FACE A FACE!.. com a cabeça de lista do CDS/PP/A à Assembleia da República

Rui Martins: “Mais do que os poderes da República ou da Região, o que interessa é gerir de forma responsável o nosso mar”

 Correio dos Açores - Descreva os dados que o identificam perante os leitores!
Rui Martins - Tenho 39 anos, sou casado, tenho dois filhos e vivo no Faial.

Fale-nos do seu percurso de vida no campo académico, profissional e social?
Concluí o ensino secundário nos Estados Unidos e licenciei-me em Farmácia em Coimbra. Comecei a minha vida profissional no Hospital de Peniche e depois ingressei nos Serviços Farmacêuticos do Hospital da Horta. Ao nível social sou activo no associativismo ambiental e cultural na área do teatro, cinema e sobretudo na área musical. Fiz parte de vários grupos de entre os quais destaco os Bandarra.

Como se define a nível profissional?
Falar em causa própria é sempre difícil, no entanto, considero-me um profissional empenhado e que encara o serviço público com naturalidade. Foi com grande responsabilidade, empenho e desprendimento que assumi o mandato de deputado na ALRA em rotação, e regressei posteriormente às minhas funções no Hospital da Horta com o mesmo sentido de responsabilidade e empenho.

Quais as suas responsabilidades?
Sou pai de dois rapazes, que são a minha maior responsabilidade! Profissionalmente, estou em funções de coordenação dos Técnicos Superiores de Diagnóstico e Terapêutica de Farmácia do Hospital da Horta. No associativismo cultural estou mais activo, actualmente, na Associação Cultural Música Vadia. Politicamente, faço parte da Comissão Política Regional do CDS, sou líder da bancada e deputado municipal pelo CDS no Faial e Presidente da Comissão Política de Ilha.

Como descreve a família de hoje e que espaço lhe reserva?
O que me parece é que os valores tradicionais que tinham um peso na construção de representações sociais e que assentavam numa divisão tradicional de papéis entre homens e mulheres, está cada vez mais esbatido e tem vindo a perder importância. As famílias de hoje são muito mais dominadas pela dimensão afectiva. O principal valor é o amor, qualquer que seja o modelo e a estrutura familiar. Actualmente, as famílias estão também mais centradas nos filhos e julgo que aquilo que importa hoje para uma criança é ser amada e apoiada pela sua família.

Quais os impactos mais visíveis do desaparecimento da família tradicional?
Os valores da família fazem parte da nossa cultura e estão enraizados no nosso modo de ser. Somos um povo que tem uma identidade secular e fortes laços de pertença às nossas famílias e comunidades e isso é determinante nas respostas sociais que vamos hoje encontrando para fazer face ao problema. Como profissional de saúde, um dos aspectos que mais associo ao desaparecimento da família tradicional é o abandono dos nossos idosos. Uma sociedade que não consegue cuidar dos seus mais desfavorecidos é uma sociedade em crise de valores. 

Qual a sua opinião sobre a forma como a sociedade está a evoluir?
Creio que vivemos um tempo de paradoxos. Temos mais riqueza disponível, mas não conseguimos erradicar a fome. Vivemos num mundo de grandes recursos económicos e não temos soluções para o fenómeno das migrações. Temos mais ciência, mas temos menos capacidade de respondermos aos efeitos das alterações climáticas. Vivemos num mundo de informação, mas acabamos muitas vezes desinformados. Compete-nos a todos, na humildade do que cada um pode fazer, alertarmos para os perigos e responder aos desafios do futuro.  

Que importância têm os amigos na sua vida?
Os amigos são uma pedra basilar. São os que nos conhecem e nos aceitam com os nossos defeitos e feitios.

Para além da profissão que actividades gosta de desenvolver no seu dia-a-dia?
Cozinhar para a família, passear o Tavares (cão da família), política, associativismo cultural e tocar música.

Que sonhos alimentou em criança?
Queria saber tocar todos os instrumentos musicais e ser astronauta!

O que mais o incomoda nos outros?
A inércia.

Que características mais admira no sexo oposto? 
A capacidade de não embarcar em generalizações de género.

