Acreditar já acolheu 40 famílias açorianas com filhos com cancro em Lisboa, Porto e Coimbra e quer abrir núcleo nos Açores


Mais do que um verbo, a Acreditar é uma Instituição Particular de Solidariedade Social cujo objectivo prende-se em ajudar as crianças e as suas famílias a superar de uma maneira melhor os problemas que surgem a partir do momento em que o cancro é diagnosticado. Apesar de ainda não existir nenhuma delegação no arquipélago, é um desejo por parte da associação chegar também aos Açores.

Todos os anos, em Portugal, cerca de 400 crianças e jovens são diagnosticadas com cancro, considerada a doença do século XXI. A taxa de sobrevivência do cancro infantil é cerca de 80%. “O diagnóstico de cancro numa criança ou num jovem tem um impacto imediato e disruptivo na família. O tratamento tem início imediatamente após o diagnóstico e pode alongar-se até 3 anos, caso não surjam complicações ou intercorrências que impliquem uma extensão do mesmo.” 
Para além das questões emocionais, acresce-se o impacto financeiro durante o processo de tratamento e mesmo após este, como os custos referentes às deslocações, à alimentação e à própria medicação. Por vezes, muitos pais, para poderem acompanhar os seus filhos, solicitam baixa ou até mesmo despedem-se dos seus trabalhos.

Sobre a Acreditar

A Acreditar - Associação de Pais e Amigos de Crianças com Cancro foi criada em 1994 e encontra-se presente nas cidades do Porto, Lisboa, Coimbra e Funchal, onde existem nomeadamente hospitais de oncologia pediátrica. Tem como missão “tratar a criança ou o jovem com cancro e não só o cancro na criança ou jovem, promovendo a sua qualidade de vida e da família”. Segundo a Acreditar, “para enfrentar da melhor maneira as dinâmicas que o cancro infantil impõe”, há que proporcionar a todos a certeza de um apoio num momento de incertezas. “Existirmos faz a diferença, a que nos torna a todos mais fortes porque os momentos difíceis são mais fáceis de viver quando nos unimos. Dos diversos apoios que prestamos, saliento o apoio emocional prestado por pais e Barnabés (ex-doentes) dado às famílias que acabam de ter o diagnóstico, apoio social - alimentar, financeiro e material; o apoio à escolaridade, quer com o programa Aprender Mais, quer através de bolsas de estudo que vão do ensino básico à universidade; e as Casas, onde as famílias que vêm de fora das zonas dos centros de referência de oncologia pediátrica ficam a viver, gratuitamente, enquanto os seus filhos precisam de receber tratamento” refere Susana Bicho, responsável da Comunicação da instituição. “Temos apoios em todas as áreas”.
Seguindo um conjunto de valores, a Acreditar constitui-se como uma referência nacional relativamente aos direitos e na promoção de qualidade de vida na área da oncologia pediátrica. Solidariedade, Respeito, Privacidade, Cooperação, Espírito Inovador e Transparência são os valores pelos quais a Acreditar baseia-se. 
A instituição tem vivido através de apoios de associados, amigos, do trabalho efectuado por voluntários e de um corpo de pessoal administrativo reduzido, que tem conseguido gerir a Acreditar ao longo destes anos. Nas Casas e nos hospitais, existem mais de 600 voluntários a dar apoio.

