Festival Azores Burning Summer

Vida sustentável e livre de plásticos é “uma luta diária”, afirmam embaixadoras do festival

Catarina Matos tem uma costela açoriana e durante vários anos desempenhou funções enquanto arquitecta. Sempre teve uma grande preocupação com a sustentabilidade ambiental mas foi em Londres que decidiu mudar por completo a sua vida ao se aperceber da quantidade assombrosa de resíduos que são produzidos diariamente naquela grande cidade.
Assim nasceria a “Mind the Trash”, loja virtual à qual se dedica hoje a 100%, com o objectivo de oferecer vários produtos sustentáveis ao consumidor, onde também se inclui o cliente açoriano.
De momento é também, em conjunto com Ana Milhazes, uma das embaixadoras do Festival Azores Burning Summer, que irá animar a freguesia do Porto Formoso na despedida de mais um Verão, tendo como objectivo sensibilizar todos os que ali compareçam para as questões relacionadas com a sustentabilidade ambiental e, em específico, à poluição de plástico que é visível nas praias um pouco por todo o mundo.

(Correio dos Açores) Como se sente ao ser, em conjunto com Ana Milhazes, embaixadora do Festival Azores Burning Summer?
(Catarina Matos, proprietária da “Mind the Trash”) É uma honra ser embaixadora deste festival, tendo em conta que é um festival de sucesso no que toca à sustentabilidade, devido aos inúmeros passos que são tomados relativamente à preocupação material que utilizam e à reciclagem, aspectos que são muito difíceis de controlar numa festa deste tipo.
A nível local estas iniciativas têm um impacto muito grande na comunidade por mostrarem que é possível viver de forma mais sustentável, ainda por cima em meio de festa, que é onde normalmente as pessoas fazem as maiores asneiras, comprando, por exemplo, pratos descartáveis e vários artigos de plástico, mas que em termos de grandes festas costuma ser o mais barato.
Neste caso isso não acontece, e ser embaixadora com a Ana Milhazes é também muito importante para mim, porque ela é também embaixadora da nossa empresa, a “Mind the Trash”. 
Esta parceria entre nós é importante porque tanto eu como ela sabemos o que é lutar diariamente por um estilo de vida mais sustentável, sabemos como é viver com menos plástico e com menos desperdício, não só na parte da alimentação mas em todas as áreas que tocam o nosso dia-a-dia, mesmo a nível de transportes ou ao nível da escolha das roupas que utilizamos, entre muitos outros tópicos.
Já recebi feedback de pessoas que vão estar no festival e que querem vir ter connosco para falar e saber de algumas coisas que fazemos e como fazemos. Tem que haver uma grande partilha de conhecimento, porque as pessoas às vezes querem mudar mas não sabem como o fazer.

No âmbito do festival têm vindo a desenvolver a campanha digital intitulada “Praias de Plástico”. A que se deve esta campanha e que propósitos tem?
A poluição das praias tem sido um terror. Há cada vez mais apanhas de lixo, o que é espectacular, mas ainda há um grande trabalho educacional pela frente e o que o festival quer fazer de uma forma muito clara é sensibilizar as pessoas relativamente aos objectos que mais encontramos nas praias. Entre eles encontramos cotonetes e beatas, e muitos destes materiais aparecem nas praias porque as pessoas os colocam na sanita.
Ainda há uma grande falta de educação em relação ao que devemos ou não colocar na sanita e de como é que as coisas são tratadas nas ETAR, uma vez que há também esgotos que ainda não estão ligados a uma ETAR e que podem estar directamente ligados aos rios ou ao mar, o que pela ausência de filtro faz com que o lixo seja descarregado sem qualquer controlo.
Quando era mais nova pensava que os pauzinhos dos cotonetes eram de chupa-chupas de crianças que estiveram nas praias com os pais e os deixaram lá, mal sabia eu que tinham vindo da água e ficado na areia.

Apesar do grande flagelo que é o plástico, acha que é possível viver uma vida completamente livre de plástico?
Se é possível viver mesmo sem plástico? É. Mas o estilo de vida que nós temos não será certamente esse, porque se assim fosse teríamos que viver sem carro, não ter telefone e não ter computador, porque todos estes objectos têm peças de plástico.
A minha opinião pessoal é que devemos fazer o melhor que podemos, e eu vejo que há muita gente que está a cometer o erro de querer largar tudo o que é de plástico e acaba por deitar tudo fora, e não é essa a melhor opção. 
Tudo o que nós temos na nossa casa que seja de plástico deve ser utilizado até não dar mais, e só depois é que devemos comprar produtos mais sustentáveis, feitos de material que seja compostável ou que seja biodegradável.