Gosta de ler? Diga o nome de um livro de eleição?
Sim, infelizmente agora não leio tanta literatura quanto gostaria… Leio mais planos e orçamentos, execuções orçamentais… Leio, no entanto, muito mais literatura infantil, e talvez por isso a obra que indico não seja nenhum clássico, mas um livro que conta uma história que muito gosto por se focar em valores como a honra dos compromissos assumidos, o espírito de grupo e a amizade, a preservação do ambiente, o respeito pela diferença e pela vontade da maioria; o saber, a harmonia entre as espécies e os direitos dos animais  “História da gaivota e do gato que a ensinou a voar”,  de Luís Sepúlveda. É uma fábula que valoriza os princípios básicos da convivência humana.

Como se relaciona com o manancial de informação que inunda as redes sociais?
Não tenho redes sociais. Considero que são instrumentos importantes e boas formas de chegar, por exemplo, ao eleitorado. São boas formas de obter informação, mas nada que não consiga ultrapassar. Quando preciso de saber alguma coisa, faço pesquisas direccionadas.

Conseguia viver hoje sem telemóvel e internet? 
Já vivi sem telemóvel e sem internet. Agora não é que não consiga, simplesmente são instrumentos que me facilitam o contacto e a troca de ideias. Depender da comunicação por sinais de fumo seria, eventualmente, muito profícuo para o conhecimento interior, mas dificultaria certamente a efectividade da comunicação.

Costuma ler jornais?
Sim. Apesar de gostar bastante de edições impressas, admito que actualmente consumo muitos conteúdos jornalísticos em formato digital.

O que pensa da política?  
Julgo que a política é uma parte integrante da existência humana. O homem é político. Julgo que a imagem que enquanto cidadãos temos da política portuguesa e dos actores políticos, é que está grandemente degradada. O principal factor, na minha perspectiva, tem que ver com a pouca pedagogia acerca do funcionamento da nossa democracia. A maioria das pessoas não sabe que não se vota no primeiro-ministro ou no presidente do Governo, a não ser que se seja eleitor no círculo eleitoral por onde o putativo candidato ao cargo concorra. O outro problema tem que ver com o facto de não confrontarmos os nossos eleitos com a sua acção política. Julgo que o simples facto de me apresentar como alternativa, com ideias e projectos para debater é participar na política activamente. Faço-o em cidadania, democraticamente, que é uma conquista da geração dos meus pais. 

Gosta de viajar? Que viagem mais gostou de fazer?
Imenso, e não tanto quanto gostaria, pelo conhecimento de outras realidades. Talvez por isso a viagem que mais me marcou tenha sido a Marrocos. Pelo choque cultural. Uma sociedade muito diferente do dito mundo ocidental, nos hábitos e costumes. Têm, no entanto, um sentido de comunidade, sobretudo no que toca a educação dos mais novos, fabuloso… para lá da educação formal há uma educação comunitária, em que a falta de respeito é censurada. Para além disso, também o valor da palavra e do compromisso são de relevar.

Quais são os seus gostos gastronómicos? E qual é o seu prato preferido?
Gosto sobretudo de grelhados… um churrasco de carne, peixe ou vegetais, de forma indiferenciada, caberia no meu prato preferido. Também nunca digo não a um cozido.

Que notícia gostaria de encontrar amanhã no jornal?
Que a pobreza tinha acabado nos Açores e em Portugal. Em nota de rodapé: CDS elege um deputado à Assembleia da República pelos Açores.

Se desempenhasse um cargo governativo descreva uma das medidas que tomaria?
Resposta firme na erradicação da pobreza. O Estado não tem que ter apenas respostas de contingência para o problema da pobreza. Apesar de ouvir sempre falar de programas e soluções, o paradigma não muda. Não é de facto um problema novo na nossa história colectiva, mas é porventura o maior fracasso social de quatro décadas da nossa democracia e é urgente olharmos de uma maneira séria para todas as implicações da sua existência no plano individual, familiar e social. É preciso comprometermo-nos todos em encontrar respostas efectivas para o problema. 

