Raquel Gravito: “Sempre que posso vou a correr para ir buscar um animal abandonado porque amanhã pode ser tarde demais”

Aqueles que seguem de perto as redes sociais das associações que, quer nos Açores em geral, quer na ilha de São Miguel, se dedicam à partilha de casos de animais de companhia que foram abandonados e que precisam de ser urgentemente resgatados ou entregues a uma nova família ter-se-ão, certamente, cruzado – mesmo que virtualmente – com Raquel Gravito, também conhecida como “a menina dos cãezinhos”.
Através das redes sociais, a jovem com 27 anos de idade, natural dos Arrifes, lança apelos para os sucessivos casos de abandono ou maus tratos a animais, obtendo assim o apoio necessário por parte dos restantes internautas para que, juntos, consigam assegurar os tratamentos necessários para o animal ou para que seja possível encontrar uma família de acolhimento temporário, designada por FAT, até que se consiga encontrar uma família permanente para o animal.
Este amor pelos animais existe “desde que se conhece”, diz, uma vez que durante a sua infância sempre conviveu com vários tipos de animais.
Porém, este projecto que hoje desenvolve nos seus tempos livres e que tem como principal objectivo “salvar vidas”, começou com uma experiência traumática que viveu ainda em criança e que terá resultado no abandono de Diana, a cadela da família naquela altura.
“A Diana era uma cadela de fila, super meiga mas que matava as galinhas do meu pai. Certo dia, num acto de fúria, tal eram os estragos, o meu pai colocou-a na bagageira do carro e foi abandoná-la longe de casa. Eu estava presente e a memória da Diana a correr atrás do carro nunca me saiu da cabeça”, relembra.
Face a este abandono, Raquel Gravito conta que ainda tem na memória “o sentimento de angústia” e, mesmo acreditando que hoje esse erro não fosse cometido, a jovem adianta que não hesita em correr para um animal que esteja abandonado: “Hoje em dia, se tenho conhecimento de um cão abandonado, pego na chave do carro e vou, lembrando aquele nó na garganta e a voz afogada em lágrimas que chamava pela Diana”.
Contudo, foi aos 18 anos de idade, quando saiu de casa dos pais, que Raquel Gravito teve conhecimento, através de uma publicação no Facebook, do caso de Camel, um cão de grande porte com atrofia muscular, resultando assim na sua primeira adopção e numa nova companhia de quatro patas durante os próximos cinco anos da sua vida.
“O Camel tinha atrofia muscular nas patas traseiras porque nasceu e foi confinado a um espaço demasiado pequeno para o seu tamanho. Foi abandonado e, mais tarde, resgatado por uma associação que, durante 13 meses, teve que o manter numa box de uma clínica veterinária porque ninguém o queria adoptar por ser um cão com “deficiência”, conta.
Já o primeiro resgate, relembra, deu-se quando descobriu o caso de um caniche em estado de magreza extrema que se encontrava num canil municipal, e que se encontrava também “coberto com muito pêlo podre e com queimaduras graves”, originadas pelo “excesso de pêlo ao sol”.
Acabaria por adoptar também este cão e, por conta desta experiência, passou “a resgatar animais dos canis municipais e da rua, tratando deles em ambiente familiar e, quando recuperados e tratados, colocando-os para adopção”, passo este que é dado tendo em conta o alcance de redes sociais como o Facebook, onde as pessoas “conhecem a história de cada animal e acabam por adoptá-los”.
Porém, os resgates são feitos com um animal de cada vez, refere Raquel Gravito, adiantando que só resgata um novo animal “quando o anterior já estiver recuperado e adoptado”, estratégia esta que lhe permite manter um número aceitável de animais.

Uma missão que exige continuidade
face à falta de meios na Região

Apesar disto, a jovem que afirma dedicar todo o seu tempo livre aos animais, uma vez que durante o restante tempo trabalha para uma empresa que presta cuidados e apoio domiciliário à comunidade mais idosa, adianta que não irá desistir desta sua missão, tendo em conta que as respostas que actualmente existem para estes casos são limitadas na Região.
“As respostas disponíveis para situações de emergência, como um abandono, são poucas e a associação local não tem um espaço físico para albergar estes animais, mantendo-os em clínicas veterinárias e sem verbas face às despesas, e assim sendo, resta o canil municipal”, explica.
Contudo, e sem descartar a importância dos canis municipais, a realidade, adianta, é que estes espaços “estão constantemente lotados de animais abandonados, e com a entrada constante de animais, é difícil controlar e/ou eliminar vírus e doenças, levando os animais saudáveis, a ficarem também contaminados. Para além disso, como não é possível ter um único animal por box no canil, estes estão completamente destabilizados com a sua nova realidade, sendo que alguns lutam até à morte, quer por dominância, quer por comida”.
Assim, de acordo com a perspectiva desta defensora dos animais, “por mais que haja um esforço por parte dos funcionários para manter os animais que atacam outros sozinhos em boxes, há sempre um ou outro inicia uma luta numa box com vários animais”, o que faz com que aqueles que sobrevivem e que são posteriormente adoptados “estejam traumatizados”.
“Por isso, sempre que posso vou a correr para ir buscar um animal abandonado porque amanhã pode ser tarde demais. Os animais na rua não ficam sempre no mesmo lugar, e muitas vezes, acabam por ser atropelados ou magoam-se no lixo à procura de comida”, conta.

