, porque o muro tem a mais dez centímetros. Após a sua informação, assente numa linguagem deturpada, embarga a obra! O cidadão tira-lhe os dez centímetros a mais. Vem, de novo, o mesmo fiscal e descobre que a porta tem menos cinco centímetros. Nova informação. De novo a paragem da obra por meses ou anos! Por fim, descobre-se que afinal as razões são outras: há anos, a mulher do fiscal teve um affair com o proprietário da obra e, como tal, há que exercer vingança! A obra está embargada.
Da corrupção é já melhor não falar. Os noticiários entram todos os dias em nossas casas, dando-nos a conhecer os corruptos e as suas estratégias de corrupção. Todos cavalheiros de bem, inteligentíssimos, chefes de família, sérios, sobretudo no passado, grandes moralistas, apontados como exemplo. No fundo, é tudo ao contrário. Imaginem, a senhora Presidente da autarquia X desatou a deitar edifícios a baixo para beneficiar o marido e o filho. Irritada, ela diz que na autarquia quem manda é ela. O vice-Presidente demite-se, o vereador demite-se e a corrupção alastra…
Às vezes, temos a sensação de que se vive num país de “Opereta”. Afinal, as golas inflamáveis para proteção dos cidadãos eram flamáveis e se não fora a descoberta a tempo, iria certamente acontecer que muitos pescoços e caras teriam graves queimaduras de 1.º grau. O Sr. Ministro da Administração Interna não gostou que os jornalistas tivessem descoberto e, sobretudo, o questionassem sobre o assunto. Veio a saber-se mais tarde que o filho do Secretário da Proteção Civil era sócio da empresa que forneceu as golas que não ardiam mas ardiam… ou melhor, faziam buracos…
Há outra questão que acontece, não raras vezes, no país, o arquivamento dos processos e mesmo que os agressores ou infratores não tenham razão, passam a tê-la em virtude do arquivamento do processo. Por exemplo, um caso que há meses relatei, neste diário, do atleta madeirense Sandro Freitas ter levado com um stick de hóquei por um jogador da equipa adversária, no olho esquerdo, cegando-o, sem qualquer possibilidade de tornar a ver. A Federação Portuguesa de Patinagem, levianamente, arquivou o processo de um jogador-agressor cujo histórico disciplinar é bastante mau já desde tenra idade, não tendo, sequer, ouvido o agredido. Isto leva a pensar que se o jogador, de mau caráter e com raivas injustificáveis, abrisse a cabeça a outro jogador, ou o matasse, a Federação naturalmente arquivaria o processo. Mas que raio de Federação é esta que em vez de investigar os assuntos a fundo, arquiva-os?! E se isto acontecesse a um familiar de algum elemento do Conselho de Disciplina?
E assim, todos os dias, somos surpreendidos e confrontados com estes e outros casos que deixa, sobretudo, a geração dos 30 anos incrédula e cada vez mais distante, infelizmente, da política e dos políticos. Sem empregos que lhes garantam a sobrevivência, os jovens dos 30 anos, com os seus cursos universitários sentem-se “parasitas” dos pais.
E o mundo imaginário dos políticos continuará até que as eleições se realizem… Depois, nem mais beijos, nem mais abraços, nem mais palavras de amor… É o fim do espetáculo…
 

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Categorias: Opinião

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