Qual a máxima que o/a inspira?
Há duas, ambas de Mark Twain. Uma que tenho como mote para a vida:
“Daqui a vinte anos, ficarás mais desapontado com as coisas que não fizeste do que com as que fizeste. Então liberta-te das amarras. Navega para longe do porto seguro. Apanha os ventos alísios nas tuas velas. Explora. Sonha. Descobre.”
E outra na qual penso, sobretudo em assuntos políticos: 
“Cada vez que te encontrares do lado da maioria, é tempo de fazer uma pausa e reflectir.”

Em que Época histórica gostaria de ter vivido?
A actual. Nos últimos 30 anos vivemos, porventura, dos maiores saltos civilizacionais. Muito por força das novas tecnologias e da velocidade da partilha de informação conseguimos avanços científicos notáveis. A grande diferença dos tempos actuais para qualquer outra época ou descobertas excepcionais, é a aplicação que essas descobertas têm quase no imediato. O processo e os frutos da evolução científica talvez nunca tenham sido tão imediatos como agora.

Existem as condições ideais para o CDS/PP eleger, pela primeira vez, um deputado à Assembleia da República? O facto de ser natural do Faial pode influenciar?  
O círculo eleitoral da Região elege 5 deputados à Assembleia da República e historicamente foram sempre eleitos 3 deputados pelo PSD e 2 pelo PS, ou vice-versa. Analisando o histórico de votações é fácil perceber que o “voto fiel” elege dois deputados de cada partido (PS e PSD), ou seja, os primeiros 4 lugares de 5.O último eleito (o quinto deputado) é o que é decidido por todos aqueles que, antes de votar, olham para os candidatos, pelo seu valor, pelas suas propostas e pela sua capacidade.
Isto leva-nos a uma interessante conclusão: qual será o faialense que integrará o grupo de deputados dos Açores na República nos próximos 4 anos? E coloco as coisas nestes termos porque o terceiro da lista do PS é João Castro, a terceira da lista do PSD é Ilídia Quadrado, e o cabeça de lista do CDS sou eu mesmo. Factos são factos. Qualquer cabeça de lista de um partido que não o PS e PSD estará sempre a concorrer directamente com o terceiro desses dois partidos. Cabe aos açorianos escolher entre um número três cujas ideias quase desconhecem, ou o número um que se expõe e o qual depois pode ser confrontado com os seus compromissos.

Como pretende mobilizar o eleitorado abstencionista?
Sobretudo através das nossas causas. Pretendo mostrar que o CDS é e sempre foi um partido de causas. Somos um partido de matriz democrata-cristã. A nossa acção política assenta em princípios e valores no reconhecimento da pessoa, da família, da responsabilidade social e da dignidade das condições de vida. O ambiente e a sua sustentabilidade aparecem nos manifestos eleitorais do CDS desde 1979. Fomos o primeiro partido na Região Autónoma dos Açores a apresentar um plano de mitigação de alterações climáticas. Fomos o primeiro partido a apontar para um plano geotérmico nos Açores. Fomos o primeiro partido a exigir a descontaminação dos solos e aquíferos da Terceira enquanto todos os outros a negavam. As pessoas sabem que um voto no CDS é um voto num trabalho contínuo em nome de uma justiça social assente em princípios e valores.

Quais são as suas grandes bandeiras para as próximas eleições legislativas nacionais?
As questões ambientais apresentam hoje uma dimensão vital para o nosso futuro. É preciso responder a este contexto de emergência climática e isso só é possível se se tomarmos medidas para respondermos ao problema. Precisamos da instalação de radares meteorológicos que o CDS sempre exigiu. Precisamos de mais investimento nas áreas das energias renováveis e queremos mais apoios para a Geotermia. Acreditamos que o mar tem de ser um efectivo desígnio nacional e é necessário saber protegê-lo, atentar na investigação e promover o conhecimento. Queremos que o nosso património histórico e militar seja recuperado em nome da nossa cultura e da nossa identidade. Queremos que o Estado cumpra com a descontaminação dos solos e aquíferos da Ilha Terceira.  Queremos um regime de apoio à Universidade dos Açores que permita a sua afirmação estratégica no contexto regional, nacional e internacional. Não são bandeiras eleitorais. São medidas concretas.  São, a par de outros, os nossos compromissos perante os eleitores.

