24 de agosto de 2019

“Já chegámos à Madeira?”

Parece estranho, mas não se trata da deslocação tectónica. Trata-se domodelo turístico.
Partamos destes princípios: o turismo não é um bem de primeira necessidade e só é benéfico para a Região quando cá deixa mais do que o que leva.
Atualmente os Açores em geral, e S. Miguel em particular, atraem maioritariamente o inconveniente turismo erosivo. O “turista da mochila” e do alojamento em conta, que não come nos restaurantes, não dorme nos hotéis, não consome oferta cultural, não visita outras ilhas.
Beneficiam os de sempre, nomeadamente as empresas de aluguer automóvel que, numa região com fraca oferta de transportes públicos – que afeta maioritariamente os residentes – detêm o monopólio da circulação, imprescindível para quem vem, com pouco tempo, conhecer uma ilha com pontos de interesse dispersos e de usufruto geralmente gratuito (trilhos, paisagens, praias). E quem tem um monopóliotorna-se um lobby. O que acaba por dificultar que qualquer necessidade ou medida de incremento dos transportes públicos seja inconsequente na prática.
O turismo só é benéfico para uma economia – e para uma sociedade - quando a sobrecarga sazonal que o visitante provoca ao território (consumo de água, energia, comunicações, espaços públicos) é compensada pelo respetivo encargo de impostos.
O residente compensa a inevitável erosão que provoca ao seu território com o IRS, o IVA, o IMI, entre outra carga fiscal. Assim se torna possível criar e manter sistemas de saneamento, de produção energética, de captação de água, que são necessidades fundamentais de todos, locais ou visitantes, mas que representam grande onerosidade pública.
Ora o “turista da mochila”, já assinalado por várias cidades europeias como potenciador da degradação territorial e ambiental (veja-se Barcelona, por exemplo), tem um impacto mínimo na arrecadação de receita turística, quer pelo Estado, quer pelos privados do setor. Vai ao hipermercado local comprar por 4% de IVA o que desejavelmente deveria consumir num restaurante ou similares a 13/18%.
Não contribui significativamente e ainda é degradante para o quotidiano dos residentes.
E isto advémdos Açores deixarem de ser seletivamente atrativos para quem chega de fora, sem se promover a distribuição do turismo pelas nove ilhas. As viagens para cá e para destinos estrangeiros estão cada vez mais baratas, comparativamente aos preços dos inter-ilhas. O que igualmentenão facilita que os açorianos sejam turistas na sua própria região.
A Terceira tem um hotel na iminência de encerrar, ao passo que proliferam,cada vez mais, outras alternativas de alojamento.
Não é culpa dos alojamentos locais. Não é culpa do “turista de mochila”. É culpa da falta de equilíbrio. Da ideia de que só o barato é atrativo. Da noção do “quanto mais melhor”.
Os custos disto estão à vista: o excesso de viaturas e pessoas nas vias, rurais e urbanas, e em torno do património natural, e as legítimas queixas dos empresários da restauração face à rentabilidade dos seus negócios, inversamente proporcional à quantidade de turistas. Por que será?
Porque o destino “Açores” não pode ser de massas. Tem de ser de luxo. No custo e no benefício. E porque o barato para o turista está, a diversos níveis, a sair caro ao residente.
 

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Categorias: Opinião

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