Rede de contactos facilita o resgate
de animais em risco

No entanto, mesmo com estes esforços, tornou-se fundamental estabelecer uma rede de contactos que a apoia nas situações em que não pode acolher o animal na sua própria casa, as famílias de acolhimento temporário que se revelam essenciais em todo este processo.
No que diz respeito ao resgate que até hoje mais a marcou, Raquel Gravito adianta que este envolveu “um cão arraçado de pitbull, todo mordido por outros cães, com sarna e esquelético. O proprietário deste pitbull morava num bairro social e este não foi um resgate fácil, até porque não tenho qualquer poder legal para o fazer, mas em conversações com o proprietário, e alguma pressão por parte dos vizinhos revoltados com a situação, consegui trazê-lo comigo”.
Apesar de este se ter tornado num caso de sucesso, uma vez que “hoje em dia este cão pesa quase 50 quilos, está bem, adoptado e muito feliz”, a realidade é que “a nossa justiça é muito lenta e cheia de burocracias, acabando por colocar a vida destes animais em risco”, fazendo por isso com que alguns destes casos não sejam sequer denunciados à GNR.
Tendo em conta todos os casos de sucesso que têm sido divulgados e aos quais se dedica, Raquel Gravito adianta que há quem fale mesmo em num “dom natural para transformar animais traumatizados e tristes em animais felizes”, no entanto considera que tudo o que estes animais necessitam é “de amor e dedicação”, sendo esta a energia que procura transmitir-lhes.
Mesmo assim, salienta que este processo que envolve o resgate, o tratamento, a socialização e a posterior adopção foi aperfeiçoado com o tempo e experiência, e por esse motivo é hoje “incapaz de entregar um cão a alguém sem uma pequena triagem ao interessado, e procuro fazer também um trabalho de consciencialização, porque fomos criados num tempo que os animais de estimação eram apenas “para dar alarme”, ou cães de “trabalho”, um tempo em que os cuidados veterinários não eram uma prioridade”, diz.
Hoje sente-se acompanhada por muitas pessoas que inclusive a ajudam e a apoiam, sendo inclusive contactada com cada vez mais frequência por pessoas que pretendem adoptar animais de forma responsável e “até ajudar a ajudá-los”, através de doações que ganham várias formas, desde comida, mantas ou brinquedos.
Para além disso, e também por conta do impacto das redes sociais, há cada vez mais pessoas “que se dirigem às clínicas veterinárias para contribuírem monetariamente nas despesas veterinárias que se vão acumulando conforme o número de animais salvos”.
Assim, também as clínicas veterinárias têm um papel fundamental: “Nada disto seria possível sem as clínicas veterinárias. Desde o início deste meu voluntariado com os animais, que me tornei cliente da clínica veterinária do Paim e é impagável tudo o que têm feito para com estes animais. Além de todo o carinho e cuidado para com estes animais, a clínica faz atenção nos preços e permite que eu vá pagando aos poucos, consoante as ajudas de amigos e seguidores do Facebook”.
A realidade, conta, é que com as alterações na lei portuguesa, “os animais domésticos deixaram de ser coisas e ganharam estatuto. Cada vez mais os animais são uma preocupação e já fazem parte da família de muitos açorianos. Isto é caminhar para um bom porto, embora ainda nos falte muito”.
A faltar, diz, está a consciencialização para a esterilização dos animais domésticos e, também, uma maior facilidade no arrendamento de habitações que permitam animais, adiantando que “o governo precisa de apoiar os jovens com medidas inovadoras que respondam à dificuldade que é encontrar um lar a preços acessíveis, e que permita animais”.
Assim, para além de continuar a apostar nas campanhas de esterilização e na consciencialização da população, Raquel Gravito adianta que é também necessário haver “uma maior fiscalização aos criadores sem licença, uma vez que as crias de animais de raças não apuradas, continuam a ser vendidas em sites de venda online e há centenas de animais domésticos nascer todos os anos”, não existindo, por outro lado, “famílias responsáveis e conscientes para tantos animais”.

Trabalhar com idosos é
“outra grande paixão”

A par de todo o trabalho que desenvolve com os animais, Raquel Gravito dedica também grande parte do seu tempo aos mais velhos, afirmando que esta é “outra grande paixão” que descobriu há cerca de oito anos, quando começou a trabalhar numa empresa que presta apoio domiciliário à população sénior, tendo em conta várias patologias como Alzheimer, Parkinson e demência, entre outras, indica.
Para a jovem com 27 anos de idade, cuidar dos outros é algo que faz parte do seu código genético, uma vez que é algo que sente a necessidade de fazer para que se sinta realmente preenchida e feliz.
“Cuidar dos outros já faz parte de mim e é algo que eu preciso fazer para me sentir realmente feliz. Os nossos idosos não são só clientes, existe muito mais do que um serviço entre o cliente e a empresa, daí ser fácil gostar de pertencer a um lugar onde cuidar dos outros com carinho e dignidade é uma regra inquebrável”, diz.
Assim, por conta da “afinidade e respeito” para com os clientes da empresa em que trabalha, Raquel Gravito afirma que todos os dias se apaixona “pelo trabalho e por todos os desafios” que lhes são inerentes, chegando inclusive a partilhar algumas das suas “aventuras com os cãezinhos” com os idosos que, apesar das diferenças que existem hoje em relação à protecção dos animais, “acham-lhes graça”.
Graças a estes esforços que acabam por envolver toda uma comunidade, a jovem conta que é até abordada na rua por pessoas que a reconhecem a partir do Facebook, pessoas estas que lhe transmitem “muito carinho e admiração”a partir de várias partes do mundo.
 “Já fui contactada por pessoas que moram no estrangeiro e em Portugal continental porque vieram cá conhecer a nossa ilha e tinham gosto em conhecerem-me pessoalmente. A mim e à Nina, a minha cadelinha paraplégica que usa uma cadeira de rodas, adoptada do canil municipal em 2015”, conta Raquel Gravito, referindo que “estas pessoas não são apenas seguidores do Facebook, são um alicerce”, conclui.

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