A gestão do mar dos Açores, ao longo da linha de água desde os fundos até à superfície deve ser feita pelos Açores? Como disse já, o mar tem que ser abordado como um desígnio nacional. Muito do nosso futuro depende da maneira como o defendemos e preservamos. A gestão partilhada é a solução. A nível das funções de soberania defendemos a instalação de infraestruturas e mais recursos da marinha portuguesa. A nível científico defendemos a inventariação dos recursos e a investigação. Trata-se, efectivamente, de um desígnio. Não percebo aqui a controvérsia política. O que se pede é competência na gestão. Compete a ambos os governos agirem em conformidade. Mais do que os poderes da República ou da Região, o que interessa é gerir de forma responsável o nosso mar.

Há os defensores de que os Órgãos de Governo Próprio (Parlamento açoriano e Governo dos Açores) devem representar o Estado nos Açores em toda a sua dimensão, com excepção para áreas como a Defesa e Negócios Estrangeiros?  
Os açorianos têm uma autonomia em reconhecimento de um anseio histórico do seu povo, mas a ideia não foi sustentada na edificação de um Estado paralelo. Na minha opinião, o aprofundamento da nossa autonomia deve dar respostas concretas na melhoria de vida dos açorianos, em melhor educação e saúde, na fixação de serviços para evitar o despovoamento, na mobilidade e nas acessibilidades, na gestão eficiente do nosso mar, no investimento na investigação e na ciência. Esses é que são os problemas que temos que resolver. É isso que os açorianos querem. Não creio que haja um problema de sistema de poderes que preocupe os açorianos. O problema é mais na responsabilidade das políticas e da gestão pública dos nossos recursos públicos nacionais e regionais.

Concorda com a criação de um Conselho de Concertação das Autonomias?
A nossa autonomia não é uma obra acabada. A autonomia é, em face das dinâmicas de contexto, um processo em (re)construção permanente e nesse sentido é necessário um aprofundamento permanente entre o Estado e o poder autonómico. Mas entendo que isso deve ser feito através dos respetivos departamentos governamentais e no quadro das respectivas assembleias. Esta medida é num certo sentido alarmante. Apesar de termos na República e nos Açores um governo socialista, eles não estão a conseguir trabalhar juntos e isso é um facto político que importa considerar. Os governos existem para governar. O que os açorianos querem é que o Governo Regional e o Governo da República governem. É essa a sua responsabilidade. Foi esse o compromisso que assumiram.

O cargo de Representante da República deixou de fazer sentido? Como deve ser substituído?
Há funções de soberania que estão centradas no Presidente da República e lhe conferem um papel nuclear no funcionamento das instituições democráticas e na representação da unidade do Estado e, nesse sentido, sou contrário às ideias que defendem a figura do Presidente dos Açores ou a concentração dos poderes políticos em outras figuras como o Provedor da Autonomia. Na minha opinião, qualquer uma delas é pior solução do que aquela que está hoje consagrada na constituição. Numa Região de décadas de maiorias absolutas, qualquer das soluções apontadas pode constituir um perigo para a nossa autonomia democrática. A Constituição Portuguesa é de 1976 e estamos em 2019. Porventura já não haverá, devido ao avanço nas comunicações, a necessidade de um representante físico na região, mas, se assim for, os seus poderes devem ser centralizados no órgão de soberania originário: a Presidência da República. 

Tem algo mais que queira acrescentar no âmbito desta entrevista?
Em Outubro próximo vamos eleger os representantes dos Açorianos na Assembleia da República. Não posso deixar de apelar à participação de todos, sobretudo dos mais jovens. Está em causa o seu futuro. É preciso que se envolvam. Que tragam as suas causas, a sua energia, a sua irreverência e a sua vontade de ir em frente.  A Região e Portugal precisam do seu contributo na causa pública. 

                                                         

Print
Autor: João Paz

Categorias: Regional

Tags:

Theme picker

Revista Pub açorianissima