Apoio às famílias açorianas
Deslocam-se muitas crianças e jovens do arquipélago dos Açores para o continente a fim de realizar tratamentos que não são possíveis de cá serem feitos. No âmbito das Casas Acreditar, ao todo, já alojaram cerca de 34 famílias açorianas nas 3 casas de Portugal Continental. 
Os núcleos existentes, ou seja, as Casas da Associação Acreditar, encontram-se localizados em sítios estratégicos, onde estão os Centros de Oncologia Pediátrica: a Casa Acreditar de Lisboa situa-se em frente ao IPO daquela cidade, tendo já 17 anos de existência; a Casa Acreditar de Coimbra, com 10 anos, encontra-se dentro do Centro Hospitalar da Universidade de Coimbra; e a Casa Acreditar do Porto, inaugurada em 2017, serve o IPO do Porto e o Hospital de São João. Relativamente ao Núcleo do Funchal, este é mais pequeno. Não existe uma Casa Acreditar, mas sim um Centro de Dia, situado em frente ao Hospital Dr.Nélio Mendonça. Aqui, os pais recebem apoio enquanto as crianças estão a fazer tratamento.
As famílias, de forma gratuita, ficam a residir nas Casas, que conta com um total de 48 quartos distribuídos por Lisboa, Coimbra e Porto. A Casa de Lisboa irá aumentar a sua oferta de 12 para 32 quartos, para o ano de 2020. Actualmente, em cada uma das Casas, tem uma família oriunda do Açores, como referiu Susana Bicho.
No arquipélago dos Açores, ainda não existe nenhum núcleo da Acreditar. É um trabalho que já está a ser elaborado há algum tempo para que se consiga atingir tal propósito. Susana Bicho contou “que gostariam muito que isso acontecesse e têm estado a trabalhar nesse sentido”. Prevê-se que a Acreditar, nos Açores, terá voluntariado hospitalar e domiciliário.
Consolidar o trabalho que tem sido feito ao longo dos 25 anos “e entrar para outras áreas importantes da oncologia pediátrica” constituem-se também outras prioridades da Acreditar. “Somos uma estrutura pequena para o tanto que temos feito”, acrescenta Susana Bicho.

As Casas Acreditar

O alojamento gratuito permite que as famílias consigam ver as suas despesas reduzidas, bem como as deslocações diárias do local de onde vieram. Não servindo apenas de alojamento, as famílias ocupam-se com tarefas diárias, tal como se estivessem nas suas casas, elaborando refeições, tratando da sua roupa. Fazem também a manutenção da limpeza do espaço. Além do mais, são criados laços entre as pessoas que ali vivem. “Queremos proporcionar o equilíbrio entre a privacidade associada a uma casa e a oferta de experiências que promovam o bem-estar, a diversão e, até, a aprendizagem de novas competências”. Nas Casas Acreditar, realizam-se inúmeras actividades como aulas de ginástica, culinária, pintura, danças ou trabalhos manuais; sessões de reiki, massagens, yoga, maquilhagem e inclusive cabeleireiro. As actividades no exterior não são dispensadas: “visitas a museus, idas ao teatro ou ao cinema, picnics, idas a jogos de futebol”. Os dias festivos, como o Natal, Carnaval, Dia da Criança, Santos Populares, por exemplo são sempre celebrados. 

Setembro Dourado e a comemoração 
do 25.º aniversário 

O mês de Setembro é o mês escolhido para sensibilização para o cancro infantil. “Nós (Acreditar) associamo-nos à sensibilização internacional do mês e vamos ter várias acções, nomeadamente nas chamadas de atenção para várias questões que ainda não foram resolvidas na oncologia pediátrica. Os direitos das famílias, os apoios sociais – que estão desajustados e são insuficientes – as questões laborais dos pais que acompanham os filhos nos tratamentos, entre outros temas que estão incluídos numa lista que gostaríamos de ver resolvidas do ponto de vista legislativo”, destaca Susana Bicho. Acrescentou ainda que para além destas questões, a forma como algumas coisas da oncologia pediátrica não estão a funcionar devidamente, exemplificando que nem todos os centros de oncologia pediátrica acompanham aqueles que venceram a luta contra o cancro, havendo apenas esse acompanhamento por parte do IPO de Lisboa. Acrescentou também “a pouca investigação nesta área, que decorrerá certamente do do facto de a pediatria oncológica não fazer parte dos planos oncológicos nacionais”.
Os Açores também vão aderir à campanha de sensibilização para o cancro infantil. Em algumas entidades, não se sabendo ainda para já quais, vai ser possível encontrar um laço dourado.
No próximo dia 12 de Outubro, a Acreditar assinala 25 anos de existência. Para o efeito, serão realizadas 4 caminhadas nos 3 núcleos existentes em Portugal Continental – Lisboa, Porto e Coimbra – e no núcleo da Madeira, nomeadamente na cidade do Funchal.
 
                                     
 

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Autor: Rita Frias

Categorias: Regional

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