O que sabe em relação à poluição que existe nos Açores?
Já estive nos Açores há alguns anos, aliás, tenho uma costela açoriana porque a minha família era dos Açores. Quando aí estive não me recordo de ver poluição, lembro-me de em alguns caminhos ver uma garrafa perdida por algum turista, mas estou contente por voltar porque esta é uma forma de conseguir perceber a diferença e também já vou com um olhar mais atento.

Considera que o facto de se ser ilhéu e viver próximo do mar deverá acelerar a vontade de viver uma vida mais sustentável?
O nível de preocupação deve ser igual em todo o lado, até porque nós de momento estamos num estado muito crítico e cada pessoa, cada gesto que faz tem um impacto muito significativo.
Se nós mudarmos um hábito e se um amigo também mudar um hábito acaba por fazer em grande escala muita diferença. Penso que isso não deverá ser ditado apenas pelo facto de se viver numa ilha, mas acho que acaba por não existir um acesso tão facilitado às infra-estruturas responsáveis pela reciclagem de resíduos como acontece no continente.
Entre as coisas que utilizamos, a verdade é que muitas não podem ir para a reciclagem. Às vezes colocamos coisas na reciclagem que não são recicladas e, por isso, eu digo que a reciclagem não é a solução. As empresas de reciclagem, por norma, só reciclam aquilo que é considerado embalagem e pauzinhos de cotonete não são recicláveis, muito menos elásticos de cabelo, por exemplo.

Qual será a estratégia mais adequada para reverter a situação actual no que diz respeito aos resíduos?
A ideia é evitar a reciclagem e tudo o que vá para aterro, evitar o que vá para incineradoras. É usar materiais naturais e tudo o que possamos devolver à terra.

A partir da sua preocupação com a sustentabilidade ambiental criou a loja online “Mind the Trash”, destinada a vender produtos amigos do ambiente e livres de plástico. Tem recebido muitos pedidos de encomendas dos açorianos?
Há mais clientes da Madeira do que dos Açores. Nos Açores noto que está mais calminho apesar de termos clientes que nos contactam a perguntar se enviamos produtos para os Açores.
O grande problema para este arquipélago é o preço dos portes de envio que são muito elevados, e isso dificulta muitas vezes o acesso a quem está no arquipélago e quer ter os produtos. Os clientes não querem pagar tanto por portes mas isso não conseguimos baixar, mas há cada vez mais pessoas interessadas nos produtos sustentáveis, como pastas de dentes, escovas de dentes de bambu e champôs sólidos.

Tenciona expandir o seu negócio para lojas físicas nos Açores?
Gostava muito de poder vender alguns produtos em lojas físicas nos Açores. Já o fazemos na Madeira a pedido de clientes que até nos enviaram nomes de lojas. Nos Açores isso ainda não aconteceu e não tenho contacto de nenhuma loja que venda que venda produtos sustentáveis ou que queiram os nossos produtos mas gostava muito de o fazer.
Como embaixadora do festival nos Açores espero também conseguir falar com as pessoas e perceber quais as maiores dificuldades e onde poderíamos, se calhar, vender os nossos produtos através de possíveis parcerias para que os Açores também se tornem mais sustentáveis. 

“As pessoas têm consciência do problema do 
excesso de plástico mas têm dificuldade em  ajudar”

(Correio dos Açores) Qual será o vosso papel enquanto embaixadoras do festival?
(Ana Milhazes, embaixadora do festival) O convite que eu e a Catarina recebemos para sermos embaixadoras do festival consistiu, sobretudo, em fazermos esta campanha das “Praias de Plástico” e para alertar as pessoas em relação à importância de colocarem o lixo nos contentores indicados.
É importante alertarmos as pessoas de que o lixo que vai parar às praias muitas vezes não é levado pelas pessoas que vão fazer praia e que o deixam lá, mas sim que pode ser o lixo de qualquer pessoa que até tenha cuidado em colocá-lo no contentor, seja no indiferenciado ou no ecoponto, e com o vento ou com a chuva ele acaba por ir parar ao mar.
Na Eco Escola queremos dar continuidade a este trabalho. Não vamos directamente fazer palestras no festival, mas mais tarde a ideia é darmos continuidade a este projecto e, havendo oportunidade, fazermos alguma palestra ou termos alguma participação na Eco Escola que tem vindo a fazer trabalhos na área ambiental.

