Rotas gastronómicas (15)

“O Governo deve abrir mais os olhos e ver que, devido a este grande aumento do turismo, não estamos a ter resposta com a formação que existe”

Em Abril de 2014 abria a Taberna Açor, na Rua dos Mercadores, numa altura que ainda não seria marcada pelo grande fluxo de turistas que hoje se faz sentir em São Miguel por conta da abertura do espaço aéreo. 
Por esse motivo, conta o seu proprietário, o estabelecimento passou por três fases diferentes, sendo a primeira marcada pela necessidade de dar a conhecer o serviço principalmente aos clientes locais, num contexto ainda marcado pela crise económica, apresentando tábuas de queijo, tapas e petiscos regionais que, embora incluíssem produtos simples, constituíam uma oferta que não existia no mercado.
Assim, de acordo com Pedro Raposo, embora os primeiros momentos fossem sempre vividos “na expectativa de que poderia não haver uma boa aceitação”, a realidade é que com a vinda do turismo em massa “os locais acabaram por fazer muita publicidade e tudo foi passando de boca a boca, uma vez que este continua a ser o melhor tipo de publicidade por mais que tenhamos o TripAdvisor ou outros recursos da internet”.
Por conta da publicidade feita boca a boca, o empresário adianta que chegou já a receber clientes da Austrália, Nova Zelândia, Peru e, até, de Hong Kong, “que foram recomendados por outros turistas que cá estiveram”, explicando ainda que mesmo após a partida, é frequente receber na “taberna” postais e lembranças desses turistas.
Para além disso, Pedro Raposo conta ainda que costuma aceitar reservas de alguns turistas com uma antecedência de um ano: “Muitos turistas dizem que querem voltar e outros até fazem reservas com um ano de antecedência. Os locais fazem reservas de um ano para o outro para a PDL White Ocean e os turistas sempre que sabem que vão voltar fazem reserva para aquele dia com hora e tudo”, conta.
No que diz respeito aos locais, o empresário salienta que, pela sua perspectiva, a grande dificuldade que é colocada tem a ver com a “dificuldade em comer fora devido ao grande fluxo de turismo”, uma vez que “o turista faz reservas com uma antecedência de até três semanas e o local não faz isso”.
“Isso é normalíssimo, mas temos que ter a noção de que não vamos chegar a um restaurante com muito movimento e ter logo lugar. Por isso, esta abundância de turismo tem que fazer com que os locais comecem a mudar de mentalidade em termos de ir comer fora, mesmo que de Inverno isso não aconteça como no Verão”, explica o proprietário de um dos restaurantes mais famosos do centro histórico de Ponta Delgada.
Apesar dos preconceitos que, na sua perspectiva existem, dando a ideia de que é dada preferência ao turista e não ao cliente local, Pedro Raposo esclarece que “não se trata de dar preferência aos estrangeiros, simplesmente eles vêm às 17h30 para jantar e não há nenhum açoriano que queira jantar a essa hora e depois disso o movimento nunca pára, por isso quando o local chega aqui às 20h00 para jantar é normalíssimo que eu não tenha mesas livres”.
No que diz respeito à dificuldade sentida por grande parte dos empresários dedicados à restauração, na Taberna Açor este é também uma das dificuldades reconhecidas, uma vez que nem através do Centro de Emprego se conseguem referências de pessoas qualificadas na área de cozinha.
Porém, mesmo com estas dificuldades, Pedro Raposo salienta que todos os seus empresários são açorianos e que “a maioria nem tem formação em hotelaria. Neste momento tenho duas pessoas que chegaram da Escola de Formação Turística e Hoteleira (EFTH), um é estagiário e outro está a tempo inteiro”.
“Os restantes funcionários têm apenas a experiência da vida, mas são pessoas inteligentes e que se habituaram aos novos mercados. Não são o tipo de empregado que fica em banho-maria, porque nós por exemplo fazemos cocktails e os empregados que vêm para aqui têm que aprender a fazer cocktails embora não sejam obrigados a saber quando cá chegam”, conta.
Porém, adianta que “num momento em que abrem hotéis, restaurantes, bares e snack-bares em simultâneo”, está na altura de “o governo abrir mais os olhos e ver que, devido a este grande aumento de turismo, nós empresários, não estamos a ter resposta na formação que existe. É preciso arranjar uma solução rapidamente, senão o governo terá que parar esse boom porque nós não temos pessoas habilitadas para o aguentar”, afirma.
Para além disso, e tendo em conta a dificuldade que alguns formandos da EFTH demonstram ter para se adaptarem aos diversos serviços ligados à restauração que existem nos Açores, “a escola deveria ter atenção na formação e dizer que há certos espaços onde há mais movimento e que o trabalho é mais intensivo. Esse é um problema que a escola tem, prepara os alunos para um restaurante de um hotel, por exemplo mas não para negócios como este”.
São dificuldades como estas que, no entender de Pedro Raposo, levam a que alguns empresários sintam a necessidade de recrutar mão-de-obra do estrangeiro, uma vez que é algo que compreende que seja feito “em situações de agonia”.
No seu caso, chegou também a ter propostas de pessoas de outros países que tinham o desejo de trabalhar em São Miguel, “mas isso criaria um conflito interno. Sei que estamos a ter muitas dificuldades em encontrar funcionários para essas áreas, principalmente para a cozinha onde até no centro de emprego dizem que não há ninguém adequado (…) mas continuo a dizer que não há essa necessidade ainda”, conclui.

