18 de agosto de 2019

Santa Maria

Estive recentemente na ilha de Santa Maria a efetuar trabalho de campo para os Planos de Gestão dos Parques Naturais de Ilha dos Açores. No entanto, esta é uma ilha que já teve por diversas vezes a minha atenção, nomeadamente quando da elaboração do doutoramento. 
Santa Maria é a ilha mais antiga dos Açores e as suas características geomorfológicas e fisiográficas estão diretamente relacionadas com a sua idade de pelo menos 8.12 milhões de anos. Distingue-se das restantes ilhas precisamente pela sua antiguidade, uma vez que tem mais do dobro da idade da ilha seguinte que é a ilha de São Miguel. Contudo, Santa Maria é, como todas as outras ilhas dos Açores, uma ilha de natureza vulcânica. O facto de já se encontrar bastante erodida e de ser mais baixa do que a maioria das restantes ilhas contribui para que aqui se verifique maior calor e secura, uma vez que o fenómeno denominado efeito de Föehn (responsável pela condensação em altitude das massas de ar húmido proveniente do oceano) se faz sentir aqui com menor intensidade. Esta ilha encontra-se localizada no extremo mais oriental e sul do arquipélago, o que também contribui para as suas características climáticas distintas. 
A maior idade desta ilha permite que tenha vivido diversas oscilações do nível do mar, que aliadas a diversas fases de atividade vulcânica e erosiva contribuíram para uma elevada diferenciação geológica. Esta é a ilha onde ocorrem as mais antigas formações geológicas do arquipélago, aqui se encontram extensos afloramentos de rochas sedimentares com conteúdo fóssil abundante e diversificado. A peculiaridade destes afloramentos no contexto regional conduziu a que se tenham criado áreas protegidas para a preservação deste património, como foi o caso da Pedreira do Campo. No entanto, também ao nível do património natural se encontram especificidades: a estrelinha de Santa Maria (Regulus regulus santae-mariae) e o trovisco de Santa Maria (Euphorbia stygiana santamariae) têm nesta ilha o único local do mundo onde se encontram.
O povoamento tradicional em Santa Maria teve tendência para a dispersão, o que é uma característica incomum no arquipélago e que também se pode dever às características geomorfológicas da ilha, uma vez que a sua maior idade adoçou o relevo e permite a existência de um ondulado suave onde os primeiros povoadores implantaram os seus núcleos habitacionais. A implantação do aglomerado populacional de Vila do Porto teve como principal motivo as boas condições de acessibilidade costeira deste local. Às ótimas condições como porto natural para pequenas embarcações alia-se a existência de um festo recuado, relativamente alto mas arredondado, que funciona como uma fortificação natural. Neste lugar foi implantada uma ermida votada a Nossa Senhora da Conceição, ponto focal e de entrada na Vila que a partir daí se desenvolve em duas ruas paralelas. O primeiro aglomerado populacional poderá ter sido localizado na baía dos Anjos, porém as melhores condições de defesa terão ditado o maior desenvolvimento de Vila do Porto.
No litoral surgem imponentes baías escarpadas decorrentes da erosão, que conformam fajãs detríticas, principalmente em São Lourenço e na Maia. A paisagem destas baías é única no arquipélago devido ao estabelecimento de vinha em socalcos. Gaspar Frutuoso refere já a cultura da vinha em diversas zonas do litoral situando-a em locais que atualmente ainda servem essa produção, como as baías de São Lourenço e da Maia, e comparando mesmo os vinhos aqui produzidos aos vinhos da ilha da Madeira. A cultura de cucurbitáceas era já assinalada pelo cronista e continua a ser praticada na ilha com muito sucesso. 

Gaspar Frutuoso - “Saudades da Terra”. 
Livro III (edição de Instituto Cultural, 
Ponta Delgada, 1977-1981), 

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Categorias: Opinião

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