Criou o movimento “Lixo Zero Portugal” e o blogue “Ana, Go Slowly”. O que pretende transmitir a partir desses projectos e da forma como vive o seu quotidiano?
Além de divulgar muita informação ou pequenas dicas no dia-a-dia que nos permitem reduzir o lixo, mais do que colocar o lixo nos contentores o meu lema de vida é nem precisar de ir ao contentor. Através das palestras que vou fazendo, dos workshops e do que vou partilhando online, tudo o que eu faço é voltado para o estilo de vida, coisas que eu mostro na prática como se fazem porque é assim que eu vivo o meu dia-a-dia.
Por isso é que eu costumo dizer que estou sempre em campanha, sempre em trabalho. Posso estar de férias mas se for a um restaurante ou a um supermercado levo sempre os meus sacos e isso acaba por ser tema de conversa, mesmo sem eu perceber quando dou conta já tenho pessoas a olhar para mim e pessoas a perguntar onde é que eu comprei certas coisas.
No fundo, são essas oportunidades que vão aparecendo no dia-a-dia, e de facto acho que facilita muito porque muitas vezes as pessoas já vão tendo consciência do problema, até porque a comunicação social tem ajudado imenso, mas depois têm dificuldade em perceber como é que podem fazer alguma coisa para ajudar.

Que passos podem ser dados para viver uma vida mais amiga do ambiente?
Aquilo que aconteceu comigo e que é mais fácil é olharmos, literalmente, para o nosso caixote do lixo. Fazermos a separação do lixo e olharmos para o indiferenciado e para os outros, vermos onde temos mais lixo e começar por aí.
Se reduzirmos as áreas em que temos mais lixo será óptimo porque, em primeiro lugar, não vamos perder tempo em deitar lixo fora todos os dias, uma tarefa que deixei de fazer e que acho muito chata. Dessa forma, aquilo que nós começamos a descobrir é começamos a ter uma vida muito mais saudável, porque se nós pensarmos bem, e na grande maioria das famílias será assim, a grande fatia de lixo vai estar nas embalagens de plástico alimentares.
Porém, como a maior parte das pessoas não tem acesso a lojas a granel, continuará a fazer compras nos supermercados convencionais, e para isso o que precisam de ter é um saco para o pão e sacos mais finos para colocar frutas e legumes. Para além disso, se encontrarmos alimentos em vidro estes são preferíveis ao plástico porque o vidro é um material que é 100% reciclável e que é 100% reutilizável. Se não quiser colocar esse frasco no vidrão, há sempre outras formas de aproveitar a embalagem, seja como jarra, como organizador ou para guardar compotas.
Em relação ao plástico é sempre preferível comprar coisas embaladas em cartão que já seja feito a partir de papel reciclado e recusar aquilo que é descartável. (…) Se as pessoas fizerem isso, a parte do plástico descartável e a parte das embalagens alimentares, acho que se irá reduzir em quase 50% o lixo que as pessoas produzem no dia-a-dia.

Pensa realizar workshops também nos Açores?
Já tive vários convites para ir aos Açores, mas não se proporcionou porque também no meu dia-a-dia e nesta parte profissional gosto de ser o mais sustentável possível, e ir aos Açores só para uma palestra não faz sentido.
O que eu gostava e espero que haja oportunidade, e que estou esperançosa que surja é, talvez, fazer um projecto um bocadinho maior, ou com várias escolas, com a câmara ou com juntas de freguesia, para aproveitar uma próxima vez que vá aos Açores e fazer uma coisa grande e deixar projectos criados para que depois possam dar continuidade ao trabalho através de workshops ou limpezas de praia, por exemplo.
No fundo o meu objectivo é também deixar este bichinho, não só da mudança do dia-a-dia, mas também de haver a possibilidade de recriar algum projecto que dê continuidade ao trabalho do lixo zero nos Açores.

Considera que o facto de se ser ilhéu e viver próximo do mar deverá acelerar a vontade de viver uma vida mais sustentável?
Nós defendemos o que amamos, por isso se tivermos um contacto maior com a natureza e se usufruirmos da natureza, o que vai acontecer é que temos uma ligação maior com a natureza, o que deverá acontecer, na minha perspectiva, com aqueles que vivem em ilhas.
Imagino que se vivesse numa ilha teria uma ligação ainda maior com a natureza. Se as pessoas tiverem essa ligação muito forte vão querer proteger a natureza, e isso passará de imediato por produzir menos lixo. 

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