“Na restauração todos deveriam 
ser exigentes no que diz respeito ao 
álcool que é servido”

Um pouco mais adiante, descendo a Rua dos Mercadores em direcção à Rua da Alfândega, facilmente encontramos um dos cafés mais emblemáticos do centro histórico de Ponta Delgada que hoje conta com 93 anos de existência, preparando assim o caminho para assinalar o seu primeiro centenário de existência. Há 28 anos que o Café Royal é gerido por José Maria Dias, que promete fazer “uma festa centenária” quando chegar o momento.
Ali vão diariamente clientes que considera “quase como família”, mas adianta que desde a abertura do espaço aéreo têm também aparecido muitos continentais e estrangeiros, que ali procuram um espaço agradável para poderem desfrutar de comidas ligeiras como bifanas ou pregos, ou ainda das já habituais e tradicionais lapas grelhadas.
Para além de considerar que esta foi uma medida fundamental para “desapertar o cinto” dos empresários deste ramo, José Maria Dias afirma que antes disto acontecer, “estávamos atrasados quase 50 anos quando em comparação com a Madeira e é uma pena porque os Açores têm muito para oferecer”.
Porém, e tendo em atenção o tipo de negócio que gere, o empresário afirma ter também alguma dificuldade em encontrar pessoas dispostas a trabalhar no Café Royal, uma vez que “as pessoas que se formam hoje vão trabalhar para hotéis ou cozinhas” e que, “embora haja folgas, o estabelecimento nunca fecha e nem todos querem trabalhar num sistema de horários rotativos”.
Com o aumento do número de clientes, José Maria Dias viu-se perante a necessidade de contratar mais funcionários, passando de uma equipa com sete funcionários para uma equipa composta por 13 pessoas, relembrando no entanto que, no tempo da crise, chegou a fazer “muitas coisas sozinho e com o apoio do genro”.
No que diz respeito aos tempos da crise, o proprietário do Café Royal relembra tempos em que “até aquele que tinha dinheiro se retraia ao ouvir essa palavra”, e que, na maior parte das vezes, quer fosse Verão, quer fosse Inverno, “às 19h00 olhávamos para a Matriz e nem aquele cliente indesejável aparecia”.
Por cliente indesejável José Maria Dias entende “aqueles que perturbam o ambiente e que mesmo assim a polícia não faz nada em relação a isso. Estou a falar de pessoas que recebem o rendimento social de inserção e que quando o recebem a primeira coisa que fazem é meter-se nos copos sem educação nenhuma”.
Como outro dos principais problemas que descreve estão também “aquelas pessoas que se metem à volta das mesas da esplanada a pedir esmola. Mendigar não é crime, estar a dormir na rua com uma bebedeira também não é crime, mas não deveria ser permitido beber na via pública”, desabafa.
No que diz respeito à venda de álcool, e uma vez que principalmente nas manhãs dos fins-de-semana é muito procurado por aqueles que saem das discotecas “que andam a fechar muito tarde”, o empresário adianta que “devia haver um maior controlo ao se servir álcool a menores de 18 anos”, adiantando que por intermédio de uma inspecção “fomos a tribunal por termos servido álcool a uma moça que parecia ter mais do que 18 anos”.
“Há aí muitas crianças com 12 ou 13 anos a beber que é uma coisa séria. Por isso, de manhã, aos Sábados, Domingos e feriados eu não sirvo bebidas alcoólicas. Só a partir das 10h00 da manhã”, salienta, uma vez que é nesses momentos que recebe muitos jovens que chegam a partir das discotecas, adiantando por isso que “na restauração, todos deveriam ser exigentes consigo próprios no que diz respeito ao álcool que é servido”.


 

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